<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	
	xmlns:georss="http://www.georss.org/georss"
	xmlns:geo="http://www.w3.org/2003/01/geo/wgs84_pos#"
	>

<channel>
	<title>Ana Paz, Autor em Etaste</title>
	<atom:link href="https://etaste.pt/perfil/anapaz/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://etaste.pt/perfil/anapaz/</link>
	<description>Um portal para todos os amantes e profissionais de gastronomia</description>
	<lastBuildDate>Wed, 08 Jul 2020 14:59:11 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-PT</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	

<image>
	<url>https://etaste.pt/wp-content/uploads/2017/02/icon_etaste_web.png</url>
	<title>Ana Paz, Autor em Etaste</title>
	<link>https://etaste.pt/perfil/anapaz/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
<site xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">123931852</site>	<item>
		<title>A apologia dos almoços com as amigas</title>
		<link>https://etaste.pt/opiniao/a-apologia-dos-almocos-com-as-amigas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-apologia-dos-almocos-com-as-amigas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jul 2020 12:50:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gastronomia]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Restaurantes e Chefes]]></category>
		<category><![CDATA[ana paz]]></category>
		<category><![CDATA[arb]]></category>
		<category><![CDATA[as ladras]]></category>
		<category><![CDATA[crónica]]></category>
		<category><![CDATA[ladras bistro]]></category>
		<category><![CDATA[restaurantes]]></category>
		<category><![CDATA[restaurantes em lisboa]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://etaste.pt/?p=27251</guid>

					<description><![CDATA[<p>Estaria eu e ela, a minha amiga, sentadas frente a frente no banco de madeira de As Ladras Bistro, na Calçada dos Cesteiros. Duas amigas a serem apaparicadas com dois baos de pescada e um tártaro de salmão, carinhosamente cozinhados e servidos por outras duas mulheres.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/opiniao/a-apologia-dos-almocos-com-as-amigas/">A apologia dos almoços com as amigas</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Aqueles momentos de profunda tristeza e raiva que só a presença de uma amiga consegue reverter instantaneamente, em que ambas sentimos que dançamos em par apenas com os neurónios dos locais mais primitivos do cérebro, em que o problema de uma é sentido e aniquilado com um sorriso da outra, em que a outra nos conta a história certeira para nos nutrir com um aconchego maternal e a calma profunda de um colo e de um peito cheio de maná e hemostático, em que sentimos que tudo é seguro e belo, é um momento que se vive em poucos locais.</p>



<p>Uma mesa de um restaurante, ainda que entremos com máscaras, desinfetemos as mãos, é um desses locais. Duas amigas, frente a frente, em pura entrega uma para a outra, a comunicar com a perfeita perceção das mais subtis expressões faciais. Duas almas femininas e delicadas que se acalentam mutuamente e se energizam nessa dança. Enquanto nutrem o corpo e a alma. Enquanto se riem e gracejam e permutam todo o amor incomensurável que está contido numa amizade entre duas mulheres. Enquanto tentam conter o sangue uma da outra.</p>



<p>O meu escorre pelas narinas e é letal.</p>



<p>Nesta noite sinto uma vontade imensa de irromper pelo restaurante onde estive com uma das mulheres amigas que mais admiro pela sua força e alegria, ambas contagiantes, e dizer-lhe em poucas palavras, que laconicamente ela entende, que me sinto um pedaço de lixo sem valor, e que ele, com o seu desprezo, vai-me fazer sentir sangrar profusamente pelas narinas. Aguardando pelo medo do medo da morte durante esta noite em que durmo só. Sangrarei também pelo peito e pela pele do ventre que há dias ele observava com ar reprovador.</p>



<p>Estaria eu e ela, a minha amiga, sentadas frente a frente no banco de madeira de <strong>As Ladras Bistro, </strong>na Calçada dos Cesteiros. Duas amigas a serem apaparicadas com dois <em>baos</em> de pescada e um tártaro de salmão, carinhosamente cozinhados e servidos por outras duas mulheres. Teria ido a pé até ao restaurante, a prever, enfurecida, dizer com indignação à minha amiga, que tenho medo de morrer amanhã, que sinto sangue a gotejar pelo meu nariz e que estou danada porque ele combinou e não cumpriu.</p>



<p>Mas tenho a certeza que responderia ao sorriso dela com outro, e que pouco lhe diria sobre o rancor que sinto. De seguida que ela me contaria, do outro lado da mesa, uma história cheia de pormenores rebuscados e tão bem encadeada que me esqueceria num instante que quem me desrespeitou também às vezes me faz sentir bem. Às vezes.</p>



<p>Comeria com languidez a textura fofa do <em>bao</em> barrado com ovo, a contrastar com o exterior crocante da pescada frita. Ela deixar-me-ia provar o tártaro de salmão e o bolo de mousse de chocolate. Pouco, para não engordar na barriga que ele desaprovou. No final pagaríamos 10 euros cada, ainda trocaríamos muitos dedos de conversa, e eu sairia aliviada, calma e com um pedaço mais de amor para dar.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/opiniao/a-apologia-dos-almocos-com-as-amigas/">A apologia dos almoços com as amigas</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">27251</post-id>	</item>
		<item>
		<title>#resistir Ana Paz: Uma crónica sobre coisas muito pequenas</title>
		<link>https://etaste.pt/coronavirus/diarios-resistir/ana-paz-uma-cronica-sobre-coisas-muito-pequenas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=ana-paz-uma-cronica-sobre-coisas-muito-pequenas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2020 13:19:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Diários #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[Diários Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[Gastronomia]]></category>
		<category><![CDATA[ana paz]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[covid19]]></category>
		<category><![CDATA[crónica]]></category>
		<category><![CDATA[diario]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://etaste.pt/?p=26033</guid>

					<description><![CDATA[<p>Esta crónica começa por se repetir: isto é uma crónica. Não é um artigo científico, não é feito sob as suas regras, não cita fontes, e no cômputo geral levanta mais perguntas do que exibe respostas.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/diarios-resistir/ana-paz-uma-cronica-sobre-coisas-muito-pequenas/">#resistir Ana Paz: Uma crónica sobre coisas muito pequenas</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Esta crónica começa por se repetir: isto é uma crónica. Não é um artigo científico, não é feito sob as suas regras, não cita fontes, e no cômputo geral levanta mais perguntas do que exibe respostas, como a minha curiosidade meio desapegada ante a inundação de informação inicialmente a ferver sobre coronavírus, reboliço sem pausa, bolhas e bolhas sobrepostas, ruído sem ritmo que impedia a organização de pensamentos e provocava aversão; agora águas paradas, mais calmas e em banho-Maria, com a mesma ausência de respostas, arrastando-se sem que ninguém saiba muito sobre para onde irá ser servido o cozinhado.</p>



