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	<title>Tiago Pais, Autor em Etaste</title>
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	<description>Um portal para todos os amantes e profissionais de gastronomia</description>
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	<title>Tiago Pais, Autor em Etaste</title>
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		<title>Fernando Fernandes: “Defendi, defendo e defenderei a cozinha portuguesa até ao fim dos meus dias.”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago Pais]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Aug 2019 09:59:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Bica do Sapato]]></category>
		<category><![CDATA[Chefe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1981, Fernando Fernandes abre um restaurante, o Pap’açorda, que viria a mudar o panorama da restauração na capital e a marcar a época dourada do Bairro Alto. Em 1999 lança-se na aventura Bica do Sapato.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Apesar de ter saído com apenas cinco anos da sua aldeia-natal, nos arredores de Montalegre, Fernando Fernandes mantém o sorriso largo e a afabilidade próprias de um transmontano. Considera-se, no entanto, mais lisboeta que qualquer outra coisa. E a cidade deve-lhe muito. Em 1981 abre um restaurante, o Pap’açorda, que viria a mudar o panorama da restauração na capital e a marcar a época dourada do Bairro Alto. Em 1999, quando Lisboa se aproxima finalmente do Tejo, no rescaldo da Expo, lança-se na aventura Bica do Sapato. Podia ter replicado o Pap’açorda — Manuel Reis, sócio e amigo de uma vida, chegou a sugerir-lhe que o fizesse. Mas Fernando quis mais, quis diferente. E quis bem. Passaram 20 anos, entretanto. Duas décadas em que a cidade mudou muito, esta área de negócio também, mas em que a Bica do Sapato manteve uma linha contínua, uma identidade, um conforto caloroso que tanto atrai os de nunca como os de sempre. O mesmo conforto caloroso do sorriso de Fernando.</p>



<p><strong>Abre o Pap&#8217;Açorda no início dos anos 80.</strong></p>



<p>Em 1981. Mas antes disso já tinha tido um restaurante na Costa da Caparica. A minha vida está toda publicada por aí.</p>



<p><strong>Considera que nessa altura era mais fácil ou mais difícil a vida de um empresário da restauração?</strong></p>



<p>Muito mais fácil. </p>



<p><strong>Porque não havia tanta coisa?</strong></p>



<p>Porque era tudo muito mais facilitado. Se calhar foi fácil para mim. Quer dizer: “fácil”, entre aspas. Não foi tão fácil como isso. Porque para conseguir empréstimo, por exemplo, era bem mais difícil. Mas acho que hoje em dia é muito mais difícil pela concorrência, que é imensa. E também pela aprendizagem das próprias pessoas. As pessoas sabem muito mais hoje em dia de gastronomia — falo do próprio público — do que sabiam na altura.</p>



<p><strong>Por saber mais, o público hoje é mais exigente?</strong></p>



<p>Muito mais.</p>



<p><strong>Nota-o em que medida?</strong></p>



<p>As pessoas estão mais informadas, sabem muito bem o que estão a comer. Sabem o paladar das coisas. Atenção, não que eu alguma vez tivesse dado diferente do que estava a vender. Mas havia muitas coisas que, no início no Pap&#8217;açorda e mesmo na Bica do Sapato, não sabiam o que era. Alguns pratos que eram novidade e as pessoas não faziam ideia o que eram os produtos. Vieiras, por exemplo — havia muita gente que não sabia o que era. Peixe-galo ninguém sabia, hoje toda a gente sabe. Rodovalho, que era um peixe que eu descobri na Figueira da Foz, que em Lisboa não se comia, e eu trouxe para cá. É normal, hoje as pessoas estão muito mais informadas, interessam-se muito mais por esta área.</p>



<p><strong>Na altura do Pap’açorda, também por esse desconhecimento, tiveram de desbravar muito terreno. </strong> </p>



<p>Tivemos, sim. O que me fez escolher o Bairro Alto foi precisamente porque não havia nada de muito interessante nessa zona. Havia umas tascas e depois havia os restaurantes de luxo: o Avis, o Gambrinus, o Tavares Rico. Não havia nada intermédio. Eu senti na altura — era um miúdo, tinha 22 anos — a falta de um restaurante intermédio, que fosse uma comida de tasca mas que já desse um guardanapo de pano, uma toalha de pano, que era uma coisa em que as pessoas não pensavam na altura. Senti falta de um restaurante que tivesse já um brilho qualquer mas que, ao mesmo tempo, tratasse da cozinha portuguesa. E isso foi sempre a minha base, aquilo onde eu cresci. Defendi, continuo a defender e defenderei até ao fim dos meus dias a cozinha tradicional portuguesa. Mas um pouco mais alegre&#8230;</p>



<p><strong>Uma cozinha portuguesa com outra roupagem?</strong></p>



<p>Sim, com outra roupagem. Foi isso que quis: uma cozinha que tivesse um paladar que estivesse na memória das pessoas mas que, ao mesmo tempo, tivesse uma roupagem nova, trouxesse uma linguagem nova.</p>



<p><strong>O Fernando chegou a envolver-se na operação da cozinha?</strong></p>



<p>Sim, no início. Estive um ano à frente da cozinha do Pap&#8217;açorda.</p>



<p><strong>No primeiro ano?</strong></p>



<p>Não foi no primeiro ano, foi num ano intermédio, já não me lembro se o quinto se o sexto. Quem começou na cozinha foram os meus irmãos. Depois veio a Manuela [Brandão] que ainda hoje é quem está no Pap&#8217;açorda. Mas houve ali um período de interregno entre chefes em que eu tive de saltar para a cozinha.</p>



<p><strong>Mas suponho que lhe agrade mais estar na sala, ter contacto directo com o cliente.</strong></p>



<p>A mim agrada-me tudo. Mas sim, sempre fui muito mais de sala do que propriamente de cozinhas. Esta área tem muitos desafios, a sala, a gestão. É uma vida. Digamos que é como gerir uma casa mas a um nível muito maior, muito mais alargado.</p>



<p><strong>Quando abriu o Pap&#8217;açorda era, como disse, um miúdo, tinha 22 anos. Há-de ter cometido alguns erros. </strong> </p>



<p>Imensos, claro. Mas não teria feito nada diferente. Porque eu parti para esta vida desistindo de um curso de Economia. Ainda estava no primeiro ano e não voltei. Foram anos conturbados: nessa altura, em 1977, ainda no rescaldo do 25 de abril, estava tudo em alvoroço. Mas, como dizia, comecei sem saber absolutamente nada nem sobre gestão, cozinha, de como é que se servia, como é que não se servia. Não sabia absolutamente nada. Portanto, quando me faz a primeira pergunta, se era mais fácil, era mais fácil porque naquele tempo podia partir-se do zero sem se saber e ir aprendendo. E as pessoas permitiam isso, também. Hoje em dia as pessoas já não o permitem. O mercado não era tão exigente nem tão cruel. Hoje em dia é completamente impossível. Ou tem minimamente conhecimento de alguma coisa que seja forte ou não consegue.</p>



<p><strong>E como é que aprendeu?</strong></p>



<p>Fui aprendendo com os próprios clientes e com o próprio negócio em si. Portanto fui vendo e aprendendo com a própria experiência: &#8220;para aqui não&#8221;, &#8220;para ali sim&#8221;, &#8220;vamos fazer isto&#8221;, &#8220;vamos fazer aquilo&#8221;.  </p>



<p><strong>Acha que também há um lado de instinto?</strong></p>



<p>Sim, é possível que também haja. Mas, por exemplo, cometeram-se alguns erros nalguns pratos que depois se acertavam. Às vezes, também, na gestão com o pessoal, que não era assim que se devia tratar, mas foi-se aprendendo. Eu aprendi muito com os meus erros. E aprendi muito com o meu público, os meus clientes. Aprendi imenso com eles —  com 20 e poucos anos absorve-se tudo.  </p>



<p><strong>A energia de um miúdo também é diferente. Trabalhava muitas horas?</strong></p>



<p>Montes de horas. Sempre. Aliás, nunca deixei de trabalhar. Mesmo hoje em dia nunca deixei, mas isso faz parte da profissão. Porque quem tem um objectivo tem de trabalhar para ele e para o conseguir atingir.</p>



<p><strong>Com tudo o que aprendeu, entretanto, que conselho é que daria ao Fernando que estava a desistir da faculdade para começar nesta área?</strong></p>



<p>Diria: segue o teu sonho, vai em frente. No fundo é o que eu digo ao meu filho.</p>



<p><strong>Ele trabalha nesta área, também?</strong></p>



<p>Sim, é ele que está à frente do Pap&#8217;açorda. Ele tirou o curso em Les Roches, em Marbella, e adora isto. Formou-se lá, gosta imenso, nada que eu tivesse imposto.  </p>



<p><strong>Há, pelo contrário, quem até afaste os filhos desta área</strong>.</p>



<p>Mas eu não. Ele cresceu no meio do Pap&#8217;açorda. E com certeza isso tem alguma influência. Mas eu não impus absolutamente nada e ele adora isto.</p>



<p><strong>Isto é uma área que, na sua opinião, exige uma vocação especial?</strong></p>



<p>Exige sacerdócio. Uma dedicação absoluta. Eu ando há 40 anos nisto, já vou a caminho do 41º e ainda não consegui encontrar ninguém que faça as coisas como eu quero, como eu penso que devem ser. Portanto, é muito difícil e tem que se estar presente. Claro que tenho tido a ajuda de muita gente, porque isto não se faz sozinho de maneira nenhuma. Mas não há, digamos, ninguém que faça exatamente como nós queremos. Há alguém que faz aproximado mas não completamente.</p>



<p><strong>Continua a gostar muito daquilo que faz?</strong></p>



<p>Imenso, é a minha vida. Não sei fazer mais nada. Nem sei nada de electricidade, não sei nada de outras coisas.</p>



<p><strong>Não perdemos um grande economista, portanto.</strong></p>



<p>Não, absolutamente (risos).</p>



<p><strong>Se tivesse de apontar uma fórmula para o sucesso nesta área, qual seria?</strong></p>



<p>Não há fórmulas exactas, isso não existe.</p>



<p><strong>Mas o Fernando tem dois restaurantes bem sucedidos, há-de saber alguma coisa.</strong></p>



<p>Há uma coisa que é fundamental: a persistência. Não desistir e tentar chegar ao objectivo com que se iniciou. E não sair da sua filosofia, da linha que se definiu.</p>



<p><strong>O Fernando nasceu perto de Montalegre, é transmontano.</strong></p>



<p>Sou mais lisboeta hoje em dia. Vim com cinco anos para Lisboa.</p>



<p><strong>Mas é curioso que há muitos empresários desta área da restauração que vêm de Trás-os-Montes. Acha que são melhores a receber?</strong></p>



<p><strong>Qual é a área que acha mais complicada de gerir neste negócio?</strong></p>



<p>Eu acho que é tudo. É tudo por igual, nada é fácil. Toda a gestão do pessoal, tanto na cozinha como na sala, os recursos humanos é, provavelmente, a coisa mais difícil. É preciso estar muito atento ao que se faz, à melhor maneira que há-de fazer, estar informado e, sobretudo, ser uma boa pessoa.</p>



<p><strong>Entre a Bica do Sapato e o Pap&#8217;açorda consegue eleger um favorito?</strong></p>



<p>Não, não tenho. Gosto dos dois. Tal como gostei do Pap&#8217;açorda no Bairro Alto. Mas foi uma fase.</p>



<p><strong>Teve pena de sair do Bairro Alto? Olha com nostalgia para essa fase?</strong></p>



<p>Não, porque vivi muito intensamente os anos todos que lá estive. E foi uma fase. Acompanhei a transformação do Bairro Alto e para mim já não dava. Já não me identificava com o Bairro Alto, não tinha nada a ver. Eu era uma ilha no Bairro Alto, a minha proposta já não fazia sentido lá.</p>



<p><strong>Há-de ter sido um desafio, tentar decalcar o restaurante noutro sítio. É algo que não é muito habitual.</strong></p>



<p>Não foi decalcar exactamente igual porque não fazia sentido nem era possível. </p>



<p><strong>Mas pelo menos aquilo que o tornava especial, sobretudo a comida.</strong></p>



<p>Sim, foi transportar a mesma cozinha e os mesmos sabores mas num sítio diferente.</p>



<p><strong>E os clientes fiéis seguiram-vos?</strong></p>



<p>Sim. Uns gostam mais outros não, mas isso é como em tudo, é normal. Uns têm muitas saudades do outro sítio, dizem que não é a mesma coisa, comparam, mas não há comparação possível. Mas acho que é do agrado da maioria. As pessoas falarão disso.</p>



<p><strong>Quando abre a Bica do Sapato, o Pap&#8217;Açorda já tinha quase 20 anos. Não sentiu a tentação de replicar?</strong></p>



<p>Não, e toda a gente me dizia para o fazer. Aliás, o meu sócio Manuel Reis dizia-me muitas vezes: &#8220;Porque é que não se transporta o Pap&#8217;açorda para aqui?&#8221; Mas tal como em 1981 tentei fazer uma coisa nova, que não existia, fiz o mesmo quando houve a possibilidade de nos aproximarmos do rio, quando se deu a libertação destes edifícios. Já havia as Docas, já tínhamos estado em negociações com o Jardim do Tabaco, que não deram em nada, e depois, passados uns anos, foi-nos oferecida esta zona aqui. Então senti que podia fazer uma coisa nova, uma coisa que estava na altura a mexer por todo o lado e que em Lisboa não havia, que era dar importância aos chefes, ter uma cozinha mais moderna, mais contemporânea. Quis fazer esse trabalho e não estou nada arrependido.</p>



<p><strong>Muitos chefes passaram pela Bica do Sapato ao longo de 20 anos, mas enquanto alguns restaurantes vão mudando ao sabor de quem está na cozinha, aqui manteve-se sempre uma linguagem, uma linha condutora. É propositado?</strong></p>



<p>A maior mudança que houve foi esta que está a acontecer neste momento. Foi a mais radical. Anteriormente, tentei mudar mas nunca na totalidade, deixei sempre alguns clássicos. Porque as pessoas são de hábitos. E ficam chateadas, ficam aborrecidas, sentidas quando mudamos uma carta a que elas já estão habituadas. Quando sai um prato de que gostam. Claro que não podemos agradar a toda a gente porque isto é um restaurante que recebe muita gente. E cada pessoa tem o seu gosto particular. Portanto, para querer avançar não posso estar agarrado a um desejo ou um capricho de um cliente que ficou magoado porque eu mudei o prato. Mas as pessoas ficam mesmo magoadas. É uma chatice mas pronto, é assim.</p>



<p><strong>O Fernando acha que o cliente tem sempre razão?</strong></p>



<p>Infelizmente sim. Porque há momentos em que os clientes não têm razão absolutamente nenhuma, mas instituiu-se que o cliente tem sempre razão e portanto todo o cliente sabe de antemão que tem razão e pode dizer tudo aquilo que lhe vem à cabeça e que lhe apetece. E está errado.</p>



