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	<title>Hugo Brito, Autor em Etaste</title>
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	<description>Um portal para todos os amantes e profissionais de gastronomia</description>
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	<title>Hugo Brito, Autor em Etaste</title>
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		<title>#resistir Hugo Brito: A minha avó</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Hugo Brito]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Apr 2020 16:50:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste momento aterrador e incompreensível que atravessamos (e que ainda me parece irreal ao acordar a cada manhã), tenho-me lembrado muito da minha avó e tenho-lhe sentido a falta. Ela vinha de um mundo em que coisas como estas aconteciam e eram reais e eu de um mundo que estava, até há poucos dias, convencido de as ter deixado há muito para trás.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-hugo-brito-a-minha-avo/">#resistir Hugo Brito: A minha avó</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
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<p>Não sou daqueles cozinheiros que aprendeu a cozinhar com a avó.&nbsp;</p>



<p>O que a minha avó me ensinou é muito recente, aprendi-o já depois de ela ter morrido, e mesmo isso só porque, quando penso nela, as memórias são quase todas de refeições e de coisas que a via fazer pelo canto do olho enquanto brincava pela cozinha e a que só agora dou atenção e tempo.</p>



<p>Aprendi a cozinhar na escola de cozinha.&nbsp;</p>



<p>Com a minha avó aprendi (e isto parece-me mais importante), a distanciar-me uns passos e a perceber que nenhuma situação, por mais grave que seja, é definitiva, e que, comparadas com a imensidão e o tempo do mundo, vamos lá, nenhuma delas é assim tão importante&#8230;</p>



<p>Neste momento aterrador e incompreensível que atravessamos (e que ainda me parece irreal ao acordar a cada manhã), tenho-me lembrado muito da minha avó e tenho-lhe sentido a falta. Ela vinha de um mundo em que coisas como estas aconteciam e eram reais e eu&nbsp;de um mundo que estava, até há poucos dias, convencido de as ter deixado há muito para trás. Ela saberia lidar com isto, e eu estou a ter grandes dificuldades, e dava-me imenso jeito tê-la aqui à mão&#8230;</p>



<p>Quando havia qualquer crise na família, fosse a discussão que escalava até ao corte de relações entre parentes, um divórcio inesperado, a prima que, chegada à idade adulta, assumia uma sexualidade até então escondida (para espanto e desgosto dos&nbsp;meus tios e desconforto desajeitado de todos nós), ou fosse a minha troca secreta do curso de sociologia pelo de artes, e a descoberta, imediata e dramática, da manobra pelos meus pais, a minha avó mantinha-se serena, pouco apressada em julgar qualquer das partes, e menos apressada ainda em entregar-se ao dramatismo com que nós – menos sábios do que ela &#8211; lidávamos com estas, que nos pareciam enormíssimas questões.</p>



<p>Um dia, depois de almoçarmos o seu arroz de bacalhau (e demorou-me anos, mil perguntas a despropósito, e um talento cultivado para a espionagem, a aprender-lhe a manha), perguntei-lhe de onde vinham esta tolerância e esta recusa em dar importância (e combustível) a estas coisas. Ainda mal desamarrado da adolescência, eu apostava na indiferença de quem vê a morte aproximar-se a passo rápido e não está para aborrecer-se ou perder tempo com trivialidades, de quem já desistiu e pronto, está a arrumar os seus assuntos, mas ela, com a enorme paciência de quem sabe que o mundo só se explica, ao garoto que eu era, com lentidão e ternura, respondeu-me que não, que não era isso, que era simplesmente porque já tinha vivido muito, visto muitas coisas, sofrido muitas perdas, e que o mundo, e essas certezas absolutas do mundo, já se lhe tinham mudado todas mais do que uma vez, e que tinha percebido, fazia já muito tempo, que nenhum desses problemas que tanto nos torciam os intestinos eram importantes, que iriam&nbsp;todos passar e ser esquecidos, e que as únicas coisas que importavam eram os nossos princípios, e a família, e o amor que nos temos uns aos outros, e que, depois disso, o que fosse que ficasse de fora era só barulho, e não importava nada.</p>



<p>Não sei se a minha avó conhecia a história que se segue (não estou a vê-la a querer saber de persas e dos seus anéis, por isso não me parece)&#8230;</p>



<p>Desde que há duas semanas nos vimos a todos metidos nesta situação, lembro-me&nbsp;muito da minha avó e depois lembro-me desta história, e quando me lembro desta história, lembro-me da minha avó, e ando nisto em giros, e por isso lá vai a história:</p>



<p>Como ma contaram, houve um monarca Persa que reuniu sábios de todo o mundo e pediu-lhes&nbsp; – e havia torres de ouro, sobre uma mesa de ouro, sobre um pavimento de ouro, para recompensar aquele que primeiro o conseguisse &#8211; que encontrassem uma frase que, inscrita num anel, lembrasse ao rei, num golpe de vista, que quaisquer infortúnios e tristezas têm um fim, que o desalento e a dor inevitavelmente acabam.</p>



<p>Infelizmente para o rei (e sê-lo-á realmente?), <em>īn nīz bogzarad – “também isto passará” –</em> que, após dias de recolhimento e discussão, foi a frase que, em consenso, os sábios lhe propuseram &#8211; cumpria o proposto, mas também lhe lembrava imediatamente que, assim como a infelicidade não é eterna, se dissolve e passa, também a alegria, a beleza e a verdade são frágeis, duram apenas instantes, e também elas desaparecem a seu tempo.</p>



<p>Ouvida pelo rei, que esperava algo mais otimista, esta frase pareceu-lhe um copo meio vazio, mas podemos decidir nós agora olhar para ela como um copo meio cheio (como, aposto, o decidiria a minha avó).&nbsp;</p>



<p>Uma moeda ao ser lançada é neutra, e só depois, quando aterra, é que acaba a predizer um futuro conforme o jeito de mão, o ângulo de visão, o peso, a vontade e o desejo de quem a agarra no ar. A moeda e os arcos que descreve são pouco importantes, o que vale sempre no fim é a mão que a apanha.</p>



<p>A beleza e o otimismo foram-se e é quase impossível lembrarmo-nos que alguma vez existiram ou acreditar que regressem (e isto parece-nos ainda mais irreal a cada manhã).</p>



<p>Garante-nos a outra face da mesma moeda que também o terror que atravessamos vai eventualmente acabar<em>, </em>e que mesmo esta destruição e esta tragédia vão acabar por não ter alternativa senão acabar a servir-nos de andaime para a reconstrução inevitável que aí há de vir. Ainda que demore algum tempo, e nos pareça improvável e remoto, vamos &#8211; e não há-de faltar assim tanto tempo &#8211; voltar a sentir o calor do sol no rosto (é o que,  aposto, nos diria a minha avó, momentos antes de nos mandar levantar os pratos e talheres da mesa e ir despejar o lixo à rua&#8230;).</p>
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