<p>Animista, no início de abril, o Papa esclarece-nos em forma de pergunta por que razão alguém pegou nos ingredientes e os resolveu confecionar de forma errada, lançando-nos “e se a atual pandemia fosse uma vingança da natureza?”, para dar em seguida a eventual resposta, “seria com certeza uma resposta da natureza à humanidade”, como no dito espanhol “a natureza é cega e nunca perdoa”. Considero muito encantadora esta visão não instrumental da natureza, nem tão pouco contemplativa ou romântica, mas completamente naturalista. Não é a vingança de Aristóteles, é a da Natureza. Poder-se-ia dizer em relação à Natureza, de modo semelhante ao que Epicuro disse relativamente a nós, Humanos, “A coexistência com alguns sobressaltos é a vingança da Natureza perante o Homem que dela abusa, tal como a vingança da Natureza é um presente de terror perante o Homem que a humilha e esfola”.</p>



<p>Será? Será que estorricámos o cozinhado outra vez? A última que a minha memória alcança, certamente já com muitas imprecisões, foi a crise das vacas loucas nos anos 90. Será que ultrapassámos o limite do razoável de novo, depois do Reino Unido aproveitar o vazio legal para fazer crescer bifes mais depressa com menos custo e pôr as vacas a dar mais leite, usando processamento de sobras e restos inutilizáveis de matéria animal para alimentar vacas? Lá no meio vieram fatalmente sobras contaminadas de ovelhas com “scrapie” (“a BSE dos ovinos”) e restos de bovinos (algo denominado canibalismo…) contaminados com BSE. A tão badalada e já meio esquecida doença das vacas loucas, ou encefalopatia espongiforme bovina, fez na altura os seus estragos biológicos e económicos. A mesma doença nos nossos pratos que a ciência e a epidemiologia demonstraram (mas não provaram com 100% de certeza) ter alta probabilidade de ultrapassar a barreira inter-espécie e contagiar o Homem, sendo com muita probabilidade (mas não irrefutável) a única causa da pavorosa nova variante da Creutzfeldt-Jakob, doença degenerativa humana que afeta pessoas jovens (média 28 anos de idade) e que se inicia com sintomas psiquiátricos inespecíficos que vão piorando progressivamente até à demência e inevitável morte em pouco mais de 1 ano.</p>



<p>Em 1996, com o Plano Nacional de erradicação da BSE e com a recolha e destruição dos materiais de risco especificado dos ruminantes saudáveis (Amígdalas, Olhos, Cérebro, Baço, Timo, Intestinos, Espinal-medula, Coluna vertebral) acabou-se com esse pitéu chamado mioleira e muitas pessoas entraram em puro pânico e deixaram de comer carne de vaca. Em meados de Abril desse ano, estima-se que 1/3 dos portugueses a tenham eliminado por completo do seu reportório gastronómico.</p>



<p>Entretanto o cientista que identificou o prião, uma simples molécula, uma proteína “enrolada” de modo deficiente, como agente causador das encefalopatias espongiformes, descreve-o em detalhe, sugere que pode ser a causa da nova variante da Creutzfeldt-Jakob e ganha o prémio Nobel da Medicina em 1997.</p>



<p>Foram tempos em que a televisão pegou no temor e nos anseios dos comensais e fez o seu próprio festim com informação correta e informação errada. Quando já não havia mais matéria exuberante o assunto morreu por esquecimento. Voltámos a ir ao restaurante, voltámos a apreciar hambúrgueres, bifões e cortes de talho, vísceras e mioleiras, sem medos nem pudores.</p>



<p>Na minha memória foi-se tão rápido como o frenesim que causou, mas já se passaram praticamente 30 anos e os anos vão-se colando implacavelmente e sendo prensados na linha do tempo em que organizamos as nossas recordações para lá caber tudo.</p>



<p>Por oposição, estamos a viver outra crise que afeta o modo como nos relacionamos com a comida, e passados tão poucos meses parece que andamos imersos nela há uma eternidade. Na crise e na comida, que as balanças não enganam.</p>



<p>Um vírus 100 vezes maior que o prião, mas que ainda assim não é considerado coisa viva e é coisa minúscula, nem digna de ser vislumbrada por um mero microscópio, penetrou nas nossas vidas, supostamente vindo de um salto inter-espécie, para alguns, ou da fuga de um laboratório de pesquisa e desenvolvimento de armas biológicas, para outros.</p>



<p>Dizem que já tinha sido identificado em morcegos monitorizados em grutas chinesas pelo grupo Ecohealth Alliance e que consideraram que não constituía ameaça. Era o coronavírus RaTG13, cujo genoma possui 96% de similaridade com o SARS-CoV-2, o atual monstro com que nos deparamos.</p>



<p>Pode significar que vejo documentários e filmes do Netflix enquanto estou aqui por casa a comer em excesso, a desenhar e a escrever. Pode significar que os documentários Netflix não têm credibilidade científica. Ou também pode significar que andamos todos sem saber nada sobre nada, apenas sabendo que nada sabemos, alguns a fingir que sabem o que se passa e se vai passar, outros a trabalhar para manter isto a andar, e que, definitivamente, alguém vai ganhar um prémio Nobel.</p>



<p>A montanha pariu um morcego.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/diarios-resistir/ana-paz-uma-cronica-sobre-coisas-muito-pequenas/">#resistir Ana Paz: Uma crónica sobre coisas muito pequenas</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">26033</post-id>	</item>
		<item>
		<title>#resistir Ana Paz: A minha irmã faz anos</title>
		<link>https://etaste.pt/coronavirus/diarios-resistir/ana-paz-a-minha-irma-faz-anos/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=ana-paz-a-minha-irma-faz-anos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2020 15:56:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Diários #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[Diários Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[Gastronomia]]></category>
		<category><![CDATA[ana paz]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[covid19]]></category>
		<category><![CDATA[diario]]></category>
		<category><![CDATA[irma]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://etaste.pt/?p=24572</guid>

					<description><![CDATA[<p>Ana, conheço-te desde sempre. A minha vida não existe sem tu lá estares, presente ou não, e oxalá nunca viva sem que tu lá estejas. Sendo omnipresente, eu apenas me concebo contigo, mesmo que longe em distância e em opiniões.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/diarios-resistir/ana-paz-a-minha-irma-faz-anos/">#resistir Ana Paz: A minha irmã faz anos</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quero fazer uma crónica sobre o aniversário de uma pessoa muito especial, durante o estado de emergência, em especial no período de limitação à circulação no período da Páscoa, para os olhares daqueles que já vivenciaram ou vão passar por isso. Mas dos meus dedos não frui nenhuma crónica aprumadinha e grandiosa, exemplar digno de uma amálgama entre as memórias lapidadas da aniversariante, a sua apologia ficcionada e hipócrita, como nos obituários (em que os mortos são elevados ao seu esplendor mais puro e jocoso), e a infinita tristeza de não lhe poder dar um abraço forte e oferecer-lhe uma prenda e um beijinho. Faço pausas atrás de pausas, escrevo e reescrevo e ainda assim não sei ao certo o meu objetivo. Por isso vou deixar fluir o enlevo e esperar que alguém o leia. Ela, claro. A minha irmã.</p>