<p><strong>Como é que se gere isso?</strong></p>



<p> Com diplomacia, só. E há muita gente que não entende a diplomacia, e que não se sente bem com ela. Porque há clientes que só entram para fazer queixas, para dizer mal, porque ou vêm mal dispostos ou por qualquer outra razão. E por mais diplomacia que tenhamos não resulta, as pessoas não querem ouvir.</p>



<p><strong>Disse que esta mudança que fez agora foi das maiores dos 20 anos do restaurante.</strong> </p>



<p>Sim, foi das maiores. Foi onde eu fui mais radical. Apesar de ter deixado alguns pratos clássicos, mas fui mais radical.</p>



<p><strong>Coincide com a chegada do Henrique Mouro e do Pedro Rezende Pereira para a cozinha. </strong> </p>



<p>Sim, o [Manuel] Bóia, que era o chefe anterior, resolveu sair para abraçar outro projeto. E eu andei à procura mas o mercado de trabalho hoje está muito difícil, muito competitivo, há muita coisa a abrir. Há muita procura de profissionais e não há assim tanta oferta. O Henrique surgiu, lembrei-me que ele já tinha cá trabalhado no início, praticamente quando isto abriu, fui acompanhando o trabalho dele mas senti-o um bocadinho disperso. E pensei: &#8220;Porque não trazê-lo de volta?&#8221; Depois o Henrique é que me falou do Pedro, eles já tinham trabalhado juntos. E juntei os dois outra vez.</p>



<p><strong>Nunca se sentiu tentado a deixar a coisa funcionar em velocidade de cruzeiro?</strong></p>



<p>Não, não é possível. Isso não existe. Quer dizer: é capaz de existir, mas para fazer uma coisa dessas mais vale abandonar. Enquanto cá estiver tenho sempre a necessidade de estar actual, de procurar novos clientes, de manter os antigos, de fazer coisas actuais, sempre. Quando parar é para me reformar.</p>



<p><strong>E outra tentação, a de se expandir? Hoje vemos empresários que têm cinco, dez, quinze restaurantes&#8230;</strong></p>



<p>Não, tenho dois e chega bem. Não quero mais. Nunca senti essa tentação.</p>



<p><strong>Por uma questão de proximidade que quer ter dos negócios?</strong></p>



<p>Acho que tem mais a ver com a minha maneira de ser e com a forma como eu encaro a restauração. Eu vejo o negócio muito com o coração, não com a cabeça. Se calhar às vezes tenho alguns dissabores por causa disso. Não vejo o negócio como tal, para ganhar dinheiro ou só para ganhar dinheiro, que é o que hoje em dia vemos mais. Eu vejo o negócio com o coração. Faço as coisas para os clientes, para os lisboetas, para os portugueses. Para se sentirem bem, para estarem bem, para terem um local agradável. Não faço restaurantes para vender, senão não tinha durado tantos anos com os mesmos. Tinha feito, tinha vendido e tinha aberto outros a seguir.</p>



<p><strong>Teve essas oportunidades?</strong></p>



<p>Tive, montes delas. Muitas vezes.  </p>



<p><strong>E a de expandir os restaurantes que tem, também?</strong></p>



<p>Sim, convites não faltaram. Estou sempre a receber a convites de pessoas que querem abrir isto e aquilo e que me convidam. Mas eu não aceito. Para me focar tenho de ter pouca coisa.  </p>



<p><strong>Um colega seu dizia-me assim há uns tempos: &#8220;quando se tem um restaurante, tem-se um restaurante, quando se tem dois restaurantes tem-se meio restaurante e quando se tem três já não se tem restaurante nenhum.&#8221; Concorda?</strong></p>



<p>Sim, também sou dessa opinião. Não tenho nada contra quem abre e faz ótimos negócios e se expande. Acho é que é muito massivo e que se deixa de acreditar um bocadinho.</p>



<p><strong>Houve muita gente que talvez tenha achado que era agora ou nunca, por causa do turismo.</strong></p>



<p>Por causa do turismo, mas não só: houve gente que ficou desempregada e que achou bem abrir um restaurante. Há muitos apoios disponíveis, portanto acho lindamente, gente nova que abra. Agora: é uma coisa completamente fora da minha proposta. Porque o mundo mudou e é normal que Lisboa tenha crescido tanto, apesar de achar que é demasiado.</p>



<p><strong>Acha que cresceu demais? </strong> </p>



<p>Acho que é demais, sim, é pouco sustentável. Para a quantidade de habitantes que temos acho que é um exagero. Mas cada um sabe de si e cada um fará o negócio que melhor lhe convier. Mas acho que se dispersa um bocadinho e isto está quase ao nível de uma cidade de Madrid que tem quase o triplo de habitantes.</p>



<p><strong>O Fernando viaja muito para experimentar restaurantes?</strong></p>



<p>Sim, viajo. Gostaria de viajar mais do que o que viajo, não tenho muito tempo. Já viajei mais quando tinha só o Pap&#8217;açorda viajava muito mesmo. Hoje em dia é mais difícil.</p>



<p><strong>Tem alguma cidade predilecta que o inspire na restauração?</strong></p>



<p>Gosto imenso de Nova Iorque, gosto imenso de Madrid. Mas onde a restauração é top? Eu acho que hoje em dia está tudo muito globalizado.</p>



<p><strong>E o que é que pensa disso, de se encontrar o mesmo tipo de restaurantes em todo o lado?</strong></p>



<p>Isso é uma pena, e Lisboa também está nesse patamar, onde está a perder alguma identidade. E é por isso que eu batalho pela cozinha portuguesa, pura e dura, porque nisso não há engano possível — nada contra os outros tipos de cozinha.</p>



<p><strong>Porque a Bica do Sapato é um restaurante que, à vista, podia estar também em qualquer cidade, mas quando se abre o menu não há dúvida, é português.</strong></p>



<p>Já passei por essas fases todas: já passei por uma cozinha completamente moderna, entre aspas “gourmet”, já passei por outras e vou sempre acabar no que é português. Que é o que me dá vida para esta vida.</p>



<p>*Entrevista originalmente publicada na INTER 264</p>
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		<title>Ricardo Rodrigues : “Não me irás ver a fazer réplicas de restaurantes que já tenho.”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago Pais]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Jan 2019 12:59:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ricardo Rodrigues fala com orgulho visível da terra que o viu crescer e cujo panorama gastronómico revolucionou ao abrir quatro restaurantes em seis anos: Esquina do Avesso, Sushiaria, Terminal 4450 e Fava Tonka.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/entrevistas/ricardo-rodrigues-nao-me-iras-ver-a-fazer-replicas-de-restaurantes-que-ja-tenho/">Ricardo Rodrigues : “Não me irás ver a fazer réplicas de restaurantes que já tenho.”</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nasceu em Matosinhos
há 35 anos “só porque não havia um hospital em Leça da
Palmeira”, garante. Ricardo Rodrigues fala com orgulho visível da
terra que o viu crescer e cujo panorama gastronómico revolucionou ao
abrir quatro restaurantes em seis anos: Esquina do Avesso, Sushiaria,
Terminal 4450 e Fava Tonka. E apesar de todos terem ofertas e
conceitos específicos — <em>fine dining</em> informal, sushi,
<em>steakhouse</em> e vegetariano — há algo que os liga: cada um
deles é fruto de uma inquietação constante que não deixa Ricardo
estar muito tempo sem querer fazer mais, melhor e, sobretudo,
diferente.</p>



<p><strong>Como é que
passas de uma carreira nos bares para a restauração?</strong></p>



<p>Sempre
ambicionei ter um restaurante. Com o nascimento do [filho] Francisco
senti a necessidade de ter algo mais saudável para a minha vida.
Apesar de o Bit Bar, onde trabalhava, ser um pub e não estar colado
àquela noite pesada, queria algo mais brando. E o restaurante,
dentro desta área, achei que seria uma coisa fácil, pela minha
capacidade de mobilização. A minha mulher, entretanto, sai da Lion
of Porches, vem com fundo de desemprego, eu peço 10 mil euros
emprestados ao meu avô que depois acabaram por ser 15 mil — tive
que lhe pedir um extra para fazer a reforma do restaurante — e
avançamos para a Esquina.</p>



<p><strong>Que
começou por não se chamar Esquina do Avesso.</strong></p>



<p>Sim,
chamava-se Taberna da Esquina. Arrancámos naquela onda dos petiscos:
folhados de alheira com agridoce, esse tipo de coisa. Na altura era o
que estava a dar.</p>



<p><strong>Ao
fim de algum tempo mudam de nome e de conceito. Porquê?</strong></p>



<p>Foi
um restaurante que até deu lucro naquele registo e com um menu de
almoço competitivo. Só que era muita parra e pouca uva. Aquilo dava
pouco para o que trabalhávamos. E ao final de um ano percebi que não
me identificava com o tipo de cozinha. Queria diferenciar-me do
mercado e o caminho não era por ali. Já existir a Tasca da Esquina
em Lisboa — que eu não tinha noção — também não me ajudava a
diferenciar-me. 
</p>



<p><strong>É
aí que começas a trabalhar com o Nuno Castro, chefe executivo do
grupo. Já o conhecias?</strong></p>



<p>Conhecia-o
de Leça mas estive muito tempo sem o ver. Percebi que ele estava
insatisfeito no BH: tinham-lhe prometido um restaurante de
experiência gastronómica que rapidamente se transformou numa
cantina. Reunimos e quando começámos a falar houve uma sinergia
muito grande. Ele percebeu claramente para onde é que eu queria
caminhar. No início, até vinha com a ideia de me propor uma
consultoria e eu arranjar um chefe de cozinha mas passada uma semana
disse-me que queria ficar e não se importava de reduzir o que estava
a ganhar — ele estava a ganhar um bom ordenado e eu não podia
competir na altura — porque acreditava no projecto. 
</p>



<p><strong>Como
é que foi alterar o conceito de um restaurante que funcionava bem? </strong>
</p>



<p>Foram
oito meses, um ano, muito difíceis. Perdemos 70% da clientela que
tínhamos, pessoas que iam atrás daquele tipo de petiscos. Queriam a
alheira, à hora de almoço o panadinho. Também tivemos de subir os
preços.</p>



<p><strong>E
como é que foi lidar com os clientes perante a mudança?</strong></p>



<p>Teve
de haver um trabalho de mesa muito forte: explicar que mudámos o
chefe de cozinha, a nossa perspectiva. Que estávamos a potenciar uma
experiência gastronómica. Só que na altura ainda havia muita gente
colada ao tradicional português. E tu espicaçares o consumidor a
ter uma experiência gastronómica não é fácil. É educativo e
isso também acaba por dar prazer. Mas aquele ano foi muito difícil
para nós — tive de meter dinheiro do meu bolso para, às vezes,
suportar a casa. Perdeu-se muita gente, foi-se conquistando outra,
com um poder de compra diferente, com uma noção gastronómica
diferente. Notava-se que era um público mais viajado.</p>



<p><strong>Essa
mudança deu-se em algum momento específico ou foi gradual?</strong></p>



<p>A
mudança ao fim de dois anos para Esquina do Avesso, o fecharmos e
darmos um <em>refresh</em>
em termos de mobiliário e cozinha, fez com que as pessoas olhassem
para nós — quem não conhecia a casa, quem nunca lá tinha ido,
achou que aquilo era um restaurante novo que estava a abrir. Quem já
lá ia percebeu a transição porque a história estava documentada
na carta. Nós explicávamos o porquê da mudança de nome, o porquê
da mudança de alinhamento e as pessoas começaram a perceber.</p>



<p><strong>Chamar-lhe
“do Avesso” não foi por acaso.</strong></p>



<p>Sim,
a desconstrução do português. Apoiado na base da cozinha
portuguesa mas dar-lhe um toque de chefe, de criatividade. As pessoas
perceberam que o Avesso tinha a ver com a travessura, com
irreverência, com dinâmica. E a nossa carta é, de facto, muito
dinâmica: muda de três em três meses. O deixar ficar o Esquina e
introduzir o Avesso foi para passar para fora essa mensagem. Em
termos de comunicação funcionou muito bem. E coincide com um
momento em que a Sushiaria estava também a trabalhar muito bem. 
</p>



<p><strong>Como
é que surge esse segundo restaurante?</strong></p>



<p>Ao
final de dois anos, mais ou menos na altura da transição para
Esquina do Avesso, abrimos a Sushiaria. Havia imensos restaurantes de
sushi a abrir no Porto num registo de fusão, exageradamente fusão.
Muita filadélfia, muita manga, muito morango e como tudo o que
aparece no mercado que é novidade, as pessoas não têm muita noção
do que é que estão a comer. Só ao final de algum tempo é que se
começa a fazer um rastreio no mercado do que é que é bom e do que
é fraco e esses começam a fechar. Na altura, aquilo dava para tudo.
A nossa casa enchia todos os dias. Ao fim de semana fazia 40
<em>take-aways</em>
a uma sexta e 40 a um sábado. E andámos durante dois anos a
trabalhar naquele registo.</p>



<p><strong>E
depois mudaste novamente o registo, como tinhas feito no Esquina.</strong></p>



<p>Tens
que adaptar o teu negócio. O teu negócio é mutante, já não é
como há 20 anos em que abrias as portas do restaurante e ele
mantinha-se igual durante esse tempo. Tens que ser um gerente
adaptável, tens que perceber o mercado, tens que ir todos os dias
para casa estudá-lo, perceber o que é que são as tendências, o
que é que os chefes de cozinha querem. Por isso fizemos a transição,
começámos a trabalhar para um público diferente. Se calhar
perdemos no <em>take-away</em>,
mas ganhámos nos vinhos, com um carta mais evoluída: o cliente em
vez de pedir uma garrafa de 12€ pede uma de 35€.</p>



<p><strong>Abriste
mais dois restaurantes, depois: uma </strong><em><strong>steakhouse</strong></em><strong>
[Terminal 4450] e um vegetariano [Fava Tonka]. Porquê a aposta
sempre em diferentes conceitos?</strong></p>



<p>Não
me irás ver a fazer réplicas de restaurantes que já tenho. Surgiu
essa possibilidade, mas aquilo que eu acredito é que se tu abres um
restaurante dentro do género do que já tens acabas sempre por
prejudicar a marca-mãe. Depois passas uma mensagem para o mercado de
seres uma pessoa sôfrega em busca de dinheiro. E mesmo por uma
questão de realização pessoal acho muito mais interessante ires à
procura, mesmo cometendo alguns erros, de um mundo novo que te
obrigue a descobrir, a esgravatar, a esmiuçar, do que estares a
transitar no mesmo negócio. O mundo vegetariano era um mundo que eu
desconhecia completamente e é um mundo que me está a dar um prazer
enorme desbravar. Com as carnes foi exactamente o mesmo. Eu não abro
um restaurante no seu ponto máximo porque não tenho bases para
isso. Mas faço com que o restaurante seja forte logo à partida e
que ao longo do tempo possa tornar-se ainda melhor.</p>



<p><strong>Defines
prazos para que um restaurante atinja o seu potencial?</strong></p>



