Não sou daqueles cozinheiros que aprendeu a cozinhar com a avó. 

O que a minha avó me ensinou é muito recente, aprendi-o já depois de ela ter morrido, e mesmo isso só porque, quando penso nela, as memórias são quase todas de refeições e de coisas que a via fazer pelo canto do olho enquanto brincava pela cozinha e a que só agora dou atenção e tempo.

Aprendi a cozinhar na escola de cozinha. 

Com a minha avó aprendi (e isto parece-me mais importante), a distanciar-me uns passos e a perceber que nenhuma situação, por mais grave que seja, é definitiva, e que, comparadas com a imensidão e o tempo do mundo, vamos lá, nenhuma delas é assim tão importante…

Neste momento aterrador e incompreensível que atravessamos (e que ainda me parece irreal ao acordar a cada manhã), tenho-me lembrado muito da minha avó e tenho-lhe sentido a falta. Ela vinha de um mundo em que coisas como estas aconteciam e eram reais e eu de um mundo que estava, até há poucos dias, convencido de as ter deixado há muito para trás. Ela saberia lidar com isto, e eu estou a ter grandes dificuldades, e dava-me imenso jeito tê-la aqui à mão…

Quando havia qualquer crise na família, fosse a discussão que escalava até ao corte de relações entre parentes, um divórcio inesperado, a prima que, chegada à idade adulta, assumia uma sexualidade até então escondida (para espanto e desgosto dos meus tios e desconforto desajeitado de todos nós), ou fosse a minha troca secreta do curso de sociologia pelo de artes, e a descoberta, imediata e dramática, da manobra pelos meus pais, a minha avó mantinha-se serena, pouco apressada em julgar qualquer das partes, e menos apressada ainda em entregar-se ao dramatismo com que nós – menos sábios do que ela – lidávamos com estas, que nos pareciam enormíssimas questões.

Um dia, depois de almoçarmos o seu arroz de bacalhau (e demorou-me anos, mil perguntas a despropósito, e um talento cultivado para a espionagem, a aprender-lhe a manha), perguntei-lhe de onde vinham esta tolerância e esta recusa em dar importância (e combustível) a estas coisas. Ainda mal desamarrado da adolescência, eu apostava na indiferença de quem vê a morte aproximar-se a passo rápido e não está para aborrecer-se ou perder tempo com trivialidades, de quem já desistiu e pronto, está a arrumar os seus assuntos, mas ela, com a enorme paciência de quem sabe que o mundo só se explica, ao garoto que eu era, com lentidão e ternura, respondeu-me que não, que não era isso, que era simplesmente porque já tinha vivido muito, visto muitas coisas, sofrido muitas perdas, e que o mundo, e essas certezas absolutas do mundo, já se lhe tinham mudado todas mais do que uma vez, e que tinha percebido, fazia já muito tempo, que nenhum desses problemas que tanto nos torciam os intestinos eram importantes, que iriam todos passar e ser esquecidos, e que as únicas coisas que importavam eram os nossos princípios, e a família, e o amor que nos temos uns aos outros, e que, depois disso, o que fosse que ficasse de fora era só barulho, e não importava nada.

Não sei se a minha avó conhecia a história que se segue (não estou a vê-la a querer saber de persas e dos seus anéis, por isso não me parece)…

Desde que há duas semanas nos vimos a todos metidos nesta situação, lembro-me muito da minha avó e depois lembro-me desta história, e quando me lembro desta história, lembro-me da minha avó, e ando nisto em giros, e por isso lá vai a história:

Como ma contaram, houve um monarca Persa que reuniu sábios de todo o mundo e pediu-lhes  – e havia torres de ouro, sobre uma mesa de ouro, sobre um pavimento de ouro, para recompensar aquele que primeiro o conseguisse – que encontrassem uma frase que, inscrita num anel, lembrasse ao rei, num golpe de vista, que quaisquer infortúnios e tristezas têm um fim, que o desalento e a dor inevitavelmente acabam.

Infelizmente para o rei (e sê-lo-á realmente?), īn nīz bogzarad – “também isto passará” – que, após dias de recolhimento e discussão, foi a frase que, em consenso, os sábios lhe propuseram – cumpria o proposto, mas também lhe lembrava imediatamente que, assim como a infelicidade não é eterna, se dissolve e passa, também a alegria, a beleza e a verdade são frágeis, duram apenas instantes, e também elas desaparecem a seu tempo.

Ouvida pelo rei, que esperava algo mais otimista, esta frase pareceu-lhe um copo meio vazio, mas podemos decidir nós agora olhar para ela como um copo meio cheio (como, aposto, o decidiria a minha avó). 

Uma moeda ao ser lançada é neutra, e só depois, quando aterra, é que acaba a predizer um futuro conforme o jeito de mão, o ângulo de visão, o peso, a vontade e o desejo de quem a agarra no ar. A moeda e os arcos que descreve são pouco importantes, o que vale sempre no fim é a mão que a apanha.

A beleza e o otimismo foram-se e é quase impossível lembrarmo-nos que alguma vez existiram ou acreditar que regressem (e isto parece-nos ainda mais irreal a cada manhã).

Garante-nos a outra face da mesma moeda que também o terror que atravessamos vai eventualmente acabar, e que mesmo esta destruição e esta tragédia vão acabar por não ter alternativa senão acabar a servir-nos de andaime para a reconstrução inevitável que aí há de vir. Ainda que demore algum tempo, e nos pareça improvável e remoto, vamos – e não há-de faltar assim tanto tempo – voltar a sentir o calor do sol no rosto (é o que, aposto, nos diria a minha avó, momentos antes de nos mandar levantar os pratos e talheres da mesa e ir despejar o lixo à rua…).