<p>Já falei e já a vi há pouco através de Facetime. Já lhe dei os parabéns, já nos rimos, já levei na cabeça, já trocamos ideias sobre os tempos do COVID19, já fizemos as nossas previsões, já cumpri o dever perante a aniversariante (com exceção da prenda). Agora posso divagar sobre ela e sobre mim e sobre a nossa relação. Sempre com muito cuidado, sem a magoar, que ela não sabe que estou a escrever sobre e para ela, e só por isso calculo que fique chateada. Não é o meu intuito, e embora tenha queda para fazer coisas que não devo, mesmo conscientemente, vou prosseguir por minha conta e risco.</p>



<p>Ana, conheço-te desde sempre. A minha vida não existe sem tu lá estares, presente ou não, e oxalá nunca viva sem que tu lá estejas. Sendo omnipresente, eu apenas me concebo contigo, mesmo que longe em distância e em opiniões. Considero-te uma figura maternal. Tens uma pele com um cheiro único e um toque tranquilizante. É no teu braço que encontro a segurança, e já nos rimos das evidências fotográficas que remontam a tempos longínquos. Foste tu que descobriste, o que para mim é ainda mais carinhoso. Acho que não sabes o quão maternal e meiga és. Sei que queres propositadamente desconhecer essa parte de ti e que isso te orgulha, mas enquanto me deixares, e quando isto passar, vou continuar a apertar o teu braço, mesmo que tenha de levar um calduço.</p>



<p>Depois há todas as outras coisas que nos afastam. Nenhuma é suficientemente forte para nos separar. Continuas sempre nos meus mecanismos de pensamento e raciocínio, mesmo naqueles que dizes que não compreendes, nos meus sonhos, nas minhas memórias e em partes de mim. Partilhamos alguns genes, por isso partilhamos carne e sangue. E partilhámos toda uma educação afetuosa mas bem estrita, contigo na dianteira a desbravar caminho e comigo a percorrer o mato já calcorreado por ti. Por isso te estou eternamente grata.</p>



<p>Invejo a tua força e a tua tenacidade. Invejo e admiro-a. Queria ser forte e disciplinada como tu, sempre a andar para a frente com foco e sem contemplações. Outras vezes não. Outras vezes admiro a nossa polaridade e pergunto-me se quem assume a dianteira é porque vê os outros sem preocupações em ficar onde estão. Em qualquer dos casos é com orgulho que penso que foste sozinha para o outro lado do mundo e que tiveste tomates para enfrentar aquilo que nos ensinaram que seria o caminho correto a percorrer.</p>



<p>Temos coisas só nossas. Coisas muito boas. O sentido de humor é uma delas. Sempre nos rimos das mesmas coisas, mais coisa menos coisa. Principalmente das coisas que os outros não entendem, ou melhor, que só nós entendemos. Mais hilariante ainda é quando outros não conseguem perceber qual a graça. E, aí, é tão divertido provocar-te o riso e observar a tua cara em guerra entre o rir e o respeitar! Lembrei-me agora mesmo das aulas do mestre, das da Marina, do professor chanfrado. Coisas só nossas em que nos comunicamos apenas com um olhar. E sinto saudades de fazer coisas contigo de novo. Muitas saudades.</p>



<p>Não quero saber como é viver sem estares presente. Isso angustia-me. Hoje é dia de festejar nascimentos, renovações, de festejar festejos. Quero que este bicho vá embora, falando de modo pueril, para sentir outra vez o júbilo de irmos fazer coisas juntas. E apertar o teu braço com força, para me gritares “deixa-me, ó!”.</p>



<p>Parabéns Ana!</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/diarios-resistir/ana-paz-a-minha-irma-faz-anos/">#resistir Ana Paz: A minha irmã faz anos</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">24572</post-id>	</item>
		<item>
		<title>#resistir Ana Paz: Três festins gastronómicos na Costa Vicentina Algarvia</title>
		<link>https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-tres-festins-gastronomicos-na-costa-vicentina-algarvia/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=resistir-ana-paz-tres-festins-gastronomicos-na-costa-vicentina-algarvia</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Apr 2020 09:14:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Diários #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[Diários Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[Gastronomia]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[ana paz]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[cozinha portuguesa]]></category>
		<category><![CDATA[Marigil]]></category>
		<category><![CDATA[restaurantes portugueses]]></category>
		<category><![CDATA[Ribeira do Poço]]></category>
		<category><![CDATA[surf]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://etaste.pt/?p=24521</guid>

					<description><![CDATA[<p>Mesmo no início de Março, juntei-me com duas amigas para uma pequena viagem de surf e jantaradas na zona de Vila do Bispo. Para as iguarias pedimos dicas ao nosso professor de surf, o Gonçalo, nascido em Lisboa mas criado nesta terra mágica, onde a terra termina abruptamente e começa o mar, para juntarmos quatro dias de desporto intenso com três dias de pura euforia gastronómica.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-tres-festins-gastronomicos-na-costa-vicentina-algarvia/">#resistir Ana Paz: Três festins gastronómicos na Costa Vicentina Algarvia</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Hoje às 18h19 debrucei-me no umbral da minha varanda, para expor a cara de semblante conformado aos últimos raios de sol. Raios frios e desenxabidos, mas razoáveis quando me aninhei naquele triângulo junto à parede, que se desvaneceu em menos de 19 minutos.</p>



<p>Houve toda a nossa vida para trás desta era que vivemos atualmente. Diz-se que a história se repete a si mesma. Em pleno ano 1 do <em>anno Covid19 </em>(<em>a.c.</em>), temos consciência da nova linha temporal – a era <em>a.c</em>.; o ano zero iniciado em Dezembro de 2019, e o presente e futuro. Não estamos nos tempos bíblicos, quem viveu em a.C e d.C, não sabia que haveria uma designação para o antes e para o depois. Este a.c. teremos como fonte de boas e más lembranças e de aprendizagens e avisos do que devemos ou não repetir. O a.c. futuro construi-lo-emos nós.</p>



<p>Quebrou-se o tempo mas podemos voltar atrás nas nossas memórias e isso é sempre bom.</p>



<p>Depois existe um período em que não tínhamos consciência dessa quebra no tempo e vivíamos felizes na ignorância de quem achava que a história se repetiria com uns novos loucos anos 20. Período para ir buscar pedaços e cozinhar lembranças para evocar prazeres vividos.</p>



