Em Portugal, para a hotelaria e restauração o ano de dois mil e dezanove foi excecional. Muitos prémios. Excitação imobiliária. Galas milionárias. Champagne, muito Champagne!

Lembram-se? Valia tudo. Expulsavam-se idosos das casas onde viviam há 40 ou 50 anos. Licenciavam-se alojamentos locais atabalhoadamente, digo, à boa tradição portuguesa. Piscava-se o olho ao capital de risco. Distribuíam-se vistos gold como panfletos do Lidl. Investimento e crédito eram palavras de ordem. 

“Make Portugal great again!” Diziam eles. Os do charuto cubano, ao mesmo tempo que se deleitavam com as resmas de chinesinhos, rua acima, rua abaixo, totalmente emaranhados entre mapas e selfie sticks

Do outro lado estava o zé povinho, entre a espada e a parede, ad aeternum

Enfim, assistimos a um desenvolvimento socioeconómico totalmente desequilibrado.

A mão de obra, nesta área, era escassa e, por isso, os salários aumentaram vertiginosamente. Ah! Espere. Estava distraído! Continuaram ao nível do ano 2000. Assim é que é.

E, como em qualquer história, há sempre um eis que. Esta não foi excepção. Eis que em meados de março o sistema, este, conforme o conhecemos, entra em colapso: o turismo vai de férias, a restauração fica em banho-maria e a aviação aterra. 

Pois bem, ao longo da história da civilização humana foram várias as capacidades que esta espécie desenvolveu para que a sua sobrevivência fosse possível.

Todavia, milhares de anos depois, segundo Nassim Taleb, continuam a persistir duas grandes lacunas na nossa inteligência, tais como: a ilusão da compreensão, onde todos pensam que sabem o que se passa, assim como a constante distorção regular da retrospectiva, pois apenas somos capazes de avaliar as situações após acontecerem. 

De uma forma simplificada o que estas lacunas têm em comum? O excesso de achismo, i.e., achamos que tudo o que nos rodeia é compreensível, mais explicável e logo mais previsível. 

Dissecamos a realidade conforme nos convém sem nos lembrarmos que o histórico de um processo de vinte anos nada nos diz acerca do que poderá acontecer a seguir.  

No dia em que o presente for passado continuaremos a desenvolver opiniões com base em evidências débeis e teremos,  novamente, dificuldade em digerir informação posterior que as contradiga, mesmo que até sejam mais exatas.

O momento que atravessamos, nesta indústria em particular, não é único nem será caso isolado. Atesta, uma vez mais, que o fator aleatoriedade está perigosamente oculto no que sempre e desde sempre tomamos como garantido. 

Não será o funeral do setor, como se apregoa, mas está muito próximo do caos – que nada mais representa que a engrenagem de um futuro mais forte e equilibrado (espero eu, inocentemente). 

Servirá, na melhor das hipóteses e a curto prazo, para rebocar os senhores de todas as certezas à terra de todas as dúvidas.