<p>Seis
meses para me dar uma noção de números: o que é que vou ganhar, o
que é não vou ganhar. Mas até adquirir uma zona de conforto em
termos de pessoal pode variar. O Terminal 4450 demorou para aí um
ano e três meses. Houve muita coisa que fomos aprendendo: carta,
cortes, como é que a hora de almoço tinha que ser gerida. E agora
queremos fazer uma zona de corte, uma zona de maturação, poder
vender a carne ao quilo, ter os maturados expostos e levar ao cliente
e ele escolher quantos dias quer. Evoluir a casa noutro sentido. A
casa continua a estar na moda, apesar de já ser um barco em
velocidade de cruzeiro. É preciso melhorar o conforto do mobiliário
e podermos evoluir nas maturadas. E tens de fazer isto não é quando
estás a cair, não é quando percebes que os números estão a
descer. Tens de fazer isso antes. Tens de te antecipar, perceber que
o negócio não vai durar para sempre.</p>



<p><strong>Sentes
sempre essa inquietação?</strong></p>



<p>Sempre
esta inquietação constante. É preponderante para que os
restaurantes, para que os conceitos não morram. Tu no Porto não vês
casas como a Esquina do Avesso, que já tem seis anos. O Terminal tem
três e continua de ano para ano a subir. O primeiro foi bom, o
segundo foi melhor e este ano vai superar. Isso dá-me orgulho,
obviamente, mas não dá para adormecer à sombra da bananeira: é
preciso correr atrás do prejuízo.</p>



<p><strong>Tens
um plano de médio-longo prazo? Do género: daqui a dois anos quero
estar aqui, daqui a cinco quero fazer isto.</strong></p>



<p>Propus-me
a de dois em dois anos abrir um restaurante. O máximo que alguma vez
irei ter são seis. Portanto faltam dois. Tenho que dividir um pouco
o risco, também.</p>



<p><strong>Definiste
esse limite pela proximidade que queres ter dos negócios?</strong></p>



<p>Sim.
Porque chega a um ponto em que tens de decidir. Ou cresces e assumes
o erro. E eu não vou aceitar o erro — naturalmente que aceito
alguns erros — mas algo que seja entregar o restaurante ao gerente
e deixar que ele vá em velocidade de cruzeiro, isso não. Quero
estar sempre presente e fazer parte das decisões. Portanto vai
chegar aqui uma altura em que eu não vou crescer mais.</p>



<p><strong>O
estar presente, para ti, é ponto essencial?</strong></p>



<p>Os
restaurantes têm de ter amor, têm de ter carinho, têm de ter
proximidade para com o cliente. E tu tens de ter essa proximidade
para com o funcionário para que ele tenha isso para com o cliente.
Quando tens uma gestão muito distanciada, dependente da estrutura:
aquilo até vai ser moda durante dois ou três anos mas ao final
desse tempo&#8230; Ou assumes esse risco e fazes o investimento para
recuperar o dinheiro em dois anos e o terceiro é lucro ou então, se
queres ter alguma continuidade no mercado só consegues isso através
do serviço, de manteres as pessoas, o teu núcleo duro que vai
mantendo familiarização com os clientes. 
</p>



<p><strong>Tens
os conceitos identificados para os restaurantes que te faltam?</strong></p>



<p>Um
italiano e um mexicano. Mas não gosto de abrir coisas iguais aos
outros. Gosto sempre de me diferenciar, de abrir com um cunho pessoal
para que as pessoas digam: “olha abriu uma coisa diferente.”
Nesta altura gostava de trazer um mexicano, que é algo que em Lisboa
funciona bem mas que no Porto não existe: há o Frida mas num
registo mais tradicional, estou a falar de uma <em>taqueria</em>.
Vou uma vez por ano ao México, adoro a comida mexicana, adoro a
cultura mexicana.</p>



<p><strong>E
o italiano?</strong></p>



<p>Desde
que fui a Copenhaga, conheci um italiano inacreditável, o Baest, com
umas mozzarellas incríveis de produção própria. Fiquei fã e
entusiasmadíssimo — como é que eles conseguem fazer tudo: dois
pisos de restaurante, em cima a parte de produção, em baixo a
confecção. Pessoal muito jovem a trabalhar, produto top. Então
gostava que passasse por aí. Seria um italiano auto-sustentável,
com produção própria: mozzarellas próprias, <em>bresaolas</em>
próprias, com massa feita dentro do espaço. 
</p>



<p><strong>A
ideia seria manteres-te em Leça da Palmeira?</strong></p>



<p>O italiano sim. O mexicano por ser um conceito muito urbano há uma possibilidade de ir para a Baixa do Porto. Mas sem me sujeitar a rendas exorbitantes.</p>



<p><strong>Não
te atrai mais a Baixa do Porto, nesta altura de crescimento da
cidade?</strong></p>



<p>Atrai-me
mas bate num problema grave que é a carga de rendas que os senhorios
tentam aplicar. Há um oportunismo muito grande, há um boom
imobiliário, ouve-se falar em rendas de 5/6 mil euros com uma
facilidade enorme. E tu vês negócios a abrir — alguns com ideias
até interessantes — e ao final de seis meses a fechar. Não
conseguem.  Os restaurantes que vão funcionando são aqueles que
conseguem ter um controlo de custos, que conseguem ter rendas
interessantes, por volta dos 1500 euros. Quem se mete nessas
maluqueiras dos 5/6 mil euros não vai conseguir fazer nada. Eu não
vou andar a trabalhar para senhorios, não é esse o meu propósito.</p>



<p><strong>Por
isso é que te tens mantido onde estás? </strong>
</p>



<p>Eu
nasci em Matosinhos mas só porque não havia hospital em Leça. E
como ganhei esta credibilidade em Leça através do bar, aquela
capacidade de mobilização, ficou a minha zona. E à medida que vais
crescendo vais tendo algum reconhecimento público, camarário, ao
nível da freguesia, em termos sociais, etc. Reconhecem que és um
factor de crescimento daquela zona. Vais criando postos de trabalho e
isso é um dos pontos importantes: criar postos de trabalho na minha
terra, Leça da Palmeira. É um motivo de orgulho para mim. 
</p>



<p><strong>Terias
feito alguma coisa diferente na tua carreira até aqui?</strong></p>



<p>Nunca
mais abro um restaurante só com 15 mil euros no bolso. Ficas
frustrado por andar dentro do restaurante a pensar que há sempre
coisas para fazer. 
</p>



<p><strong>Mas
não tinhas alternativa.</strong></p>



<p>Não
tinha alternativa, tinha de começar assim, bati com a cabeça contra
a parede. As coisas funcionaram, a realidade é essa. Mas
envelhece-te tanto, deixas de viver tanto, discutes tanto porque te
sentes frustrado, porque querias fazer determinado tipo de coisas que
não consegues: porque a cozinha é limitada, porque não tens ar
condicionado — só o instalei ao final de um ano. Não quis fazer
empréstimos bancários: a nossa perspectiva tem sido sempre abrir
restaurantes com o dinheiro dos outros. Mas a verdade é que naquele
momento se calhar devia ter feito um empréstimo e ter aberto o
restaurante com mais fôlego do que ter andado ali aos remendos.</p>



<p><strong>O
que aconselhas a quem quer abrir um negócio nesta área?</strong></p>



<p>Fazer
contas, ter noção da quantidade de horas que vão ter de trabalhar,
aquilo que vão ter de abdicar em termos sociais, as chatices que vão
ter com a família. As horas a que vão chegar a casa, se querem ter
filhos, se não querem ter filhos. A gestão humana que vão ter de
fazer e a dificuldade que é entrar no mercado. A minha avó diz-me
que &#8220;mais vale cair em graça do que ser engraçado&#8221;. Eu
demorei muito tempo a cair em graça. Andei aqui três anos em que
ninguém me conhecia. Agora, graças a Deus, caímos em graça as
coisas tornam-se um bocadinho mais fáceis. Mas é preciso lutar
muito para cair em graça. 
</p>



<p><strong>E
como é que vês, de uma forma mais global, o momento da restauração?
Que desafios existem, para onde é que achas que estamos a caminhar?</strong></p>



<p>Há
uma dificuldade muito grande em arranjar mão de obra com maturidade
profissional. Prevejo muitas dificuldades num futuro próximo para
restaurantes grandes, que necessitem de muita gente, arranjarem
pessoal jovem para trabalhar. Mesmo evoluindo as condições de
trabalho torna-se difícil arranjar gente qualificada. Por isso há
que manter as pessoas, há que manter o núcleo duro, há que dar
formação para o pessoal se sentir motivado. E actualmente há uma
fornada grande de miúdos a estudar cozinha por isso torna-se mais
difícil arranjar pessoal para sala do que para cozinha. 
</p>



<p><strong>Achas
que seria possível fazer alguma coisa para combater essa lacuna?</strong></p>



<p>Sugeri
à Câmara Muncipal de Matosinhos criar uma escola
técnico-profissional de hotelaria, onde se dariam formações
básicas de cozinha e de serviço de sala que seriam patrocinadas
pelos restaurantes, que pagariam a mensalidade e o produto para essas
escolas, que poderiam aproveitar todas as pessoas que estão no fundo
de desemprego. E propor-lhes fazer este curso.</p>



<p><strong>E
esse projecto não avançou?</strong></p>



<p>Ainda não, mas também é uma coisa que foi falada há seis meses com a Presidente da Câmara. Como na Doca Pesca ainda há armazéns que estão abandonados, se haveria a possibilidade de criar ali uma escola. E acho que com o apoio dos restaurantes se podia pegar nesses alunos e dar-lhes cursos técnicos de seis meses a um ano. Dar-lhes um sítio onde estagiar, esse sítio onde ganhar prática. Acho que em Matosinhos era importante encontrar uma escola técnico-profissional de hotelaria e restauração. Acredito que vá avançar, que vá demorar algum tempo, como tudo em Portugal que demora sempre algum tempo, mas era uma política interessante para diminuir a taxa de desemprego em Matosinhos.  </p>