<p>Hoje enfeiticei-me com um desses cozinhados confecionados com pedaços de memória. Precisamente desses tempos de inocência vividos há tão poucos dias. Os raios de sol na minha pele podiam estar entorpecidos, e no entanto veio-me à mente um dos últimos festins.&nbsp;</p>



<p>Mesmo no início de Março, juntei-me com duas amigas para uma pequena viagem de surf e jantaradas na zona de Vila do Bispo. Para as iguarias pedimos dicas ao nosso professor de surf, o Gonçalo, nascido em Lisboa mas criado nesta terra mágica, onde a terra termina abruptamente e começa o mar, para juntarmos quatro dias de desporto intenso com três dias de pura euforia gastronómica.</p>



<p>Quatro dias de boas ondas e nenhum português à vista, apenas multidões de estrangeiros e escolas de surf a atacarem as praias da Ingrina e Zavial como tubarões. Todos numa completa ingenuidade de quem ouve algumas notícias ocasionais sobre um surto de gripe.</p>



<p>O Gonçalo fez-nos uma lista exaustiva da etiqueta alfacinha na restauração algarvia do Barlavento em época baixa. “Cozinharem e servirem, ali, é interpretado como um grande favor que vos fazem. Peçam tudo de uma só vez, restrinjam-se ao que está no menu e não façam perguntas parvas. Deixem o banho para depois. Em terra de praia e pescadores, ninguém quer saber. Se o restaurante fecha às 22h, chegar às 21h é pisar um grande risco”.&nbsp;</p>



<p>Primeiro dia, viagem longa, um pouco de surf, nada fechado. Como poderíamos nós e eles saber? Vamos diretas à <strong>Tasca do Careca</strong>, já a roçar as 21h, com um sorriso amarelado, e perguntamos se podemos jantar. Na verdade, sem grandes sorrisos e cerimónias, decididas e despachadas, as mulheres na liderança desta casa ordenam-nos que nos sentemos onde quisermos e sugerem a especialidade da casa – lulas recheadas. Estamos roxas de frio, reunimos o pedido todo num só e sai de rajada “lulas recheadas para todas, uma dose de camarão grelhado 20/30, uma salada, um jarro de vinho branco da casa, uma Sagres sem álcool e uma garrafa de água”. Dever cumprido, conselho seguido. Chegam as lulas recheadas e os camarões, e os nossos queixos caem literalmente em cima da mesa! Uma travessa opulenta de lulas recheadas, com um molho com cebola e pimento abundantemente atomatado e com o que mais escorre de sucos do recheio, que, provado com o pão, parece néctar do Oceano, a cair em onda sobre um monte de batatas fritas que se estende pelo horizonte. Lá ao fundo uns camarões gigantes bem grelhadinhos e um limão, como um sol a brilhar. Que é isto? Um deleite! As lulas, de textura firme irrepreensível e conteúdo suculento, foram o maior dos mimos para o nosso final de dia. Fenomenais! Imperdíveis!&nbsp;</p>



<p>Hoje em dia ninguém atende o telefone. Calculo que esteja encerrado.</p>



<p>Segundo dia, skate e Zavial. Três apetites vorazes, já a noite caía sobre Vila do Bispo. Exauridas e enregeladas, fomos diretas ao <strong>Marigil</strong>, fachada e decoração externa meio disparatada, tipo Twin Peaks, mas muito aconchegante e aprumado lá dentro. Uma salamandra aquece a sala. Nós, munidas de gorros, casacos e botas, de cabelo revolto e sal na cara, com uma fome gigante, pedimos umas ameijoas à Bulhão Pato. Para começar. Nós não sabemos, mas vem aí um gigante abater-se sobre nós. Tempos agigantados, como as ameijoas, grandes e robustas, suculentas e deliciosas, bem frescas, molho dourado de azeite bem quente, três dentes de alho, sorvido por estas três famintas equipadas com fatias de pão de cabeça. Neste restaurante algarvio, todo o ambiente é encantador e simpático. Maria dá a cara, a simpatia e um dedos de conversa, e marido Gil ocupa-se na cozinha dos pratos de confeção mais prolongada, que por norma só saem com reserva. Tivemos sorte. Ninguém sabia que este restaurante fechará daí por uns dias, e nesta noite havia perna de borrego assada no forno. A carne, tenra, desfaz-se milagrosamente com leves toques do talher. Parece estar noutro estado físico, algo completamente alucinante. Arrebatador.&nbsp;</p>



<p>Atualmente o Marigil está encerrado, sem serviço de take away ou entregas, mas ainda atende o telefone a voz triste da proprietária.&nbsp;</p>



<p>Terceiro dia de surf, praia da Ingrina, derradeira ceia. Decidimos apostar na <strong>Ribeira do Poço</strong>. Estava cheio e não tínhamos reserva, mas ficámos numa mesa bem central. Restaurante rústico inaugurado em 2002, erguido das ruínas de um palheiro (bela metáfora), onde o exigente senhor Álvaro só deixa entrar peixe e mariscos frescos. A abarrotar durante o Verão. Hoje ninguém atende o telefone… Uma ardósia mesmo junto à nossa mesa com as especialidades da casa – perceves, longueirão, mexilhões e ameijoas, lapas e moreia. Na mesa, entretemo-nos com anchovas, pão e maionese com alho, hoje vamos provar um vinho do Algarve, e comer um clássico algarvio – massada de peixe. Diz que é para dois, mas dá para três e nós já transportamos nas nossas entranhas muita riqueza gastronómica destes últimos dois dias. Pedimos ao simpático empregado para escolher o vinho. Escolhe o mais caro, mas queremos crer que o fez por ser o melhor. Vem um vinho tinto chamado João Clara de 2016, com a casta algarvia Negra Mole, única no mundo, e que já esteve quase extinta. O vinho é muito bom, suave e leve. Não sentimos as notas típicas de couro e frutas frescas. Saímos da praia há 1h e ainda temos o nariz tapado para estes aromas subtis e homeopáticos na opinião da minha rinite perene que nada tem de infeção mas sim de alergia. Já o mesmo não se passa em relação à massada. Trazem-nos uma farta e aromática massada de peixe, tão perfumada como o mar, um mar agora bem quente, com camarão, pata-roxa, tremelga, raia e tamboril e o seu fígado. Que delícia! Magnífico!&nbsp;</p>



<p>Pelas inúmeras tentativas infrutíferas de contacto é mais que provável que a Ribeira do Poço esteja fechada.</p>



