Paulo Russell-Pinto encontrou conforto fora de casa na Foz do Douro, no Porto, no restaurante Treze %, onde o espaço é familiar e a comida mostra-se acolhedora e com os sabores certos.

Na Foz do Douro há um restaurante que é triplamente familiar. Primeiro, porque é gerido por dois irmãos, depois porque a comida é familiar e informal e finalmente porque se vê muitas famílias sentadas nos seus lugares: pais, mães, filhos pequenos e grandes, avós, tios e primos. E amigos. Num “bairro” do Porto com uma fortíssima composição residencial, este restaurante parece ser um lugar de encontro das famílias que comem cada vez menos em casa mas procuram lugares confortáveis para conviver.

“Treze %” parece vir do statement da restauração dos tempos da troika (foi nessa altura que abriu), altura em que se reivindicava o IVA na restauração a esse valor quando este tinha passado para 23, como os outros serviços prestados. Os clientes deixaram cair o “por cento” e apelidam carinhosamente o espaço como “o treze”.

Instalado num espaço comprido de uma loja de um prédio, é composto por três partes, sendo que o último terço é um jardim com um quadro preto onde é frequente ver as crianças a brincar enquanto as suas mesas esperam pela comida. Os outros dois são um pátio fechado onde se servem as refeições e o mais perto da entrada e da cozinha, a sala de jantar propriamente dita. Tudo decorado em tons claros e iluminados e madeiras de tons leves.

A refeição pode começar por umas setas douradas, cogumelos bem grelhados e depois temperados com flor de sal e que chegam quentes, cremosos e com as pontas crocantes. Uma combinação para fazer abrir o apetite. Os ovos rotos têm umas batatas estaladiças, um ovo mal frito que envolve as ditas e um presunto de grande qualidade por cima. O presunto pode também ser pedido como entrada à parte e nunca falha. Fatiado fino e saboroso. Já tenho escrito noutros textos que a qualidade dos presuntos servidos em Portugal é inconsistente, pelo que é bom saber que o Treze % se preocupa com o que serve.

Nos pratos principais destaca-se o rosbife, vermelho no seu interior, fatiado muito fino e servido com molho de carne e mostarda, que acrescenta a complexidade desejada a este clássico. O molho ainda pode servir para molhar a batata palha, de tão intenso que é. A coxa de pato confitada apresenta-se dourada e doce, porque é servida com um molho de laranja que ajuda a quebrar os sabores fortes da confitura, resultando num bom equilíbrio final. Também veio um folhado de aves, que pedi com arroz branco e salada e se revelou complexo de sabores e com a massa estaladiça e seca, como se pretende. Nas carnes, ainda houve espaço para um costoletão, que provém de vaca velha (mas não maturada) e que foi servido mal passado. Resultou numa textura densa e apaixonante, com as variações necessárias entre o tostado da grelha por fora e a crueza da carne no seu interior. Ao Domingo há cabrito, servido de forma tradicional com arroz de miúdos, cozedura no ponto e nunca demasiado seco de nenhuma das vezes que foi pedido. Nos peixes, os filetes de pescada dourados, secos e frescos são uma opção mais conservadora que não desilude e o bacalhau à Braga revelou uma posta boa e bem demolhada, embora o molho azeitado servido em demasia tenha feito uma parte das batatas fritas ficarem ensopadas. Já a versão à Brás chega cremosa e aromática, dando vontade de repetir sempre que possível.

No Treze % a lista de vinhos cumpre mas é curta e conservadora, o que nos deixa às vezes com vontade de viajar mais com as combinações gastronómicas que seria possível fazer com tanta variedade de pratos. A cozinha, no pico do trabalho pode demorar um bocadinho e há que ter paciência. O serviço de sala, muito atento e preocupado, também se torna com o tempo carinhoso e familiar, claro está!