Paulo Russell-Pinto visitou o Bartolomeu Bistro & Wine e surpreendeu-se com a qualidade da sua oferta gastronómica. Localizado na Ribeira do Porto, o espaço vistoso não compromete a identidade gastronómica nacional.

Contactos:

Bartolomeu Bistro & Wine
Morada: Rua Mouzinho da Silveira, 228. Porto.
Telefone: 226 090 003
Horário: Aberto todos os dias das 12h30 às 00h.

O buliço que a Ribeira do Porto ficou sujeita com o crescimento do turismo fez com que se multiplicasse a oferta gastronómica na zona com a abertura de vários espaços entre a estação de São Bento e a ponte Luiz I, vulgo, Dom Luís. Todas estas novidades serão bem-intencionadas, mas o Porto não é diferente de outros locais onde a gentrificação avança: Sacrifica-se um pouco a identidade e surgem locais mais “clean”, vistosos aos olhos dos turistas, mas também desfasados da realidade, caros e comprometendo a identidade gastronómica nacional.

Por outro lado, parece haver quem prefira não comprometer a gastronomia portuguesa e se preocupe em fazer pratos com criatividade e sabor em simultâneo, e é isso que importa. É o caso do Bartolomeu Bistro & Wine, instalado num salão burguês de um prédio recuperado para uma guest house de luxo, de pé direito alto e decoração colonial moderna, cores quentes, grandes janelas e muito confortável.

Centrada a oferta numa lista curta, mas ambiciosa, de pratos pequenos, a atração começa pela sopa de melão com hortelã e presunto, apurada com vinho do Porto, densa, com a presença do fruto no sabor e alternada pela crocância de um bom presunto, seco e bom de sal. Ou a tosta de chevre com pistácio, servida quente e num pão neutro de base densa, onde a intensidade do queijo e do mel combinam muitíssimo bem. A salada de cogumelos, cevada e espinafres, semelhante a um cevadotto que veio no ponto, a prevalecer o amido e a sua textura cremosa, misturado com cogumelos e equilibrado com texturas angulosas dos frutos secos partidos. Todo um prato de grande persistência na boca. O tártaro de carne, clássico da restauração, servido com maionese de alho e tostas, proposto a partir de uma carne finamente cortada e bem temperada, em que o final ácido da cebola e dos outros temperos fazem-me viajar para o norte da Europa. Com um final muito prolongado, exige um vinho à altura para harmonizar todos os sabores! Também há um de atum, que chegou à temperatura ambiente e deveria ter chegado mais fresco. Um piscar de olhos ao sashimi por causa do molho à base de soja numa marinada de pedaços grandes. E a maionese de rabano que ajuda a equilibrar um prato de sabores fortes. Neste tártaro, o risco e a ousadia dão frutos!

A cavala curada é um prato desafiante. Cura a deixar a carne firme, comido sozinho parece prevalecer sobre tudo. Mas misturado com a saladinha que está por baixo do peixe, tudo se equilibra. Esta saladinha tem um final de gengibre que ajuda, e muito bem, a cortar com a intensidade da proteína. Tem de se gostar, mas é um prato muito bem conseguido. O ovo a baixa temperatura, fluído, servido com cogumelo firme, cebolada com toque doce, deixando o final fresco e leve. Tudo misturado, resulta num prato completo e com várias texturas.

Mas o prato surpreendente que valeu as minhas visitas, pela sua simplicidade, é o saboroso e complexo crepe de alfarroba. Uma folha de farinha leve e escura com recheio magnífico à base de bacon na cura certa, legumes e creme. Prevalece a delicada mistura de sabores dada pelos ingredientes escolhidos, que leva a um final prolongado e apetitoso. E vontade de pedir mais, sim!

Nos vinhos, o lado “wine” do nome do restaurante, a lista é variada, cobre várias regiões de Portugal e pode oferecer ao cliente interessado uma boa viagem pelo nosso país vinícola.

Arriscando sabores contrastantes, a cozinha do Bartolomeu soube sempre apresentar pratos equilibrados e cheios de sabor que, não sendo intimamente portugueses (nem creio pretenderem ser), sabem dar ao cliente a sensação de conforto e prazer que precisa para o resto da visita ao centro histórico do Porto.