<p>Gonçalo Cintra, sem o saberes levaste-nos à nossa última ceia. Obrigada pelas lições de surf. E por nos apontares às nossas últimas refeições sem clausura, sem saber o que nos esperava. A nós e a eles.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-tres-festins-gastronomicos-na-costa-vicentina-algarvia/">#resistir Ana Paz: Três festins gastronómicos na Costa Vicentina Algarvia</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">24521</post-id>	</item>
		<item>
		<title>#resistir Ana Paz: Rompendo a corda. De mãos desatadas, sabe bem respirar o que se esconde</title>
		<link>https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-rompendo-a-corda-de-maos-desatadas-sabe-bem-respirar-o-que-se-esconde/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=resistir-ana-paz-rompendo-a-corda-de-maos-desatadas-sabe-bem-respirar-o-que-se-esconde</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Apr 2020 11:39:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Diários #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[Diários Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[ana paz]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[resistência]]></category>
		<category><![CDATA[restaurante]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://etaste.pt/?p=24151</guid>

					<description><![CDATA[<p>Só seremos felizes se formos humanos. Senão seremos reféns daquilo que não vivemos. Seremos seres asséticos, bem esfregados a álcool gel, bem protegidos com máscaras e outros apetrechos e sem cicatrizes por dentro e por fora.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-rompendo-a-corda-de-maos-desatadas-sabe-bem-respirar-o-que-se-esconde/">#resistir Ana Paz: Rompendo a corda. De mãos desatadas, sabe bem respirar o que se esconde</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nestes tempos de insanidade vamos rompendo as cordas que nos amarram às coisas seguras e emocionalmente asséticas. Uns em casa a ensandecer enquanto julgam ter ainda o discernimento e subordinação de obedecer ao que lhes é pedido, por outrem ou por autodisciplina, outros a observar de mãos atadas a ruína que se adivinha, outros a meter as mãos nas massas porque por obrigação ou paixão juraram a Hipócrates. Neste grupo não há trocadilho de mau gosto capaz de apimentar o texto. Serviria apenas para minha sobranceria e presunçoso desdém por, na realidade, não ter sido capaz de ingressar no Santo Graal dos anos 90.&nbsp;</p>



<p>Estes são tempos de desvario e de pureza simultânea. Opto por mostrar as minhas cicatrizes e encantar-me a sentir a humanidade nas pessoas com quem normalmente tenho uma relação recheada de teatralidade e competição pelas fanfarronices, sucesso e ausência de feridas. Porque feridas, chagas, peles conspurcadas ou já lambidas, mesmo se curadas e com tecido cicatricial, são sítios vulneráveis, onde, fragilizada, a pele permite dar entrada ao outro e acesso nos nossos medos e àquilo que queremos encobrir a todo o custo.</p>



<p>Um sorriso seguro, um diálogo fascinante, uma atitude entusiasmante, os tempos corretos para entrar nas conversas, com a tirada exata no momento certo? Algo que sempre invejei, invejo e vou invejar. Nos dias de reclusão que vivemos, continuo a corroer-me por dentro por me faltar algo, rapidez de raciocínio ou simplesmente acalmar a mente e entregar-me aos outros. Mas encontrei a escrita, que não exige a minha ousadia perante olhares alheios e julgamentos públicos sobre as minhas expressões faciais, risos atempados e vivacidade presencial, que não possuo e da qual no fundo não quero desistir. Valha-me agora escrita.</p>



<p>O que aprendi por ora com o COVID-19 fazendo parte do grupo que está em casa? A esconder-me fisicamente e a expor-me sob o subterfúgio das palavras de um pseudónimo. Chega (por ora) de tentativas frustradas de fazer boa figura perante quem pouco conheço ou perante grandes grupos de pessoas. Assumo-me como introvertida, com aspirações a extrovertida. Assumo-me como inadaptada. Estou cá em baixo. Assim seja.</p>



<p>Serve esta crónica para fazer as pazes com os meus esforços (e o de tantos outros tímidos) por ter tentado agarrar-me ao prazer de poder ser bem-vinda, de arranjar por meios químicos a energia que anima um grupo de pessoas, e por isso ter vivido muitos anos em entrega inocente. Partilho esta crónica com o Miguel, meu amigo e colega há seis anos, amigo que desconfio ser um introvertido mascarado, como eu.&nbsp;</p>



<p>Trabalhámos juntos e conhecemo-nos quando ele voltou de baixa após um acidente de mota. Fomo-nos conhecendo muito rapidamente, no lodo reconhecido entre os tímidos, como irmãos que compartilhavam banalidades que não saíam da nossa união fraterna. O Miguel ansiava diariamente pela entrada às 9h em ponto da nossa nova colega, de uma beleza, humor e intelecto celestial, tudo platónico para ele, mas que o fazia levantar da cama pela manhã sem dores no ombro estilhaçado pelo peso da mota, a cicatrizar lentamente, e com a energia de quem ia fazer uma conferência de imprensa sobre a pandemia que ele não sabia que iria chegar seis anos depois. Revi-me nesta atitude todos os dias em que brincávamos com o asunto. &nbsp;</p>



<p>Vim mais tarde a conhecer melhor a vida do Miguel, porque ele vai revelando as coisas pouco a pouco, como pingas que solta com muita dor e esforço, a quem as merece por semelhança de temperamento. Hoje conheci um pouco mais. O nome dele não é Miguel, está resguardado, mas permitiu-me partilhar vivências que fazem dele quem hoje ele é.&nbsp;</p>



<p><strong>Perguntámo-nos mutuamente, sem ser nossa intenção fazer a apologia desta pandemia – “Quem nunca bateu no fundo será feliz? Quem nunca viu um negócio próprio vir por água abaixo, quem nunca viveu um devastador desgosto de amor, quem nunca passou fome ou não pode prover aos seus, quem nunca deu cabo da vida… pode ser feliz?” Chegámos à conclusão que não, não pode ser feliz. As adversidades, estragar por completo a vida pessoal, ceder aos sonhos, viver um grande amor e vê-lo esmorecer e entrar em pânico, faz-nos humanos. E só seremos felizes se formos humanos. Senão seremos reféns daquilo que não vivemos. Seremos seres asséticos, bem esfregados a álcool gel, bem protegidos com máscaras e outros apetrechos.</strong></p>



<p>Salvo prova em contrário estamos aqui nesta vida apenas uma vez.</p>



<p>A tónica encontra-se no facto do Miguel já ter sido proprietário e líder de um restaurante há muitos anos, num conhecido espaço comercial. O Miguel pinta quadros a óleo. É o que o faz fluir. Diz-me numa das mensagens que “um dos momentos que recordo como um dos mais felizes que tive, foi estar a pintar, e a minha filha ao meu lado começar a chorar, mas a chorar de felicidade. Agarrou-se-me aos beijos, as lágrimas gordas caíam-lhe do rosto. Tinha uns seis anos.”. Se a sua filha tinha 6 anos na altura, o Miguel estaria há 4 anos a gerir uma empresa com 25 empregados, a aprender a cozinhar de forma profissional, a despedir pessoas, a ver o melhor e pior que elas têm. A dedicar 14h por dia ao seu restaurante. A levantar-se às 6h da matina para fazer compras e a chegar a casa à 1h, para ver a mulher a tratar sozinha da filha recém-nascida, a sentir que o castelo começava a ruir.</p>