<p></p>



<p>*Entrevista originalmente publicada na INTER 262</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/entrevistas/ricardo-rodrigues-nao-me-iras-ver-a-fazer-replicas-de-restaurantes-que-ja-tenho/">Ricardo Rodrigues : “Não me irás ver a fazer réplicas de restaurantes que já tenho.”</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">20502</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Paulo Rodrigues: &#8220;Queremos ser a droga dos restaurantes para os clientes. Criar-lhes dependência.&#8221;</title>
		<link>https://etaste.pt/entrevistas/paulo-rodrigues-queremos-ser-a-droga-dos-restaurantes-para-os-clientes-criar-lhes-dependencia/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=paulo-rodrigues-queremos-ser-a-droga-dos-restaurantes-para-os-clientes-criar-lhes-dependencia</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tiago Pais]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Oct 2018 10:36:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[gastronomia nacional]]></category>
		<category><![CDATA[inter magazine]]></category>
		<category><![CDATA[paulo rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[rei do leitões]]></category>
		<category><![CDATA[Tiago Pais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2011, o então bancário Paulo Rodrigues pegou na gerência do Rei dos Leitões. Manteve-lhe a soberania e o ex-libris, inovou em tudo o resto. O resultado? Transformou um restaurante de beira de estrada numa referência não só na região mas em todo o país.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/entrevistas/paulo-rodrigues-queremos-ser-a-droga-dos-restaurantes-para-os-clientes-criar-lhes-dependencia/">Paulo Rodrigues: &#8220;Queremos ser a droga dos restaurantes para os clientes. Criar-lhes dependência.&#8221;</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Em 2011, o entã</span>o bancá<span lang="pt-PT">rio Paulo Rodrigues pegou na ger</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia do Rei dos Leitões. Manteve-lhe a soberania e o ex-libris, inovou em tudo o resto. O resultado? Transformou um restaurante de beira de estrada numa refer</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia n</span><span lang="pt-PT">ã</span>o só na regi<span lang="pt-PT">ão mas em todo o pa</span>ís. </strong></p>
<p lang="pt-PT">Não tinha qualquer experi<span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia na restaura</span>ção. “Só mesmo como cliente”, afirma sem pudor. Isso não o impediu, porém, de pegar num restaurante que estava parado no tempo, e transformá-lo num caso de sucesso, numa região muito específica no que <span lang="fr-FR">à </span>restauração diz respeito, a Mealhada. Se o Rei dos Leitões é o que é hoje — e é uma refer<span lang="fr-FR">ê</span>ncia no país inteiro, não só <span lang="es-ES">na zona Centro </span>— muito o deve a Paulo Rodrigues, 44 anos, um ex-bancário que trouxe os princípios basilares que aprendeu nessa área de negócio para o restaurante septuagenário que a sua companheira, Licínia Ferreira, herdou da família.</p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O Paulo chegou ao Rei dos Leitões em 2011. O que </span>é <span lang="pt-PT">que estava mal?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Estava o servi</span>ç<span lang="pt-PT">o, estava a oferta, estava a carta de vinhos que era diminuta, estava a casa que estava </span>demodé<span lang="pt-PT">. Estava tudo um pouco cansado. Estava gasto. Mas os clientes tamb</span>é<span lang="pt-PT">m assim o permitiam. Porque vinham de qualquer maneira. Agora h</span>á <span lang="de-DE">leit</span><span lang="pt-PT">ã</span><span lang="es-ES">o de Bragan</span>ç<span lang="pt-PT">a a Faro. Mas antigamente não, para comer leitã</span>o só <span lang="pt-PT">na Mealhada. E as pessoas vinham, pagavam e agradeciam. E alguns ainda pediam desculpa no final. Hoje nã</span>o é <span lang="pt-PT">assim. Comer fora </span>é <span lang="pt-PT">para classe m</span>é<span lang="sv-SE">dia-alta. Pagar 18</span>€ <span lang="pt-PT">por uma dose de leitã</span>o — <span lang="pt-PT">que nos d</span>á 4€ <span lang="pt-PT">e pouco de margem, nã</span>o é nada — já n<span lang="pt-PT">ã</span>o é <span lang="pt-PT">para qualquer cliente.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong>N<span lang="pt-PT">ão havia uma base de clientes fi</span>é<span lang="pt-PT">is deste restaurante?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT">Já <span lang="pt-PT">havia clientes sim, mas que vinham, comiam o leitão&#8230;e pouco mais. Todos n</span>ó<span lang="pt-PT">s nos vamos acomodando com algumas situações. E os clientes que vinham procuravam sempre o leitão, o vinho frisante, as batatas e a salada. Quando o cliente entrava no Rei dos Leitõ</span>es já <span lang="pt-PT">sabia que era isto, nem sequer pensava &#8220;e se fosse de outra maneira?&#8221; Era isto. Mas era no Rei dos Leitõ</span><span lang="es-ES">es como </span>é <span lang="pt-PT">um pouco por toda a restauração na Mealhada.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Por onde </span>é <span lang="es-ES">que se come</span>ç<span lang="it-IT">a a mudar esse paradigma?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT">Nó<span lang="fr-FR">s aqui come</span>çá<span lang="pt-PT">mos por mudar tudo aquilo que era mais vis</span>í<span lang="pt-PT">vel aos olhos do cliente. Foi mudar a imagem, foi mudar a cozinha. Na altura, inclusive, contrat</span>á<span lang="pt-PT">mos uma cozinheira nova. E pronto, os resultados apareceram facilmente porque as pessoas notaram que passou a haver um cuidado maior. Demos bastante formação aos funcion</span>á<span lang="es-ES">rios </span>— <span lang="pt-PT">agora damos todos os anos mas naqueles primeiros tempos foi mais intensiva. Remodel</span>á<span lang="pt-PT">mos um pouco de tudo no restaurante.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Inclusive a oferta: procurou fazer diferente, com outros pratos que nada t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m a ver com leitã</span>o.</strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, fazer diferente para satisfazer o cliente. Porque em duas pessoas, a probabilidade de haver um que não goste de leitã</span>o é <span lang="fr-FR">grande.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong>Mesmo aqui na Mealhada?</strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Mesmo aqui na Mealhada. Garanto-lhe que num grupo de cinco ou seis pessoas dificilmente todas comem leitão. Muito dificilmente. Isto hoje. Antigamente comiam porque não tinham opção. Ou tinham aquelas opções triviais, banais: um bacalhau, um bife e pouco mais. Era o que havia. E do que conhe</span>ço é <span lang="es-ES">o que h</span>á <span lang="pt-PT">ainda hoje na Mealhada.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O peixe fresco foi uma grande aposta sua aqui desde o in</span>í<span lang="es-ES">cio. Porqu</span><span lang="fr-FR">ê</span>?</strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Eu vivi na Praia de Mira durante alguns anos. E vivia muito a arte x</span>ávega: aliá<span lang="pt-PT">s, ia ao mar com os pescadores. Quando comecei a vir para o restaurante, inicialmente ao fim de semana, passava na praia e trazia um robalo, umas douradas. Vendia-se tudo muito bem </span>— <span lang="pt-PT">se calhar, tamb</span>é<span lang="pt-PT">m, porque comecei a vir no verão e n</span>ó<span lang="es-ES">s formatamos a cabe</span>ç<span lang="pt-PT">a e achamos que o peixe </span>é no ver<span lang="pt-PT">ão. Trazia um quilo, suponhamos, num dia, depois no outro dia j</span>á <span lang="pt-PT">trazia um quilo e meio, ou dois quilos e tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s, quatro, cinco. Foi gradual. Depois fomos fazendo experi</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncias. H</span>á <span lang="pt-PT">sete anos que aqui estou e j</span>á <span lang="pt-PT">fizemos centenas de experi</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncias. Meter uns pratos mais assim, outros mais assado, alguns que ficam, caem bem, lembro-me por exemplo do bife Wellington, que entrou muito bem, o folhado de perdiz. E lembro-me de outros que fizemos e que não correram tão bem, não resultaram. Não criaram apet</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia nos clientes e tir</span>á<span lang="pt-PT">mos. Fazemos isso com muita frequ</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O cliente </span>é <span lang="es-ES">que manda?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, sim, sim. O cliente </span>é <span lang="pt-PT">que nos diz o que quer. N</span>ó<span lang="pt-PT">s temos que dar ao cliente aquilo que ele quer.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Enquanto gestor de um restaurante qual </span>é <span lang="es-ES">que </span>é <span lang="pt-PT">a sua grande prioridade?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Em primeiro lugar, a satisfação do cliente. Ali</span>á<span lang="pt-PT">s, em primeiro, em segundo e em terceiro lugar. É o cliente sair e definir logo a pr</span>ó<span lang="it-IT">xima vinda. Isso </span>é <span lang="pt-PT">o est</span>á<span lang="pt-PT">dio em que eu quero que estejam todos os clientes do Rei dos Leitõ</span>es.</p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="fr-FR">Trouxe princ</span>í<span lang="fr-FR">pios da banca que aplique na gest</span><span lang="pt-PT">ão do restaurante?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim. Especialmente do Santander. Estive na Caixa Geral de Dep</span>ó<span lang="pt-PT">sitos e depois no Santander. O foco no cliente, muito foco no cliente. Sermos rigorosos, sermos cumpridores, seja a abrir, seja no timing de sa</span>í<span lang="pt-PT">da de um prato, seja na validade dos produtos, na qualidade dos produtos, em tudo. Não abdicamos de rigor, muito rigor.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Acha, por isso, que a restauraçã</span>o é um negó<span lang="pt-PT">cio que se for bem gerido pode funcionar como qualquer outro?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Funciona como qualquer outro neg</span>ó<span lang="pt-PT">cio. Uma empresa </span>é <span lang="pt-PT">uma empresa. Seja a PT, seja o Rei dos Leitões. Os desafios são diferentes, claro. Mas a maneira de gerir, a intensidade com que se vive o neg</span>ó<span lang="it-IT">cio, essa </span>é <span lang="es-ES">basicamente igual. </span><span lang="pt-PT">É a mesma. Acho que nã</span><span lang="es-ES">o se inventa nada.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O Paulo não tinha experi</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia nenhuma em restauraçã</span>o, só <span lang="pt-PT">como cliente?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT">Exactamente, era só <span lang="pt-PT">mesmo como cliente. Eu sempre gostei de cozinha, sempre gostei de vinhos mas sem beber. E sempre tive uma vontade enorme de fazer as coisas. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong>N<span lang="pt-PT">ão gosta de beber mas construiu uma garrafeira com mais de 3000 refer</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncias. Como </span>é que se faz isso?</strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Eu sempre lidei muito com vinho, com garrafas de vinho, porque a minha mãe trabalhava na Junta Nacional do Vinho, o instituto regulador do vinho em Portugal, onde se faziam as an</span>á<span lang="pt-PT">lises e passavam as guias. Depois tornou-se o IVV [Instituto da Vinha e do Vinho], que entretanto tamb</span>ém já n<span lang="pt-PT">ã</span><span lang="es-ES">o existe. Mas l</span>á <span lang="pt-PT">em casa não se consumia, os meus pais pouco ou nada bebiam e eu penso que vem da</span>í <span lang="pt-PT">o facto de eu nunca ter bebido, não havia esse h</span>á<span lang="pt-PT">bito. Mas gostava de comprar a Revista de Vinhos e as revistas relacionadas com vinho. E sempre comprei muito vinho para ter em casa.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong>Apenas numa vertente de colecionador?</strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, de colecionador e para ter em casa para os amigos. Quando vim para aqui esse fasc</span>í<span lang="pt-PT">nio cresceu porque podia ter uma garrafeira ainda maior. E porque foi tamb</span>é<span lang="pt-PT">m nessa altura que come</span>ç<span lang="pt-PT">ou a haver uma maior apet</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia dos clientes por vinhos, por harmonizações, por quererem experimentar. Então fomos comprando gradualmente. Sempre, como se costuma dizer, a navegar </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">vista. Nunca entrando em loucuras. N</span>ó<span lang="pt-PT">s hoje temos um</span> stock<span lang="pt-PT"> de 300 mil euros em vinho e no in</span>í<span lang="pt-PT">cio, quando vim para c</span>á<span lang="pt-PT">, o Rei tinha 20 refer</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncias. Se tanto. Fomos comprando sempre aos poucos de maneira a ser sustent</span>ável, vendável — n<span lang="pt-PT">ã</span>o há <span lang="pt-PT">nenhuma refer</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia que n</span><span lang="pt-PT">ã</span>o tiv<span lang="pt-PT">éssemos vendido </span>— <span lang="pt-PT">e de maneira a não descapitalizar a empresa s</span>ó <span lang="pt-PT">por um gosto pessoal ou um capricho.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Por falar em caprichos, quando olha para tr</span>á<span lang="pt-PT">s, ao longo destes sete anos, houve algum erro que tivesse cometido? Algo que, se soubesse, teria feito diferente?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">As obras que fui fazendo ao longo dos anos: se soubesse tinha logo feito tudo de uma vez. Em vez de parar um m</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s, conforme parei em janeiro de 2011, tinha parado tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s ou quatro meses. Tinha sido prefer</span>í<span lang="pt-PT">vel e tinha feito tudo aquilo que fiz at</span>é <span lang="pt-PT">hoje. H</span>á <span lang="pt-PT">obras que fizemos e que sã</span>o irreversí<span lang="pt-PT">veis, que j</span>á n<span lang="pt-PT">ão conseguimos depois mudar. Se calhar o nosso </span><span lang="en-US">backoffice</span><span lang="pt-PT"> teria sido maior. Esta sala privada, que fizemos em janeiro de 2017, tinhamo-la feito logo na altura. Agora outras coisas: produtos que se tenham colocado na ementa, pratos que fizemos, parcerias, isso são coisas que são recorrentes, que nã</span>o t<span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m expressão e que são inerentes a qualquer neg</span>ó<span lang="pt-PT">cio. Quando estava na banca tamb</span>ém <span lang="fr-FR">à</span><span lang="pt-PT">s vezes emprest</span>á<span lang="pt-PT">vamos dinheiro a quem não o pagava. O risco </span>é <span lang="pt-PT">inerente ao neg</span>ó<span lang="es-ES">cio.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="en-US">Qual </span>é <span lang="fr-FR">o grande </span>handicap<span lang="pt-PT"> do restaurador que est</span>á <span lang="pt-PT">fora dos grandes centros?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">O p</span>ú<span lang="pt-PT">blico, os clientes. O mesmo cliente que vai, por exemplo, ao JNcQUOI, em Lisboa, se vier aqui acha que pelo mesmo produto, por exemplo pela mesma </span>Á<span lang="pt-PT">gua das Pedras, tem de pagar menos. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong>O mesmo cliente tem comportamentos diferentes?</strong></p>