<p>E a #resistir.&nbsp;</p>



<p>Segundo as suas palavras, “comecei com uma mão cheia de areia e a vi essa areia a escorrer muito lentamente por entre os dedos. Só no fim me apercebi que a areia que não conseguia manter com os meus dedos, a que deixava fugir, era a minha vida”.&nbsp;</p>



<p>Quando insustentável, vendeu o restaurante, rumou com a mulher e filha para os Picos da Europa, numa tentativa desesperada de tentar salvar o que lhe tinha escorrido entre os dedos. “Abri um bar nas Astúrias, aprendi a falar espanhol, ia para o estabelecimento de cavalo, deixei crescer o cabelo até eu próprio ter um rabo-de-cavalo, tinha bâmbis a pastar no jardim da nossa casa às 6 da manhã. Parecia que tudo tinha voltado ao normal”. Diz-me depois “Esqueci-me, no entanto, que para onde quer que vás, os teus problemas vão contigo. As feridas eram demasiado grandes e nunca voltaram a sarar. Erros atrás de erros… Uma noite finalmente falámos o que andávamos a silenciar, ambos sentados no jardim com um copo de vinho branco na mão. Vimos que o caminho tinha terminado. Ambos quisemos deixar o melhor de nós nas nossas recordações, afinal conhecemo-nos desde os 17 anos. Às 5 da manhã daquela madrugada, a mais negra da minha vida, carreguei o meu carro com os meus pertences e deixei a minha vida para trás. Chorei durante toda a viagem até chegar a Lisboa. Tive de começar tudo de novo.”</p>



<p>Acrescenta num último WhatsApp – “Voltar a encontrar uma casa, um emprego, tentar recuperar os amigos&#8230;”, revivendo o que sentiu durante anos a fio depois da separação.&nbsp;</p>



<p>E na despedida da nossa conversa fala-me da filha, agora maior de idade. “Estou a escrever-te e a recordar situações que já estavam armazenadas em caixas há muitos anos. Vou dar uma volta ao jardim, com a minha filha, e depois tenho de ir às compras”.&nbsp;</p>



<p>Fico a pensar no desprendimento de uma ida ao supermercado com a sua criança que deixou para trás noutro país. Percebo finalmente que exulto por nunca ter evitado problemas e nunca ter perseguido a segurança a longo prazo como se ela me garantisse um futuro sem agruras, sem cicatrizes, sem ver o pior das pessoas e o pior de mim. Infelizes os que sempre tiveram a vida planeada, calculada e resoluta. Felizes os que vivem no meio do caos e do amor e do ódio em simultâneo, pois vivem.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-rompendo-a-corda-de-maos-desatadas-sabe-bem-respirar-o-que-se-esconde/">#resistir Ana Paz: Rompendo a corda. De mãos desatadas, sabe bem respirar o que se esconde</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">24151</post-id>	</item>
		<item>
		<title>#resistir Ana Paz: De mãos (bem) atadas</title>
		<link>https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-de-maos-bem-atadas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=resistir-ana-paz-de-maos-bem-atadas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Mar 2020 20:48:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Diários #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[Diários Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[ana paz]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[resistência]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://etaste.pt/?p=23944</guid>

					<description><![CDATA[<p>O monstro azul escanzelado vai-se embora quando o olho nos olhos, e para mim é muito óbvio que a medicação me coloca mais atenta e sem medo de o encarar. Ele foge da coragem de não desviar o olhar. É como um cão. Conhece bem a hierarquia dos fortes.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-de-maos-bem-atadas/">#resistir Ana Paz: De mãos (bem) atadas</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Já há alguns dias que o sentia, como um epilético sente a aura e um ansioso sente o medo do ataque de pânico. Senti muitas vezes o meu colapso mental a chegar, mas sob controlo, caminhando pé ante pé no silêncio íncubo como um corcunda de articulações vincadas e corpo seco, de sorriso maléfico, a esticar-se na minha direção num regozijo manhoso de quem crê que me pode tocar de surpresa por trás. Fingi que não o sentia, fiquei estática a sentir os seus passos inaudíveis, mas virei sempre a cabeça a tempo. O monstro estava a querer tocar-me com a sua garra detonadora e eu dei-me conta dele, toda a vez que ele me quis tocar. Ele não vem quando estou a dormir. Ele vem quando estou acordada. Daí o medo do dia e a segurança<br>da noite.<br>Hoje, o sacana apanhou-me desprevenida.<br>Posso colocar-me no papel de vítima e dizer que estava a ressacar dos medicamentos que me mantêm vigilante porque não me dá jeito ir comprá-los nesta altura de reclusão e medidas de atendimento nas farmácias semelhantes às da quarentena dos miúdos no ET. O monstro azul escanzelado vai-se embora quando o olho nos olhos, e para mim é muito óbvio que a medicação me coloca mais atenta e sem medo de o encarar. Ele foge da coragem de não desviar o olhar. É como um cão. Conhece bem a hierarquia dos fortes.<br>Hoje opto com orgulho por me colocar no papel de vítima. Tinha tudo e todos a chamar a minha atenção. Não tinha tempo nem olhos para estar atenta ao monstro do descontrolo mental. Ele sabe quando baixo a guarda, e é nesse momento que ele ataca sem piedade.<br>Primeiro toca-me ao de leve nas costas, para avaliar a presa, eu, depois salta-me para as costas e crava-me as garras de modo a que já nem o consigo olhar nos olhos. Aí perco o controlo dos meus sentimentos e ações e já não consigo aceder ao meu lobo frontal. Eu sei que é o monstro, mas também sei que depois de ele se acercar tanto, ao ponto de me apertar o pescoço e os pulsos, estou fodida.<br>COVID-19 não me apanhas, mas deixaste o monstro que eu mais temo aproximar-se e agarrar-me com força. Tivesse eu comprado a minha medicação a tempo e ter-te-ia visto e mirado sobranceiramente, mas estive a alimentar os meus adolescentes, a cozinhar para nós, a trabalhar, a limpar, a escrever, a pagar o meu empréstimo. Saí a correr para levantar dinheiro num banco e depositar noutro, voltei a ofegar, sentei-me frente ao computador da empresa, e atacaste-me de modo implacável, não para matar, não é isso que queres, mas para fazer os teus estragos, que os tinhas em memória e deles ressacavas também.<br>Fechei-me na cozinha para lutar contigo, mas contigo não há luta possível porque atacas pelas costas. Contigo só consigo lutar se beber um copo de vinho ou tomar aquilo que tu já conheces. Não há aquilo que bem conheces, resta-me o copo de vinho antes que saia tresloucada da cozinha a berrar e a espumar perante os que mais amo. Bebo rápido, é o que me vale. Sinto-te esmorecer e aliviar o aperto.<br>Sento-me aliviada por ninguém ter presenciado a nossa luta completamente desnecessária.<br>Bebo outro copo de vinho, e sinto-te a recolher como os caranguejos para os confins do mundo onde te albergas. Algures na minha cabeça. Volta e não saias tão cedo, monstro articulado e parasita, que tive de beber dois copos de vinho tinto para te fechar de novo nos confins da minha consciência. Carraça! Não voltes tão cedo!</p>