<p lang="pt-PT">A mesma pessoa!</p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES">Como </span>é <span lang="pt-PT">que se combate isso?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">É </span><span lang="it-IT">imposs</span>í<span lang="pt-PT">vel. Vivemos num meio pequeno e por isso h</span>á <span lang="pt-PT">quem ache que por estarmos na Mealhada temos que vender mais barato, temos que os servir melhor, as quantidades de comida t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m de ser maiores. N</span>ó<span lang="pt-PT">s temos, frequentemente, situações caricatas: o mesmo cliente vem comprar leitão para </span><span lang="en-US">take-away</span><span lang="pt-PT"> para duas pessoas e n</span>ó<span lang="fr-FR">s dizemos-lhe: &#8220;Aqui servimos 600 gramas&#8221;. &#8220;Eh p</span>á<span lang="pt-PT">, isso </span>é <span lang="pt-PT">muito&#8221;, responde. Porque paga a peso. Mas quando vem c</span>á <span lang="pt-PT">comer 600 gramas ao restaurante acha que </span>é <span lang="pt-PT">pouco. Isso acontece. E acontece-nos aqui porque n</span>ó<span lang="pt-PT">s tamb</span>é<span lang="pt-PT">m damos muita import</span>â<span lang="pt-PT">ncia ao cliente. Porque num meio grande esse mesmo cliente j</span>á <span lang="pt-PT">se acha mais pequenino. E não vai estar a reclamar. Não lhe vão dar essa import</span>â<span lang="fr-FR">ncia. Aqui sim. E n</span>ó<span lang="pt-PT">s, porque queremos crescer, porque queremos cada vez mais ser melhores e ter uma identidade pr</span>ó<span lang="pt-PT">pria muitas vezes vamo-nos adaptando.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong>Mas n<span lang="pt-PT">ão cedem naquilo que </span>é <span lang="es-ES">essencial, certo?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT">N<span lang="pt-PT">ão, nem pensar. Temos situações de, por exemplo, um cliente que reclama porque o prato est</span>á salgado. A comida vai atrás, nó<span lang="pt-PT">s provamos e não est</span>á. <span lang="pt-PT">É </span><span lang="it-IT">imposs</span>í<span lang="pt-PT">vel. Aconteceu-nos esta semana, por exemplo: tivemos a</span>í <span lang="pt-PT">uma situação com um bolo de anivers</span>á<span lang="pt-PT">rio que veio de fora e depois os clientes, um casal, tiveram uma indisposição no dia seguinte. Ligaram-nos: &#8220;Olhe, estive a</span>í <span lang="pt-PT">a comer ontem e não fic</span>á<span lang="pt-PT">mos bem dispostos, tivemos problemas&#8230;&#8221; E o bolo que os senhores trouxeram? &#8220;Eh p</span>á, n<span lang="pt-PT">ão era do bolo!&#8221;. A partir da</span>í n<span lang="pt-PT">ão permitimos mais bolos de anivers</span>á<span lang="pt-PT">rio nem comida de fora. Não permitimos. E h</span>á <span lang="pt-PT">pessoas que ficam muito aborrecidas. No s</span>á<span lang="pt-PT">bado passado, uns senhores traziam um bolo e n</span>ó<span lang="pt-PT">s dissemos que nã</span><span lang="es-ES">o podia ser, por raz</span><span lang="pt-PT">õ</span><span lang="es-ES">es de seguran</span>ç<span lang="pt-PT">a alimentar. Porque se houver algum problema com os alimentos n</span>ó<span lang="pt-PT">s temos os lotes, sabemos, vamos ao fulcro da questã</span>o. Há <span lang="pt-PT">pessoas que compreendem outras que não. No s</span>á<span lang="pt-PT">bado a senhora não compreendeu, disse &#8220;que era deselegante da nossa parte&#8221;. Essa mesma pessoa se for a Lisboa nem lhe dão explicaçã</span>o nenhuma, n<span lang="pt-PT">ão pode e fica </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">porta. Acontece-nos isso. E acontece-nos porque estamos na Mealhada. Eu costumo dizer que n</span>ó<span lang="es-ES">s temos que pedalar a</span>í <span lang="pt-PT">20 vezes mais que um restaurante de Lisboa da mesma categoria para chegar ao mesmo s</span>í<span lang="pt-PT">tio. 20, 30 ou 50 vezes mais. Porque as pessoas não nos dão esse valor.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Mas suponho que se apanhem menos clientes desses do que h</span>á <span lang="pt-PT">uns anos. </span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Isso sim, mas, no entanto, ainda se nota bastante. E, por exemplo, clientes dos grandes centros daqui </span>— <span lang="pt-PT">Coimbra ou Aveiro </span>— n<span lang="pt-PT">ão entendem que n</span>ó<span lang="pt-PT">s somos melhores que os restaurantes de Coimbra ou Aveiro. E dizem-nos, comparam-nos. &#8220;N</span>ó<span lang="pt-PT">s em Coimbra comemos muito melhor, n</span>ó<span lang="pt-PT">s em Aveiro comemos muito melhor&#8230;&#8221;</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong>Mas já <span lang="pt-PT">olham para o Rei dos Leitões como um s</span>í<span lang="nl-NL">tio onde n</span><span lang="pt-PT">ão se vem comer apenas leitã</span>o.</strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, isso sim. J</span>á há <span lang="pt-PT">uns anos que conseguimos mudar o modelo.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES">Como </span>é <span lang="es-ES">que voc</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s definiriam o Rei dos Leitões hoje em dia? </span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">O Rei dos Leitõ</span>es será <span lang="pt-PT">sempre um restaurante de cozinha tradicional, transversal a qualquer classe do pa</span>í<span lang="pt-PT">s, mas queremos imputar um registo diferente. Sempre com uma base tradicional.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Mesmo apesar de todas estas mudan</span>ç<span lang="pt-PT">as o ambiente, segundo o que reparei, </span>é <span lang="pt-PT">muito familiar. É algo que prezam, que fazem por manter?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim. Mesmo com os clientes e mesmo com os colaboradores, esta proximidade. Eu quando entrei na banca, em 1996, havia a banca da relaçã</span>o. Nós í<span lang="pt-PT">amos a casa do cliente, o cliente vinha at</span>é nó<span lang="pt-PT">s. Depois em 2004 mudei para o Santander e o modelo era não falar com os clientes pessoalmente, não se visitavam os clientes, era tudo por telefone, por mail e pouco. Depois, quando sa</span>í da banca já <span lang="pt-PT">estava na banca da relação novamente. N</span>ó<span lang="pt-PT">s gostamos de saber que o senhor faz anos, que o filho se formou ou que a esposa não veio porque estava doente. Isso cria uma relação com o cliente de tal proximidade que o cliente quando vem </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">Mealhada não pensa, sequer, em ir a outro s</span>ítio. Nó<span lang="pt-PT">s queremos ser a droga dos restaurantes para os clientes. Queremos criar-lhes depend</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong>Há <span lang="pt-PT">um desafio grande em Lisboa e no Porto. Falo da construção de equipas de cozinha e de sala. Voc</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s sentem tamb</span>é<span lang="pt-PT">m essa dificuldade?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT">Imenso.</p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES">Como </span>é <span lang="pt-PT">que a contornam?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Ficando a trabalhar n</span>ó<span lang="es-ES">s. Porque n</span><span lang="pt-PT">ão temos pessoas. A Lic</span>í<span lang="pt-PT">nia corta o leitão. Ontem, por exemplo, tivemos uma visita do Porto Canal: fiquei eu a cortar o leitão, nas contas e nos caf</span>é<span lang="es-ES">s. Porque n</span><span lang="pt-PT">ã</span>o há hipó<span lang="pt-PT">tese. As escolas de hotelaria não debitam alunos suficientes. Eles quando saem da escola j</span>á <span lang="pt-PT">sabem que nã</span>o v<span lang="pt-PT">ão enveredar por este meio porque </span>é <span lang="pt-PT">muito exigente, porque se trabalha muitas horas, porque se trabalham fins-de-semana. Trabalha-se quando os outros estão a descansar. Independentemente dos ordenados. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Podia ser feita alguma coisa ao n</span>í<span lang="pt-PT">vel da formação, por exemplo?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT">Sem dú<span lang="pt-PT">vida. Disse uma vez </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">directora da Escola de Hotelaria de Coimbra que no primeiro ano deviam dizer aos alunos: &#8220;Tu vens para aqui tirar um curso em que depois tens milhares de s</span>í<span lang="pt-PT">tios no pa</span>í<span lang="pt-PT">s para trabalhar&#8221; &#8212; h</span>á <span lang="pt-PT">milhares de restaurantes, logo h</span>á <span lang="pt-PT">milhares de s</span>í<span lang="pt-PT">tios. &#8220;Se fores bom vais ganhar muitos milhares de euros.&#8221; N</span>ó<span lang="pt-PT">s temos aqui v</span>á<span lang="pt-PT">rios colaboradores a ganhar v</span>á<span lang="pt-PT">rios milhares de euros. O chefe, naturalmente, que </span>é <span lang="pt-PT">quem ganha mais. Um dos empregados ganha 1600 euros l</span>í<span lang="es-ES">quidos. Leva 2000/3000 euros por m</span><span lang="fr-FR">ês de gratifica</span><span lang="pt-PT">ções para casa. Quem </span>é <span lang="pt-PT">que ganha isto? Nem um deputado. Tem de se dizer isso aos alunos. É uma riqueza imensa podermos falar, podermos conhecer o cliente, porque tamb</span>ém há <span lang="pt-PT">clientes que gostam de se dar a conhecer: &#8220;Eu sou isto, fa</span>ç<span lang="es-ES">o aquilo.&#8221; </span><span lang="pt-PT">É importante criar essa relaçã</span><span lang="es-ES">o. Aqueles clientes que n</span>ó<span lang="pt-PT">s vemos entrar e j</span>á <span lang="pt-PT">sabemos que bebem esta </span>á<span lang="pt-PT">gua, aquele vinho, gostam da batata assim. Mas as escolas não dizem nada disso. Querem </span>é <span lang="pt-PT">ter muitos alunos para receber muito dinheiro do Estado. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Sente que a formação que t</span><span lang="fr-FR">ê</span>m n<span lang="pt-PT">ão os prepara para o mercado de trabalho?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Repare, o aluno vai para o mercado de trabalho, vai estagiar. Outro erro. Vai estagiar para o D.O.C, para o Vila Joya, para o Ritz. Fazem oito horinhas, impec</span>á<span lang="pt-PT">vel. Trabalham pouco porque os chefes l</span>á <span lang="es-ES">tamb</span>ém n<span lang="pt-PT">ão lhes dão muito para fazer nem ensinam nada, porque fazem o trabalho sujo, que os outros que l</span>á est<span lang="pt-PT">ã</span>o n<span lang="pt-PT">ão querem fazer. E eles acham-se muito importantes porque meteram isso no curr</span>í<span lang="pt-PT">culo. N</span>ós já <span lang="pt-PT">tivemos casos desses. Tivemos uma cozinheira que esteve no Vila Vita e não sabia fazer cozido </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">portuguesa. Esse </span>é <span lang="pt-PT">o outro erro: irem estagiar para s</span>í<span lang="pt-PT">tios desses que não lhes dão capacidade de trabalho. E depois chegam a um restaurante como o Rei dos Leitões ou o Solar dos Presuntos, como outros e quando percebem o que </span>é <span lang="pt-PT">o mundo do trabalho, dizem: &#8220;Nã</span><span lang="es-ES">o quero isto para mim. Sair </span><span lang="fr-FR">à</span><span lang="pt-PT">s duas da manhã</span>? N<span lang="pt-PT">ã</span><span lang="es-ES">o quero isto para mim.&#8221;</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES">Tamb</span>ém já n<span lang="pt-PT">ão existe a mesma base de sabedoria tradicional que outras gerações tinham. Provavelmente ela nunca fez nem viu fazer um cozido.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, e isso tamb</span>ém n<span lang="pt-PT">ão se aprende na escola. Nem aprendeu no Vila Vita. Mas tamb</span>ém n<span lang="pt-PT">ão teve vontade. Porque em qualquer curso </span>— <span lang="pt-PT">e eu tamb</span>é<span lang="pt-PT">m tenho um curso superior </span>— se nó<span lang="pt-PT">s nos limitarmos ao que nos ensinam estamos tramados. Cada vez mais os professores ensinam menos. Não estão para se chatear. Tem que se querer mais. Tem que se querer sempre mais. E as pessoas hoje não querem. </span></p>
<p lang="pt-PT">*Entrevista originalmente publicada na INTER 261</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/entrevistas/paulo-rodrigues-queremos-ser-a-droga-dos-restaurantes-para-os-clientes-criar-lhes-dependencia/">Paulo Rodrigues: &#8220;Queremos ser a droga dos restaurantes para os clientes. Criar-lhes dependência.&#8221;</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
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		<title>Pedro Cardoso: &#8220;Na restauração não posso olhar só para mim.&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago Pais]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Aug 2018 13:50:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[gastronomia nacional]]></category>
		<category><![CDATA[inter magazine]]></category>
		<category><![CDATA[pedro cardoso]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Lisboa, 30 de Outubro de 1974. Graça e Evaristo Cardoso preparam-se para o primeiro dia do resto das suas vidas que será, também, primeiro dia do seu restaurante, o Solar dos Presuntos. O filho Pedro tem apenas sete anos e mal sabe que a sua vida irá mudar neste dia.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/entrevistas/pedro-cardoso-na-restauracao-nao-posso-olhar-so-para-mim/">Pedro Cardoso: &#8220;Na restauração não posso olhar só para mim.&#8221;</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Lisboa, 30 de Outubro de 1974. Graça e Evaristo Cardoso preparam-se para o primeiro dia do resto das suas vidas que será, também, primeiro dia do seu restaurante, o Solar dos Presuntos. O filho Pedro tem apenas sete anos e mal sabe que a sua vida irá </span><span lang="da-DK">mudar neste dia.</span></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Passaram 43 anos. O néon que garante, orgulhoso, “alta cozinha de Monção” continua a ser a luz que ilumina quem procura a refer</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia-mor entre os restaurantes tradicionais de Lisboa. Sejam eles anónimos ou figuras públicas, como as que figuram nas centenas de fotografias espalhadas pelo Solar dos Presuntos. Uma das “maluqueiras”, palavra do pró</span><span lang="es-ES-u-co-trad">prio, de Pedro Cardoso </span><span lang="pt-PT">— o homem que fez do restaurante dos pais o seu projecto de vida.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Alguma vez pensou fazer outra coisa que não fosse pegar no restaurante dos seus pais?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sempre pensei fazer outra coisa que não fosse pegar neste negócio. Houve uma altura em que queria ter uma discoteca. Passava aqui, via os meus pais a trabalhar como trabalhavam e dizia: &#8220;Eh pá, isto não é para mim&#8221;. Queria uma vida completamente diferente, mais descansada.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Essa vacina acabou por não fazer efeito.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="fr-FR">Pois n</span><span lang="pt-PT">ão. Porque entretanto fiz o 12</span><span lang="es-ES-u-co-trad">º </span><span lang="pt-PT">ano e quando ia entrar na faculdade a minha professora de quí</span><span lang="es-ES-u-co-trad">mica, a L</span><span lang="pt-PT">ídia Santiago, virou-se para mim e disse: &#8220;Entã</span><span lang="es-ES-u-co-trad">o Pedro, como </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que </span><span lang="pt-PT">é?&#8221; Eu disse-lhe que ia entrar para a faculdade e ela: &#8220;Para a faculdade? Tu és mas é maluco. Tens uma coisa tão boa que é o trabalho dos teus pais. Porque é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que tu n</span><span lang="pt-PT">ão não te dedicas mas </span><span lang="fr-FR">é à </span><span lang="pt-PT">restauraçã</span><span lang="es-ES-u-co-trad">o? Acho que tens voca</span><span lang="pt-PT">ção para isso.&#8221; Isso fez-me um clique, fez-me despertar para uma realidade diferente.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Mas já andava por aqui, já ajudava?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Não, nunca. Estava apenas ligado aos estudos, só passava aqui quando precisava de dinheiro para ir ao cinema. Até que um dia decidi experimentar. Na altura, os meus pais tinham o restaurante com um piso, tínhamos trinta e poucos lugares. E arrisquei, vim para aqui com 18 anos, começar do zero e aprender tudo.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Por onde começou?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Comecei por baixo, pelos balcões. Não sabia nada, isto era um mundo completamente diferente de tudo aquilo que eu conhecia. E foi a minha sorte, comecei por aprender um pouco do que se passa dentro de um balcão, do que é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="it-IT">necess</span><span lang="pt-PT">ário fazer, tratar das bebidas para fora. E pouco a pouco fui começando a entrar dentro do </span><span lang="pt-PT">métier</span><span lang="pt-PT">, como se costuma dizer. Comecei a entusiasmar-me com isto, porque sempre foi uma casa com muito movimento. Ainda hoje digo, sinceramente, estou aqui há 32 anos acho que ainda me falta a aprender muita coisa…</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O que é que lhe pode faltar aprender?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Todos os dias aparecem situações novas. Basta ver, por exemplo, nos vinhos. Eu lembro-me que quando vim para aqui a grande moda era </span><span lang="es-ES-u-co-trad">chambrear</span><span lang="pt-PT"> o vinho. Hoje em dia é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">o contr</span><span lang="pt-PT">ário. Todos os dias a restauração vai evoluindo, vai-se alterando, e vai-se estudando mais. E as pessoas são cada vez mais interessadas, cada vez mais querem saber tudo o que se passa.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">E teve oportunidade de fazer formação? Ou foi aprendendo a trabalhar?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">A minha formação, infelizmente, foi sempre aqui. Aliás, quando fizemos a grande reformulação tive hipótese de ir fazer um estágio com o Alain Ducasse pago pelos nossos fornecedores de cozinha e nem isso consegui fazer porque quando reabrimos o restaurante houve logo uma necessidade tremenda de estar em cima do acontecimento. Portanto, até isso eu desperdicei. E penso que não deveria ter desperdiçado essa oportunidade. Mas pronto, por outro lado… </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Por outro lado lida diariamente com uma casa que tem uma dinâmica rara.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Exactamente. Isto é uma casa que devia ser estudada. As pessoas não percebem, muitas vezes, o sucesso desta casa. Mas deve-se </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="en-US">dedica</span><span lang="pt-PT">ção tremenda de todos, a termos formado uma equipa de trabalho muito coesa e em que todos percebem o que é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que est</span><span lang="pt-PT">ão aqui a fazer.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Um empregado do Solar dos Presuntos fica, em média, muitos anos? </span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, o empregado quando entra aqui muitas vezes sai para se reformar. A adaptação é muito díficil. Mas quando se adapta e percebe o espírito…</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES-u-co-trad">Porque </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que </span><span lang="pt-PT">é difícil?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">É muito exigente. Eles muitas vezes entram aqui </span><span lang="fr-FR">à</span><span lang="pt-PT">s dez da manhã </span><span lang="fr-FR">e saem daqui à </span><span lang="pt-PT">uma. Há dias em que nem sequer aquele intervalo das quatro at</span><span lang="fr-FR">é à</span><span lang="pt-PT">s seis conseguem ter para descansar um bocadinho. Claro que também são remunerados de acordo com isso mas o trabalho não é tudo na vida. Nós conseguimos dar-lhes uma coisa importante: sentirem que se for preciso alguma coisa estamos presentes. E isso é uma segurança também. E eles sentem isso, sentem-se bem. Depois, há os problemas inerentes a trabalhar em ambiente familiar: vivemos todos muito os problemas uns dos outros.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Isto já vai na terceira geração.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, a minha filha começou agora. Formou-se em Psicologia mas gostava era de concertos. Andou a fazer produçã</span><span lang="es-ES-u-co-trad">o de espect</span><span lang="pt-PT">áculos durante dois anos. Eu não insisti muito para que ela viesse trabalhar comigo porque acho que cada um de nós deve seguir aquilo que pensa e que quer. Mas ela decidiu que estava na altura de experimentar e de ver o que é </span><span lang="fr-FR">que vai dar. S</span><span lang="pt-PT">ó </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que ela est</span><span lang="pt-PT">á a ficar um bocado como eu, fascinada com isto, e começa a perceber que, de facto, isto é uma coisa fantá</span><span lang="es-ES-u-co-trad">stica.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">É viciante de alguma forma?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">É muito viciante, chegas a casa não consegues desligar. Ou tens uma estrutura familiar forte — e eu tive a sorte de a minha mulher me compreender perfeitamente e perceber a minha vida — ou então não dá. Porque temos de chegar a casa e falar do que é que se passa, dos problemas que houve com os clientes, com os funcioná</span><span lang="es-ES-u-co-trad">rios</span><span lang="pt-PT">… </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O que é que considera mais aliciante nesta profissão?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Para mim é viver num restaurante em que todo o meu trabalho tem sido recompensado pelo reconhecimento. É muito triste ver colegas meus que se calhar dedicam-se tanto ou mais que eu e que depois t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m um retorno que não é o mesmo que o meu. A minha felicidade é essa: estar a trabalhar e ser recompensado pelo carinho e reconhecimento dos clientes, pela forma feliz como os meus funcionários vivem, isso para mim é que interessa. Claro que também, monetariamente, é um restaurante que funciona e factura muito. Mas para mim a questão monetária vem a seguir. É secundária. Para mim o principal é o reconhecimento e muitas vezes fico revoltado por não darem a valor a colegas meus que estão fazer trabalhos fantá</span><span lang="es-ES-u-co-trad">sticos.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Consegue dar-me exemplos?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Se me perguntares qual é o melhor restaurante portugu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s da actualidade, para mim é de caras — mas de caras —, o Rei dos Leitões. O Paulo estava ligado à área das finanças e meteu na cabeça que a restauração era o caminho. E está a fazer um trabalho fantá</span><span lang="it-IT">stico, consegue p</span><span lang="pt-PT">ôr numa mesa tudo o que se consegue encontrar de melhor em Portugal: desde o queijo de Azeitão ao presunto de Chaves. E depois dá-te um serviço de mesa exemplar. Fico muito triste quando vejo estrelas Michelin por todo o lado e não vejo um restaurante como o deles, que serve comida típica portuguesa, não ser reconhecido também. Não faz sentido, há </span><span lang="fr-FR">uns que tê</span><span lang="pt-PT">m estrela Michelin porqu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">?</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Tem a ver com os critérios do guia.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Tem a ver, mas eu acho que o governo portugu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s devia tomar alguma medida no sentido de valorizar o que é a nossa gastronomia. O turista vem a Portugal para comer aquilo que é portugu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s. Quando se vai a qualquer país do mundo — eu pelo menos faço isso — a primeira coisa a perceber é a cultura dos países pelos pratos. Se estamos a aproveitar o turismo, temos de passar a bandeira do que é a nossa comida. Mostrar ao mundo que somos um país de topo ao nível da restauração. Somos um país que temos, hoje em dia, uma higiene e segurança alimentar grande e fazemos bandeira disso mas não há ninguém que diga isso lá para fora. Temos de transportar a mensagem que Portugal é um exemplo mundial a nível de tudo o que se faz bem na restauração.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Ou seja nã</span><span lang="en-US">o promover s</span><span lang="pt-PT">ó a alta cozinha mas també</span><span lang="es-ES-u-co-trad">m aquilo que </span><span lang="pt-PT">é mais tradicional?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">por a</span><span lang="pt-PT">í. Tens coisas tão boas em Lisboa: vais por exemplo ali ao Martim Moniz, tens o Zé da Mouraria, aquele bacalhau na brasa… Tens tantas tasquinhas, coisas tão boas, comida de tacho, o piano, a sardinha.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Só que nos novos negócios que surgem poucos vão com a mentalidade de fazer cozinha tradicional. </span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">É e vou dar-te um exemplo, que até posso ser criticado por ele: hoje em dia abre-se um restaurante e a primeira coisa que se faz é arranjar uma equipa de economia para estudar quanto é que custa o prato com a batata, com o arroz.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O chamado </span><span lang="it-IT">food cost</span><span lang="pt-PT">&#8230;</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">No meu restaurante nunca fiz isso. Aliás, no outro dia fiz e meti as mã</span><span lang="es-ES-u-co-trad">os </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="es-ES-u-co-trad">cabe</span><span lang="pt-PT">ça. Disse: &#8220;Eh pá, não posso estar a vender este prato assim porque estou a perder dinheiro.&#8221; Por exemplo, o polvo </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">lagareiro: se o cliente chegasse ao restaurante e pedisse um copo de água, o polvo </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">lagareiro como prato e não comesse mais nada, eu ganhava zero. Mas zero. E isto no prato, depois ainda tinha que pôr o azeite, a batata, os grelos e estava a perder dinheiro.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES-u-co-trad">E como </span><span lang="pt-PT">é que se ganha então?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Porque tenho outras coisas que fazem essa compensação. O cliente, quando vem ao meu restaurante, graças a Deus, não vem só comer o prato. Pede uma entrada, bebe um copo de vinho. E muitos dos meus colegas quando vã</span><span lang="it-IT">o come</span><span lang="pt-PT">çar um negócio, e muito bem, t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m de fazer contas </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">vida. Nunca conseguem oferecer ao cliente aquilo que eu ofereço, a quantidade de comida que eu ofereço pelo preço que eu pratico.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Mas o Pedro tem o privilégio de saber que num dia normal vai servir mais de 100 jantares. Nem todos podem contar com isso.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="it-IT">Claro, essa </span><span lang="pt-PT">é uma das vantagens que eu tenho. E depois também tenho uma almofada por trás, porque desde 74 o restaurante sempre trabalhou bem. E é muito complicado hoje em dia, contam-se pelos dedos os restaurantes que estão abertos desde 74.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES-u-co-trad">Como </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que se mant</span><span lang="pt-PT">ém um restaurante no topo durante 43 anos?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">É os clientes ligarem e tu estejas onde estiveres atenderes uma chamada. É pensares que hoje é outro dia mas tem de se fazer melhor no dia anterior. É uma luta constante, não deixar cair no marasmo, arranjar sempre coisas novas para os funcionários estarem atentos, criar ferramentas de trabalho para os incentivar. Se não arranjares coisas diferentes, cais no marasmo. Os clientes variam mas os pratos são sempre iguais, a forma da mesa é sempre igual. </span><span lang="fr-FR">À</span><span lang="pt-PT">s vezes eu faço loucuras do género de dizer: &#8220;Não gosto desta mesa assim, vamos virar ao contrário.&#8221;E eles reclamam mas tem de se virar.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Sente essa necessidade, de ir mudando algumas coisas aqui?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Completamente. Aliás, se falares com a minha equipa de trabalho todos eles dizem que eu sou maluco. Todos gostam muito de mim, tenho essa perfeita noção, mas a nível de trabalho sabem que eu sou um bocado obcecado. Porque a minha expectativa do dia a seguir&#8230; Não é do de hoje, o de hoje está feito, mas o dia a seguir. Estamos sempre a pensar no dia a seguir. Depois há sempre aquela coisa de tentar fazer mais e melhor do que fizemos no ano passado. Temos de ter guerra.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">E olhando </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">volta, como é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que v</span><span lang="pt-PT">ê este momento da restauração?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Acho que hoje em dia estamos numa fase em que a restauração não é restauração, é imobiliário. Olhas para um sítio, v</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s o espaço, compras, sabes que daqui a uns anos aquilo em vez de valer um vale dois, por isso se der deu, se não der vendes. Agora, preocupam-me várias coisas. Eu vivo muito isto e acho que estamos a cometer um erro tremendo que é não dar aos jovens que se formam ideias do que é a restauração nacional, do que é a cozinha tradicional portuguesa. Vais a restaurantes de colegas meus, de estrelas, e as cozinhas estão equipadas — eu digo equipadas porque não são cozinheiros, são robôs de cozinha — com 80% de pessoal estagiário, remunerados zero, a trabalhar oitenta horas por semana, um descasca batatas, outro faz arroz, aprendizagem zero.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES-u-co-trad">Como </span><span lang="pt-PT">é que se resolve isso?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">É fácil, era só o governo dizer: meus amigos, acabaram-se os estagiários gratuitos. Qualquer estagiário tem que ser pago. Aí, se t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m de ser pago os meus colegas já só metem quatro e os outros t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m que ir para outros restaurantes porque t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m que aprender també</span><span lang="it-IT">m. Isso </span><span lang="pt-PT">é uma coisa que eu acho que eles t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m que ter atenção, porque eu se quiser ter um estagiário, não tenho.</span></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT"><strong>Não?</strong></span></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Não. Primeiro querem todos — e muito bem — ter o selo de chefes, querem ter o selo da alta cozinha. Mas se eles não tiverem colocação nesses restaurantes, se cada um deles tiver só quatro estagiá</span><span lang="es-ES-u-co-trad">rios, t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m que ir para outro lado qualquer. Então vão ter a oportunidade de ir para uma cozinha tipo a do Solar dos Presuntos e aprender. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Mas esta é uma cozinha que geralmente não se aprende, passa muito de geração em geração. Hoje em dia pode não haver essa base familiar.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, mas há chefes que continuam a passar essa mensagem. V</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s, por exemplo, o sucesso tremendo que está a ter o JNCQUOI com o António Bó</span><span lang="es-ES-u-co-trad">ia, que est</span><span lang="pt-PT">á a tentar mostrar esta cozinha, claro que com alguma sofisticação. Estou convencido que qualquer restaurante que abra com cozinha tradicional portuguesa é um sucesso. Só que as pessoas ainda não perceberam isso. E graças a Deus ainda não perceberam, por isso é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que n</span><span lang="pt-PT">ós estamos sempre a bombar, sempre cheios. Porqu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES-u-co-trad">? Porque h</span><span lang="pt-PT">á muito poucos como nós. Mas tem de haver, eu na restauração nã</span><span lang="it-IT">o posso olhar s</span><span lang="pt-PT">ó para mim. Esse sempre foi o mal dos restauradores, olharem só para o seu caso. Nós temos de olhar para isto como um todo. Percebes? Não sermos concorrentes, sermos todos a puxar para o mesmo. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="en-US">Qual </span><span lang="pt-PT">é para si a parte mais difícil de gerir nesta casa?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">O mais difícil é dares a um cliente aquilo que tens de melhor e o cliente pôr em dú</span><span lang="es-ES-u-co-trad">vida aquilo que est</span><span lang="pt-PT">ás a servir. Muitas vezes sem razão. </span><span lang="fr-FR">À</span><span lang="pt-PT">s vezes olhas para o prato e podes reconhecer que um peixe está fora do ponto. Mas dares um cherne legítimo e ele dizer que não é custa muito.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="es-ES-u-co-trad">Como </span><span lang="pt-PT">é que se lida com isso?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Tens de ter uma capacidade tremenda de encaixe e de tentar explicar. Mas há alturas em que não vale a pena discutir com o cliente.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O cliente tem sempre razão?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Tem sempre razão. É essa a frase: os clientes t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m sempre razão. Não vale a pena estar a discutir, t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m razã</span><span lang="en-US">o. Acabou. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">O que é que aprendeu com os seus pais?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">A coisa mais importante é que sem dedicação e sem atençã</span><span lang="it-IT">o di</span><span lang="pt-PT">ária no restaurante isto nã</span><span lang="es-ES-u-co-trad">o funciona. Aus</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncias prolongadas num restaurante não funcionam. Por exemplo, para mim sair uma noite é uma chatice: não consigo estar em casa sossegado. Claro que ninguém é insubstituível: eu posso morrer e as coisas andam para a frente. Mas eu sinto que devo estar aqui, não só pelos clientes que estão aqui mas pela minha equipa de trabalho, pelo respeito que eles me merecem. Portanto foi isso que os meus pais me passaram. E muito mais: a escolha da matéria-prima, dar sempre a qualidade máxima ao cliente, não defraudar expectativas. E cada vez mais isso é muito complicado de fazer. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Eles ainda são presentes na vida do restaurante?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">São mas agora começam com uma idade complicada. O meu pai está com 75 anos e com problemas complicados de locomoçã</span><span lang="es-ES-u-co-trad">o. Tem problemas respirat</span><span lang="pt-PT">ó</span><span lang="es-ES-u-co-trad">rios. V</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m sempre aqui, mas por vezes já não v</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m no espírito de se divertir, v</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m noutro espírito que é complicado, que é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">o de p</span><span lang="pt-PT">ôr defeito em tudo e mais alguma coisa. E é complicado.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">É preciso saber gerir essa parte.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="fr-FR">É</span><span lang="pt-PT">. Embora nós já estejamos habituados e já </span><span lang="es-ES-u-co-trad">saibamos como </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que funciona. Mas </span><span lang="pt-PT">é sempre bom, sinto a necessidade de os ter aqui a fazer aquele trabalho do pica-miolos. Percebes? É sempre bom uma chamada de atenção. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Quando é que ficou oficialmente responsável pelo Solar dos Presuntos?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="fr-FR">À </span><span lang="pt-PT">vista dos meus pais, ainda hoje não sou oficialmente responsável. Porque eles quando olham para mim ainda pensam que eu tenho 18 anos. Por exemplo, no ano passado o meu pai foi considerado a Personalidade do Ano do Guia Boa Cama Boa Mesa, e uma das coisas que ele disse é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">que est</span><span lang="pt-PT">á na hora de me passar o testemunho. Mas esse testemunho já foi passado há muito tempo e ele tem consci</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia perfeita disso. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">É mais simbólico do que outra coisa.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Claro. Mas os meus pais quando saí</span><span lang="fr-FR">rem daqui morrem, percebes? Isto </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">a vida deles. </span><span lang="pt-PT">É a mesma coisa que me vai acontecer a mim quando eu sair daqui. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Por falar num futuro distante, o que espera que seja o Solar daqui a 20 anos?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">O que é hoje. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Ficava satisfeito se estivesse como é hoje?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="it-IT">Ficava, </span><span lang="pt-PT">é uma refer</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES-u-co-trad">ncia </span><span lang="pt-PT">— quer se queira quer não — da cidade de Lisboa. Dá um gozo enorme ir lá fora, a qualquer país, perguntar se conhecem Lisboa, se conhecem restaurantes de Lisboa e muitas vezes dizem-te o Solar dos Presuntos. Tu vais ao Brasil e não há ninguém que não saiba o que é o Solar dos Presuntos. Os brasileiros v</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m a Portugal e t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m uns quantos restaurantes na carteira: a Tia Alice em Fátima, o Fialho em </span><span lang="fr-FR">É</span><span lang="pt-PT">vora e nós e o Ramiro em Lisboa. Tu perguntas-me: como é que isso aconteceu? Nã</span><span lang="nl-NL">o te sei explicar. </span><span lang="pt-PT">É o trabalho de muitos anos. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Nunca pensaram abrir um segundo Solar dos Presuntos?