<p><em>Nota: Esta crónica é dedicada a todas as pessoas que sofrem com a sua mente, com as suas doenças mentais, os seus medos e/ou que são obrigadas a passar este tempo de reclusão com pessoas tóxicas, muitas vezes membros da sua família. Eu pertenço a um destes grupos.</em></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-de-maos-bem-atadas/">#resistir Ana Paz: De mãos (bem) atadas</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">23944</post-id>	</item>
		<item>
		<title>#resistir Ana Paz: De mãos atadas</title>
		<link>https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-de-maos-atadas/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=resistir-ana-paz-de-maos-atadas</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2020 09:55:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Diários #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[Diários Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[ana paz]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[restaurantes coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[takeway]]></category>
		<category><![CDATA[teletrabalho]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://etaste.pt/?p=23649</guid>

					<description><![CDATA[<p>A minha necessidade de suprir necessidades básicas passa por comer bem, agora ainda mais, o que para mim significa ter prazer em ver, cheirar, tragar, mastigar e deglutir alimentos confecionados por especialistas no prazer do bem cozinhar.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-de-maos-atadas/">#resistir Ana Paz: De mãos atadas</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Trabalho numa nas empresas que mais precocemente decretou o teletrabalho nesta crise. Paga bem as minhas refeições quando estou fora, mas não agora, que trabalho a partir de casa. Nada mal. Mantenho a boa mesa a expensas próprias e a noção de saúde física e mental.</em></p>



<p>Esta crónica é uma autêntica bizarrice. É tão insólita e inaudita para mim como os momentos que se vivem em crescendo há pelo menos duas semanas e seguramente desde a última quinta-feira, 19 de março de 2020, quando o nosso excelentíssimo presidente da república veio dizer ao país que havia convocado o conselho de estado, ouvido o governo e solicitado autorização à assembleia da república para decretar o estado de emergência, evocando a nossa experiência como nação, “de quem já viveu tudo, numa história de quase nove séculos, se disciplinou, entendeu que o combate era muito duro e muito longo, e foram e têm sido, exemplares.”&nbsp;</p>



<p>Para não lesar ninguém, e como muitos na minha profissão e similares, comecei por trabalhar voluntariamente a partir em casa. Dois dias depois, por resolução da minha entidade patronal, e, mais tarde, por decreto, mantive-me em casa. Veio o ilustríssimo Rodrigo Guedes de Carvalho, o da laranja em riste de outros tempos, agora ícone de respeito com postura de galã, pôr-nos no lugar numa sexta-feira 13 com um desconfortável &#8220;aos vossos avós foi-lhes pedido para irem à guerra, a vocês pedem-vos para ficar no sofá. <strong>Tenham noção</strong>!&#8221;, ficando imediatamente na história da televisão, por diferentes motivos, mas a par, com o histriónico José Rodrigues dos Santos em Janeiro de 1991 a anunciar o início da guerra do Golfo.</p>



<p>Como muitos profissionais que foram mandados para casa para trabalhar na reclusão dos seus lares, aproveitei para fazer outras coisas para além do trabalho especializado que não posso fazer aqui fechada, mas salto do sofá para a cama, e da cama para a mesa. Se chamasse tudo de “bom” seria plágio, contudo não vou ser hipócrita e confesso que mantenho o prazer da “boa mesa”. A minha necessidade de suprir necessidades básicas passa por comer bem, agora ainda mais, o que para mim significa ter prazer em ver, cheirar, tragar, mastigar e deglutir alimentos confecionados por especialistas no prazer do bem cozinhar. Com restaurantes fechados e isolamento social, resta-me pedir um bom jantar e partilhá-lo com a melhor das companhias.&nbsp;</p>



<p>No primeiro dia em que tento pedir uma refeição bem fecunda para entrega ao domicílio dou-me logo mal. Estamos na segunda-feira, dia 16 de março. Primeira ideia, marisco do <strong>Ramiro</strong>, de imediato abandonada porque as entregas a casa não funcionam precisamente neste dia da semana. Segunda tentativa, <strong>Penha Longa – Spices, Arola e Penha Longa Mercatto</strong>. Ligo para receber a resposta de que apenas têm serviço de take-away, que não é de todo a informação que publicitam. Terceira tentativa, <strong>Tasca da Esquina de Vítor Sobral</strong>. Na net diz-se que entregam através do Glovo. Pesquiso na aplicação e recebo zero resultados. Entretanto tenho o Glovo aberto, a paciência a esgotar-se e a indicação de um Glovo recente de <strong>Frango da Guia</strong>. Vamos a isso, é um clássico do desenrascanço e já serve para acalmar a ânsia juntando-lhe um bom vinho. Quarenta e cinco minutos depois ligam-me do restaurante a dizer que cancelaram a entrega. Aparentemente este é o tempo que levam a descobrir que não entregam na minha zona de residência, quando já o tinham feito antes. Inaceitável! Estou a ficar cada vez mais irritada, não tenho noção do meu egoísmo nem estou sentada no sofá, por isso venha sushi, seja de onde for. Vem do <strong>Justsushi</strong>. Não sei quanto tempo demorou mas creio que foi rápido. A entrega foi muito simpática. A encomenda incluía uma garrafa de vinho branco Cabriz, que fez o brilharete diante de um sushi medíocre e duas sopas miso que sabiam a marisco e onde boiavam uns pedaços meio amorfos de caranguejo ou sucedâneo.&nbsp;</p>



<p>Tiro a lição do primeiro dia: ligar para o restaurante a confirmar a receção e saída do pedido.</p>