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Na altura da Expo tivemos um negócio fechado com o Antó</span><span lang="it-IT">nio Parente, dono da Plural. Ele era amic</span><span lang="pt-PT">íssimo do meu pai, falou connosco e disse &#8220;Pedro, vamos abrir, eu tenho lá o meu barco, aquilo é porreiro, eu faç</span><span lang="it-IT">o a decora</span><span lang="pt-PT">ção, fazemos sociedade.&#8221; No dia em que vamos assinar o contrato eu virei-me para o meu pai e disse-lhe &#8220;Pai, tem consci</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia do que é que vamos fazer. A partir de agora não temos um restaurante, temos dois e não temos nenhum. Porque nós somos só os dois e não conseguimos, se já no nosso lutamos&#8230;&#8221; Ele: &#8220;Ó </span><span lang="es-ES-u-co-trad">Pedro, como </span><span lang="pt-PT">é que vamos dizer ao Parente?&#8221; &#8220;O pai vai explicar o que se está a passar, que do meu ponto de vista não temos condições.&#8221; &#8220;Mas ele vai ficar muito chateado connosco&#8230;&#8221; E ficou. Esteve tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s ou quatro anos sem falar com os meus pais mas depois percebeu e continuámos muito amigos. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Isto é um negócio que exige muito de voc</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s. Replicar é complicado.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Não tens hipótese. Aliás, no m</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s passado ligaram-nos da Time Out para irmos para o Mercado. Os meus colegas: “Ena pá, isso é ganhar dinheiro.” Mas ganhar dinheiro o qu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">? O nosso negócio não é aquele — embora pudesse ser um cartão de visita podia ser um cartão de visita negativo também. Qual era o prato que se iria pôr ali? A ideia, no futuro, vai ser formarmos, fazer uma academia. É aquilo que o meu pai sempre pensou fazer: queres abrir um restaurante, seja onde for, pões aqui a tua equipa de trabalho a aprender. Depois, criamos uma estraté</span><span lang="es-ES-u-co-trad">gia de neg</span><span lang="pt-PT">ócio, um</span><span lang="nl-NL"> fee</span><span lang="pt-PT"> por cada prato que vender com o selo do Solar dos Presuntos.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Uma Academia Solar dos Presuntos?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, é fácil de fazer, repara: queres replicar o cabrito assado no Brasil. Sim senhor, vens para aqui, trazes a tua equipa, aprendes, eu arranjo uma equipa de consultores que de m</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="en-US">s a m</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s vão ao Brasil saber se aquilo está a ser bem feito. Se não estiver retira-se o prato e pronto, temos pena. É fácil poder fazer essa parceria. E é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">tamb</span><span lang="pt-PT">ém um bocado por isso que estamos a fazer as obras que estamos a fazer. — temos uma cozinha de 60m2 e estamos a fazer uma cozinha com 600m2. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">A sé</span><span lang="nl-NL">rio? Mas onde?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="fr-FR">Aqui atr</span><span lang="pt-PT">ás. Temos a empena do elevador [do Lavra], por trás daquela garrafeira temos tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s prédios devolutos e estamos aí a construir uma cozinha. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Vão alargar o próprio restaurante?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Nó</span><span lang="es-ES-u-co-trad">s temos tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s pisos. O piso de cima vamos encerrá-lo, ou seja, vamos usá-lo apenas para eventos acima de 30/40 pessoas. Esta parte de baixo onde está a garrafeira vai crescer, vamos fazer um wine bar e uma sala com luz natural ao fundo. E por baixo então a cozinha que vai ser aumentada nessa dimensão e vamos fazer um estú</span><span lang="es-ES-u-co-trad">dio de televis</span><span lang="pt-PT">ão. A ideia, e eu vou explicar em primeira mão, é convidarmos, por exemplo, o melhor chefe portugu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s, por exemplo o José Avillez, a vir fazer um prato ao Solar dos Presuntos. Pagar bem ao Avillez, como é lógico, para que ele possa fazer esse prato e através das redes, Internet, criar um nú</span><span lang="es-ES-u-co-trad">cleo daqueles clientes </span><span lang="pt-PT">ávidos por cozinha, ávidos por aprender, que hoje em dia há muitos e com muito dinheiro, e poder facultar, mandar um SMS. Segunda-feira mandas um SMS a dizer &#8220;Avillez, sábado </span><span lang="fr-FR">à</span><span lang="pt-PT">s 7 da noite vai executar a receita x com estes ingredientes&#8221;. Na sexta-feira outro, &#8220;se quiser os ingredientes </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="es-ES-u-co-trad">porta est</span><span lang="pt-PT">á tudo aí.” Porque sabes que hoje em dia as pessoas não querem ter trabalho. E depois fazer as receitas mesmo em directo. Não há aquela coisa de pôr no forno e tirar daí a 20 minutos. Tem de se fazer receitas que possam ser executadas na hora. A pessoa tem de estar completamente segura que aquela receita que o Avillez vai fazer, ela consegue executar também. E depois passar do Avillez para outro, para outro, até que consigamos trazer para cá estrelas de renome também internacionais para poder também vender os conteúdos dessas imagens.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">Já percebi que não pára de ter ideias.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Não páro. Todos os dias há coisa novas. Vou dar-te um exemplo: a cozinha, nós estamos em obras, estamos com a cozinha já desenhada, praticamente, há um ano e meio. Mas a cozinha que desenhá</span><span lang="es-ES-u-co-trad">mos h</span><span lang="pt-PT">á um ano e meio já não tem nada a ver com a de hoje. </span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">E se calhar a que vai abrir já não vai ter a ver com a de hoje.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="fr-FR">Vai, vai. Porque fiquei t</span><span lang="pt-PT">ão feliz com a cozinha, sabes? Porque pedi a ajuda dos meus colegas, pedi a ajuda ao Vítor Sobral. E ele foi um indivíduo exemplar. Nunca pensei que o Sobral tivesse o amor e o carinho que teve para connosco, e a forma como ele interveio nos desenhos da cozinha. Porque é importantíssimo termos alguém com alguma experi</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES-u-co-trad">ncia pr</span><span lang="pt-PT">ática a saber o que é que necessá</span><span lang="es-ES-u-co-trad">rio. Porque n</span><span lang="pt-PT">ós temos a nossa cozinha, mas hoje em dia os chefes sabem tudo e mais alguma coisa. Ele foi de um trato que eu fiquei para toda a vida agradecido porque não há nada que possa pagar o trabalho que ele teve para connosco.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">T</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m boa relação com maior parte dos cozinheiros?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="pt-PT">Sim, sim. Aliás, tenho boa relação porque eu dentro da restauração tento juntar. Sou um indivíduo que sou de juntar as pessoas, não de dividir. Fizemos uma parceria que foi a &#8220;Fora da Box&#8221;: eu, o Manuel Salema do SushiCafé Avenida e o Pedro do Ramiro. Começámos a pensar em coisas que seriam importantes para a restauração.</span></p>
<p lang="pt-PT"><strong><span lang="pt-PT">De um ponto de vista mais estraté</span><span lang="es-ES-u-co-trad">gico?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT"><span lang="en-US">Sim, exactamente. Junt</span><span lang="pt-PT">ámo-nos e tivemos, por exemplo, negociações com a Unicre por causa dos cartõ</span><span lang="es-ES-u-co-trad">es de cr</span><span lang="pt-PT">édito, porque as comissões que cobram </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">restauração são completamente descabidas. Conseguimos baixar os tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s. E eu acho que se nos juntarmos mais, se nos juntarmos todos, vamos ter uma forç</span><span lang="es-ES-u-co-trad">a que </span><span lang="pt-PT">é tremenda. Temos uma associação fantá</span><span lang="es-ES-u-co-trad">stica, que </span><span lang="pt-PT">é a AHRESP, mas tem um problema complicado: defende muita gente com necessidades diferentes. Uma coisa é um hotel, uma coisa é uma pastelaria, uma coisa é </span><span lang="es-ES-u-co-trad">um restaurante. E eles l</span><span lang="pt-PT">á tentam resolver as coisas todas por um só. Agora temos outra ideia, nós os tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s, abrirmos um negócio em conjunto. Um negócio tipo Mercado da Ribeira, mas com gestão de uma pessoa só, cozinha de uma pessoa só, mas poder facultar </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">mesa vários pratos dos restaurantes mais emblemáticos de Lisboa. Isso era muito giro, também. Falta o local, vamos ver o que é que acontece. Mas isto não pára.</span></p>
<p lang="pt-PT">*Entrevista originalmente publicada na INTER 259</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/entrevistas/pedro-cardoso-na-restauracao-nao-posso-olhar-so-para-mim/">Pedro Cardoso: &#8220;Na restauração não posso olhar só para mim.&#8221;</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
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		<title>Rui Sanches: “Quem faz um restaurante para turistas logo à partida tem os dias contados.&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago Pais]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Feb 2018 14:03:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Rui Sanches nunca tirou um curso de cozinha, embora saiba fazer um hambúrguer do Honorato, uma das raras marcas que possui mas não criou. Porque não se considera apenas um homem de negócios.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/entrevistas/quem-faz-um-restaurante-para-turistas-logo-a-partida-tem-os-dias-contados/">Rui Sanches: “Quem faz um restaurante para turistas logo à partida tem os dias contados.&#8221;</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Em 1998, Rui Sanches pediu 4000 contos emprestados ao pai, um transmontano apaixonado por caça, para abrir o seu primeiro restaurante. Chamou-lhe Vitaminas. Não foi chegar, ver e vencer: no início, o que faturava no verão servia-lhe apenas para pagar os prejuízos do inverno. Hoje, prestes a completar 20 anos de carreira, a sua Multifood emprega 1700 pessoas — “arrisco dizer que sei o nome de todas”</span><span lang="da-DK">, afirma </span><span lang="pt-PT">— distribuídas por um portfólio de 16 marcas que tocam em praticamente todas as áreas da restauração: da cozinha rápida de centro comercial </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">de autor com estrela Michelin. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Nunca tirou um curso de cozinha, embora saiba fazer um hambúrguer do Honorato, uma das raras marcas que possui mas não criou. Porque não se considera apenas um homem de negó</span><span lang="es-ES">cios. </span><span lang="pt-PT">“Sou tã</span><span lang="it-IT">o dire</span><span lang="pt-PT">ctor criativo como diretor geral”</span><span lang="it-IT">, diz. Da</span><span lang="pt-PT">í que esteja sempre a carburar novas ideias. Tem o hábito de enviá-las por email para si próprio, durante a noite. Trabalha muitas horas, </span><span lang="fr-FR">“à</span><span lang="pt-PT">s vezes demais”, confessa. Mas garante que o que faz também o diverte. E muito. Principalmente quando há um projeto novo a arrancar, como o Pesca, que abriu no final de setembro no Príncipe Real, com o chefe Diogo Noronha aos comandos. E foi precisamente </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">mesa desse restaurante, no seu primeiro dia de funcionamento, que aconteceu esta conversa.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="es-ES">Como </span><span lang="pt-PT">é a sua rotina nos primeiros tempos de um restaurante: passa muito tempo nele?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="it-IT">Sim, sempre. Isso </span><span lang="pt-PT">é crucial. É uma das vantagens de ter uma estrutura organizada em que todos os departamentos começam a ter autonomia e a funcionar por si pró</span><span lang="fr-FR">prios. Hoje, se quiser almo</span><span lang="pt-PT">çar aqui e jantar na pizzaria ZeroZero tenho liberdade para isso em termos de tempo. Claro que trabalho 60, 65, </span><span lang="fr-FR">à</span><span lang="pt-PT">s vezes chego </span><span lang="fr-FR">à</span><span lang="pt-PT">s 70 horas por semana. Isto também é difícil de gerir porque muitas vezes o meu trabalho é o prazer dos meus amigos. E as coisas misturam-se muito, no bom sentido. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="en-US">Qual </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES">que </span><span lang="pt-PT">é a sua perspectiva, enquanto restaurador, do momento que Lisboa vive?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Lisboa vive um momento muito positivo. Não tenho aquela visão pessimista de que nos vamos vender ao turismo. Vamos vender-nos ao turismo em certos e determinados negócios, restaurantes, em certas e determinadas ruas, assim como estamos a fazer muita coisa gira e nova com muita malta que está com vontade de fazer propostas gastronómicas diferenciadas. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Há muita gente que sente é o momento ideal para abrir um negó</span><span lang="es-ES">cio, que </span><span lang="pt-PT">é agora ou nunca por causa do turismo.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Quem faz um restaurante para turistas logo </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">partida tem os dias contados. Eu acho que Lisboa vai ter uma evolução muito interessante porque hoje temos melhores cozinheiros que tí</span><span lang="es-ES">nhamos h</span><span lang="pt-PT">á dez anos, temos melhores pasteleiros, temos melhores restauradores, temos melhores </span><span lang="pt-PT">barmen</span><span lang="pt-PT">.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">E temos melhores clientes?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Temos clientes mais informados, também porque temos melhores jornalistas gastronómicos do que tí</span><span lang="es-ES">nhamos h</span><span lang="pt-PT">á dez anos. Portanto, eu não sou profeta da desgraça. Acho que daqui a dez anos vamos estar numa fase muito mais interessante do que estamos hoje. Agora, que nesse projecto vão surgir ideias desinteressantes e que muitas vão ficar pelo caminho disso não tenho dúvida nenhuma. Como em todas fases, como em todas as cidades. Mas somos o quarto país da Europa com mais produtos certificados, entre DOPs, DOCs, IGPs, ETGs — </span><span lang="es-ES">que </span><span lang="pt-PT">é só um, o bacalhau de cura tradicional portuguesa —, somos o país do mundo com mais castas autóctones identificadas, temos 300. Temos melhores cozinheiros, melhores pasteleiros, melhores jornalistas, melhores </span><span lang="fr-FR">sommeliers</span><span lang="pt-PT">, enfim. Os </span><span lang="fr-FR">sommeliers</span><span lang="pt-PT"> e as equipas de sala não estão a crescer com a elasticidade que o negó</span><span lang="es-ES">cio exige. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Porque o serviç</span><span lang="es-ES">o de sala </span><span lang="pt-PT">é encarado um trabalho de transição.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Antigamente, a cozinha clássica tinha cozinha de sala. Hoje em dia não existe cozinha de sala. O mediatismo em termos de divulgação vai muito pouco para a sala. Cozinha, pastelaria, bar — o bar é sempre muito sexy para a miudagem, é normal que haja mais pessoas a querer ir para o bar. A sala é um mal amado. Está secundarizado, não tem o glamour da cozinha, da pastelaria, não tem o glamour do bar. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Será, talvez, o patamar mais desafiante na construção de equipa nesta altura, certo?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">É uma dificuldade. Mas costumamos dizer que não há maus filhos, há maus educadores. Ou seja, cada pessoa tem mais potencial para desenvolver certas e determinadas compet</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncias. Se n</span><span lang="pt-PT">ão temos um escanção num determinado restaurante e se vemos uma pessoa que tem muito mais apet</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia para vinhos do que todas as outras da sala, temos que dar formação, temos que faz</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="it-IT">-la crescer. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">É algo que acontece com frequ</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia dentro do grupo?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Acontece. Nós neste momento empregamos 1700 pessoas. E eu sei o nome de todas. Bom, se calhar algumas que entraram nas últimas duas semanas não sei, mas sei o nome de quase todas. E quando estamos a definir planos de carreira das pessoas, que é uma coisa que acontece com muita frequ</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia, eu não decido em exclusivo mas emito opinião. Tento perceber quais é </span><span lang="es-ES">que s</span><span lang="pt-PT">ão os seus pontos fortes, qual é </span><span lang="nl-NL">a marca onde t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m mais personalidade para estar, qual é a área de restauração onde poderã</span><span lang="fr-FR">o evoluir. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT"><strong>Quando começou pelo Vitaminas imaginava que as coisas iam crescer a este ponto?</strong> </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Sempre achei que o Vitaminas tinha muita capacidade de crescimento. Na altura demorei imenso tempo a convencer o meu pai na altura a emprestar-me 4000 contos, que foi o investimento inicial da empresa.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="es-ES">Por que </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES">que come</span><span lang="pt-PT">çou por aí?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Há uma coisa interessante que nunca contei e que acho que posso contar porque acrescenta valor. O meu pai é um transmontano caçador, a minha mãe uma alfacinha nascida no Bairro Alto.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Portanto, extremos opostos.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Sim, extremos opostos em que o meu pai era aquele caçador que faz 300 quilómetros para ir </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">caça. Ou faz 200 para ir comprar uma alheira, se for preciso, muito focado na gastronomia tradicional, na família. E a minha mãe tinha uma necessidade de reinterpretação das receitas transmontanas.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Necessidade porqu</span><span lang="fr-FR">ê</span></strong><span lang="pt-PT"><strong>?</strong> </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Porque era tudo muito pesado. Depois quando íamos a casa dos meus avós, eu reparava que a receita de feijoada nã</span><span lang="es-ES">o era exactamente igual </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">da minha mãe. Ou seja, a minha mãe tinha o cuidado de as aligeirar, de as tornar mais saudáveis.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Esse hábito de redefinir as receitas pesou na criação do Vitaminas. Ou uma coisa não está ligada </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">outra?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Está ligada directamente e indirectamente. Eu fiz remo de competição durante sete ou oito anos, cheguei a ser duas vezes campeão nacional. E quando acabei de fazer remo engordei 10 quilos. Fui a uma nutricionista e vi que o que ela prescreveu era muito difícil de fazer no dia-a-dia. Daí surge o Vitaminas.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Foi transformar uma necessidade própria em negó</span><span lang="es-ES">cio.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">A necessidade aguçou o engenho. A razão do Vitaminas é muito essa, mas depois há um processo mais longo. Percebi que tinha ali um </span><span lang="en-US">one shot</span><span lang="pt-PT">. Eu tinha a certeza que a ideia podia funcionar e que as coisas podiam acontecer mas que não podia falhar, por isso entreguei-me muito sempre. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="en-US">One shot</span><span lang="pt-PT">?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Tinha a responsabilidade de não falhar. Também estava naquela idade, não era só o dinheiro que o meu pai me tinha emprestado, era a necessidade de fazer carreira e, portanto, ou andávamos para a frente ou então… Aos 23 anos já não se sente muita vontade de brincar. E o Vitaminas correu muito mal no iní</span><span lang="es-ES">cio.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Como assim muito mal?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">O primeiro Vitaminas teve um verão interessante, um inverno pé</span><span lang="it-IT">ssimo. Est</span><span lang="pt-PT">ávamos em 1998, a alimentação saudável no inverno tinha o efeito gelado. Para se fazer uma alimentação saudável não existe sazonalidade mas o calor no verão ajuda. As pessoas começavam dietas em abril, maio, portanto vendia-se imenso nessa altura. E depois no inverno muito menos. Ou seja, no verão pagavam-se as dívidas contraídas no inverno. Basicamente, era este o ciclo do negócio. Depois, o segundo não ajudou muito: Tivoli Forum. A partir do Cascais Shopping, Oeiras Parque, começámos a crescer, a marca começou a ganhar notoriedade e o conceito começou a ganhar cada vez mais sentido.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">E quando é que deixa de pensar em Vitaminas exclusivamente?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="it-IT">Isso </span><span lang="pt-PT">é uma pergunta muito difícil de responder concretamente. Mas eu acho que começou começámos a conhecer mais os meandros do negócio, isto é: como desenhar uma cozinha. O desenho de todos os restaurantes e de todas as cozinhas passa por mim. Estou a dizer isso </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">vontade porque é um dos pontos fortes que sei que tenho e que nos tem diferenciado muito. Começa-se a ganhar </span><span lang="en-US">know how</span><span lang="pt-PT">, cada vez mais gosto pelo negócio, cada vez mais autoconfiança no processo criativo de fazer um restaurante e ao mesmo tempo, equipas cada vez mais competentes </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">minha volta, ou seja, mais meios para fazer projetos diferentes. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Já tinha uma noção global do negócio da restauração?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Sim, porque tinha de visitar feiras, tinha de ver catálogos de fornecedores, tinha de fazer muita coisa que me aproximava de outros mundos. Quando estamos com um catálogo na mã</span><span lang="es-ES">o vemos que n</span><span lang="pt-PT">ão há só </span><span lang="es-ES">fornos convectores, h</span><span lang="pt-PT">á estáticos, há de pressão, há de carvão, há imensa coisa. Eu só comprava fornos convectores mas deliciava-me com os catálogos para perceber porque é que as coisas aconteciam. Houve uma aproximação em relação </span><span lang="fr-FR">à</span><span lang="es-ES">quilo que </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="it-IT">o neg</span><span lang="pt-PT">ócio na sua globalidade, por um lado. E por outro lado, também, mais equipas, que eu acho que é um dos meus pontos fortes: saber escolher as equipas, criar em conjunto, haver sempre alguma liberdade de criação também.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Há princípios que institui a todos os seus restaurantes?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Sim, isso existe. Mas na realidade não é preciso muito instituir porque são códigos do pró</span><span lang="it-IT">prio neg</span><span lang="pt-PT">ó</span><span lang="es-ES">cio. H</span><span lang="pt-PT">á um </span><span lang="nl-NL">briefing</span><span lang="pt-PT"> entre a cozinha e sala para saber quem é </span><span lang="es-ES">que est</span><span lang="pt-PT">á em cada setor, quem é que faz sombra a determinado setor da sala. Assim como é crucial no fim do serviço a equipa sentar-se e perceber aquilo que foi feito e não deveria ter sido, o que é que temos para melhorar, o que é </span><span lang="es-ES">que precisamos. </span><span lang="pt-PT">É assim que um restaurante evolui. Um restaurante com dois, tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s anos, se envelhecer bem, vai ter muito mais qualidade do que tem no dia da abertura. Muito mais. É politicamente incorrecto eu estar a dizer isto hoje porque quero este restaurante para a semana cheio. Mas é a pura realidade. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="es-ES">Como </span><span lang="pt-PT">é que se consegue isso num portfólio de 16 marcas, essa evolução que permita o bom envelhecimento?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Começam-se a disparar ideias para várias marcas ao mesmo tempo. Há uma filosofia do maestro da empresa, do restaurador, aquilo que quisermos chamar, </span><span lang="fr-FR">à</span><span lang="es-ES">quilo que </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES">o portf</span><span lang="pt-PT">ólio dos restaurantes. Se as sobremesas estão com menos açúcar vamos aplicar esta ideia a todos os restaurantes da empresa, não só a um, porque é uma tend</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia, </span><span lang="pt-PT">é uma consci</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia.</span> <span lang="it-IT">Isso </span><span lang="pt-PT">é o saber envelhecer. E o saber envelhecer é um desafio gigante. Principalmente numa cidade em que não conseguimos acompanhar o ritmo das aberturas.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT"><strong>E as pessoas gostam é de experimentar a novidade.</strong> </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Essa é </span><span lang="it-IT">a grande quest</span><span lang="pt-PT">ão. Hoje em dia há muitas aberturas. Mas cada vez menos atingem esse patamar. Ou seja, dizer que isto há um ano era pior do que é hoje. Esse saber envelhecer acontece não só a nível de equipas. </span><span lang="fr-FR">À</span><span lang="pt-PT">s vezes também a nível estrutural, por muito que se pense em todos os pormenores de concepção do restaurante. Podemos ter inconsist</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncias na secçã</span><span lang="es-ES">o de frios por falta de espa</span><span lang="pt-PT">ço. Podemos ter car</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncias de equipamento em que temos que fazer substituição porque afinal não precisamos de um e precisamos de outro.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Não há muitos grupos que possam ter uma visão tão ampla do negócio, do </span><span lang="sv-SE">quick service</span><span lang="pt-PT"> ao </span><span lang="pt-PT">fine dining</span><span lang="pt-PT">.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Mesmo a nível internacional. E isso é um grande desafio. Em cada papel estamos numa posição diferente e o tal não repetir erros passa por transportar o melhor de cada um dos mundos para a organização do outro. E para a fase criativa també</span><span lang="sv-SE">m at</span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES">porque este neg</span><span lang="pt-PT">ó</span><span lang="es-ES">cio </span><span lang="pt-PT">é 80% criação e 20% organização.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="en-US">Qual </span><span lang="pt-PT">é </span><span lang="es-ES">que </span><span lang="pt-PT">é a parte que a si, restaurador, lhe dá mais gozo? A definição do conceito? Operacionalizar?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Marketing, arquitectura, operação.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Por essa ordem de prefer</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Por ordem até talvez seja outra. Começa-se por se pensar o que se quer fazer em determinado espaço. Mas quando vou ver o espaço não vou com uma equipa de cozinha. Ok, o espaço tem alma, tem determinadas características, uma localização x, tem uma área y, tem logradouro ou capacidade para fazer uma área exterior ou não tem. Sinto o espaço e penso aquilo que podia ali fazer. Com uma grande responsabilidade hoje em dia, e uma grande vontade: repetir o menos possível. Não queremos abrir mais isto, mais aquilo, queremos fazer uma coisa diferente.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Fazem algum estudo de mercado?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Não. É empírico. Completamente empírico. Isto já aconteceu: sentamo-nos numa sala de reuniões e dizemos: &#8216;o que é que fazias aqui?&#8217; E cada um escreve num papel uma proposta e pomos em cima da mesa. E a partir daí </span><span lang="it-IT">come</span><span lang="pt-PT">ç</span><span lang="it-IT">a-se a discuss</span><span lang="pt-PT">ão. Ou seja, começa-se pelo espaço, a partir do espaço escolhe-se a equipa, depois a partir da escolha da equipa começamos a trabalhar. Espaço, conceito, equipa.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Faz ideia, em termos de número de restaurantes, quanto é </span><span lang="es-ES">que v</span><span lang="pt-PT">ão crescer nos próximos anos?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Juro que não. Não tenho a mínima ideia. Eu sei, neste momento, de alguns negócios que fariam sentido para Lisboa. Temos ingredientes de base que t</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">m capacidade de evolução em termos de reinterpretação. Tudo o que é mediterrânico, por exemplo. Temos tão pouca coisa de cozinha mediterrânica em Portugal. E tudo o que é cozinha mediterrânica casa com esta cidade. Isto é um exemplo, porque temos potencial e ingredientes para.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Já tem outros espaços na cidade prontos para desenvolver esses conceitos?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Temos mais um espaço, apenas. Não andamos </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="es-ES">procura de espa</span><span lang="pt-PT">ços por atacado porque isto também é autoral. Não posso estar a fechar um negócio ou a escolher um espaço que não fui visitar, nã</span><span lang="fr-FR">o fui sentir, n</span><span lang="pt-PT">ão fui uma primeira, uma segunda, uma terceira vez.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">O tradicional portugu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s é um conceito que não o atrai em termos de negó</span><span lang="es-ES">cio?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Nada disso. O Alma não é mais que </span><span lang="pt-PT">fine dining</span><span lang="pt-PT"> com raiz forte na cozinha tradicional portuguesa. O Henrique tem essa bandeira, no Alma temos essa bandeira e é </span><span lang="es-ES">crucial para n</span><span lang="pt-PT">ós perceber que a génese do Alma foi a partir daí. Em todos os pratos houve essa preocupação. Nós não podemos deixar os pratos estáticos. Agora voltei </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">história da minha mãe: é uma interpretação familiar da gastronomia mas, no fundo, é a génese do negócio. O que é que vamos fazer? É servir o bacalhau </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">Brás igual ao que os nossos avós faziam?</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">No caso do Henrique Sá Pessoa é transformá-lo numa calçada portuguesa.</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Ou seja, há uma componente autoral. Há criatividade e té</span><span lang="es-ES">cnica, que s</span><span lang="pt-PT">ão dois vetores cruciais para a alta cozinha. Por um lado temos a técnica, que muitas vezes é a repetiçã</span><span lang="es-ES">o daquilo que algu</span><span lang="pt-PT">ém já fez. A novidade não é fazer um ovo a baixa temperatura, é colocá-lo no sítio certo e desidratar as lascas de bacalhau. Não querendo filosofar muito, há tr</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">s vertentes cruciais para fazer a diferenciação: técnica — porque sem técnica não há criatividade, porque a criatividade vira mixórdia — , criatividade e conceptualidade, que é o que vai fechar a trilogia. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Há muita coisa que prova e vai para trás?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Há muita coisa que vai para trás: há muitos pratos criativamente corretos, criativamente interessantes mas que depois vão para trás — </span><span lang="en-US">e isso</span><span lang="pt-PT">, atenção, eu não decido sozinho, somos todos, pomos vá</span><span lang="es-ES">rias cabe</span><span lang="pt-PT">ças a pensar como clientes. Há muita coisa que tecnicamente pode estar correta, ou não, criativamente pode estar correta, ou não, mas depois não há uma ideia base que feche o prato. A conceptualidade no fim é crucial. Nós temos que criar um estilo. E o estilo ou a ideia de base pode falhar, porque afinal está tudo correto mas não há nada que ligue a ideia a apresentar dentro do prato. Eu uso muito o termo mixórdia porque a diferença entre o querer fazer bem e o fazer bem é tudo estar lá: técnica, criatividade, conceptualidade. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">O Rui fez alguma formação de cozinha?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Nunca. Mas gostava de fazer um curso de fisiologia do gosto. Acho que para a minha função dentro da empresa — sou tã</span><span lang="it-IT">o dire</span><span lang="pt-PT">ctor criativo como director geral — era importante fazer um curso de fisiologia do gosto. Cozinha tinha de trilhar um caminho prático para o qual temos pessoas muito boas para o fazer. Mas em termos de fisiologia do gosto gostava muito de fazer essa formação, acho que era essencial. Treina-se, l</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">-se, prova-se, mas para evoluir fazer formação era interessante. E existe boa.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT"><strong>O que é que diria hoje ao Rui Sanches de 1998 que abriu o primeiro Vitaminas e que estava preocupado no inverno não conseguir pagar as contas do verão?</strong> </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="it-IT">Isso </span><span lang="pt-PT">é uma óptima pergunta. Não sei, eu divirto-me muito com o que faço. Trabalho muito, trabalhamos todos muito, mas divirto-me imenso. O que diria é</span><span lang="it-IT">: continua a divertir-te, basicamente </span><span lang="pt-PT">é isso.</span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">Já se divertia nessa altura?</span></strong></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Claro. Mas nos primeiros anos a componente financeira era angustiante, porque o negó</span><span lang="it-IT">cio ora andava, n</span><span lang="pt-PT">ã</span><span lang="da-DK">o andava, andava, n</span><span lang="pt-PT">ão andava. Hoje em dia temos várias coisas únicas a ní</span><span lang="es-ES">vel mundial, n</span><span lang="pt-PT">ão só a abrang</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia do portfólio mas ser uma empresa de mé</span><span lang="fr-FR">dia, grande dimens</span><span lang="pt-PT">ã</span><span lang="es-ES">o que s</span><span lang="pt-PT">ó depende de mim: eu e a Margarida temos o capital total da empresa. Somos totalmente independentes, não temos contratos com fornecedores, não dependemos da banca. E isto é muito a nossa força. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY">*Entrevista originalmente publicada na INTER 258</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/entrevistas/quem-faz-um-restaurante-para-turistas-logo-a-partida-tem-os-dias-contados/">Rui Sanches: “Quem faz um restaurante para turistas logo à partida tem os dias contados.&#8221;</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
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