<p>Dia seguinte, na esperança de ter marisco do <strong>Ramiro</strong> em casa, verifico que o telemóvel anunciado no website (969 839&nbsp;472) está desligado. Deposito então toda a minha esperança na Uber Eats, dizem que há imensa escolha por lá. Em pouco tempo descubro que, como o Glovo, a Uber Eats é uma plataforma com serviço de entrega geográfica limitada. Na zona onde estou não há grande escolha. Nada de <strong>Boa Bao</strong> ou Ramen do <strong>Ajitama Ramen Bistro</strong>. É demasiado longe para eles, e no entanto estamos demasiado perto… Para quem leu extasiada um texto que garantia a experiência oriental dentro de portas nestes tempos em que as viagens estão interditas até aos países de origem destes “aromas exóticos e convidativos de cozinhas como a tailandesa, a chinesa, a japonesa ou a vietnamita”, é bastante frustrante perceber que estas experiências domiciliárias não estão, de todo, garantidas. E no entanto estou a 18 minutos de automóvel do primeiro e a 14 minutos do segundo… Opto por<em> ter noção! </em>Sento-me no sofá e engulo a repulsa por notícias precoces e disparatadas. Decido manter-me com o melhor que a Uber Eats ou um Glovo me pode oferecer. Nesta 3ªf, 17 de março, peço jantar da <strong>Maria Azeitona</strong>, na Amadora, a 5 minutos de distância, que se esticam por 45. Chega-me às mãos um saco de papel com uma mensagem de alento, escrita em menos de 1 minuto mas de um valor incalculável, e no interior um jantar que só poderia ser mil vezes melhor se apreciado no próprio restaurante.&nbsp;</p>



<p>Muito se perde nestas comezainas pedidas por apps no telemóvel. Nem conto com toda a experiência de ir comer fora. Veja-se a comida apenas. Em pedidos grandes perde-se a noção do que é o quê. No restaurante <strong>Maria Azeitona</strong> pedimos chamuças e croquetes de vitela à antiga portuguesa, reconhecíveis, claro, e muito bons, exceto pela temperatura e textura da fritura que se perdeu pelo caminho. Ovos verdes, ovos rotos de linguiça de barrancos, moelas estufadas à portuguesa e tiras de porco preto de Aviz, que não sei com justiça dizer se estavam bons, apenas que estavam apetitosos e suculentos qb e que indiciavam ser bons se saíssem da cozinha no imediato. Mais um naco de vitela à Mirandela e caril de camarão com fruta fresca, e já estava instalada a confusão com os molhos e acompanhamentos – o que é que pertence ao quê? – num festim, <em>sem noção!</em>, de embalagens de plástico.&nbsp;</p>



<p>Tiro a lição do segundo dia: experimentar o restaurante, a <strong>Maria Azeitona,</strong> quando tudo isto passar.</p>



<p>Depois, como em tudo na vida, descubro com a experiência quem nunca me falha em momentos de aperto. E os meus Glovos subsequentes foram todos para o <strong>Paraíso Tropical</strong>. Num primeiro momento, acarajé, tiras de picanha, picada mineira e moqueca baiana. Dou por mim a olhar com ar de tonta para as embalagens de plástico que sobravam… Tudo para o frigorífico, que muitos dias de sofreguidão virão e são molhos perfumados que se podem usar em várias situações. Maminha ao alho noutro dia, feijoada brasileira noutro ainda. Vinhos entregues em casa. Começo a ficar apegada a este restaurante. As entregas funcionam muito bem, só há que ter presente que se perde muito pelo caminho.</p>



<p>E começo a ganhar <em>noção</em> em cada etapa.</p>



<p>Noção de que tenho uma sorte dos diabos por não ter sido ainda chamada para ajudar num hospital, por poder ter comigo o melhor dos companheiros para partilhar uma refeição com sabor a chocalho de mota e a aroma de plástico, por poder ainda trabalhar a partir do sofá e saborear uma refeição que seria, certamente, divinal, no seu estado puro – saída da cozinha.&nbsp;</p>



<p>Tenhamos noção e humildade.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/coronavirus/resistir-ana-paz-de-maos-atadas/">#resistir Ana Paz: De mãos atadas</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">23649</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Ana Paz: Segredos e Bastidores. O dia em que provei Pêra Manca</title>
		<link>https://etaste.pt/opiniao/ana-paz-segredos-e-bastidores-o-dia-em-que-provei-pera-manca/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=ana-paz-segredos-e-bastidores-o-dia-em-que-provei-pera-manca</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Mar 2020 15:02:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[restaurantes em alfragide]]></category>
		<category><![CDATA[segredos e bastidores]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://etaste.pt/?p=22945</guid>

					<description><![CDATA[<p>Esta crónica poderia ser sobre um pequeno restaurante nos arredores de Lisboa, onde costumo comer soberbamente, rápida ou lentamente, bem e barato, quando há reuniões para os lados de Alfragide.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/opiniao/ana-paz-segredos-e-bastidores-o-dia-em-que-provei-pera-manca/">Ana Paz: Segredos e Bastidores. O dia em que provei Pêra Manca</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>&#8220;Trabalho numa empresa que paga bem, o que me dá a felicidade de percorrer os locais mais longínquos de todo o território nacional, e conhecer humildes, belos e perdidos tesouros da restauração nacional. Adoro este beco profissional no qual caí, única e exclusivamente por ter acesso a uma boa 1/2 diária, que me permite enfiar-me em restaurantes giros e bebericar bons vinhos.</em>&#8221; </p>



<p><em>Ana Paz</em></p>



<p>Esta crónica poderia ser sobre um pequeno restaurante nos arredores de Lisboa, onde costumo comer soberbamente, rápida ou lentamente, bem e barato, quando há reuniões para os lados de Alfragide. Muito haveria a dizer e muito será dito, mas de outra forma. Na forma de relato de uma das noites mais loucas e inusitadas que nunca imaginei passar nesta casa que sempre conheci como pacata – quanto muito ligeiramente ruidosa pelo espaço exíguo –, desde que a frequento amiúde há uns quatro anos e nas mais diversas situações. Almoço, jantar, sozinha, em modo <em>date</em>, família, amigos, colegas, em modo laboral ou pessoal.  </p>



<p>Na sexta-feira véspera de fim-de-semana gordo de Carnaval, nada faria prever o que aí vinha. Sem folia marcada, decido ir bebericar um vinho e jantar algo no <strong>Segredos e Bastidores</strong>, um pequeno e agradável restaurante em Alfragide, com paredes forradas a garrafas de vinho e um bar balcão onde se expõem peixes e carnes frescos de cores vivas. Apontam-me a mesa junto à cozinha, de onde tenho vista para todo o restaurante. Refastelo-me com um arroz de lingueirão soberbamente confecionado ao jeito algarvio, com um caldo estival que se apodera da minha boca e me faz fechar os olhos para me concentrar no prazer do paladar e olfato, enquanto os ouvidos são bombardeados com pedaços de frases de conversas paralelas, ligeiramente ébrias, emitidas por dois alvoroçados grupos de homens de negócios. Vendedores e chefes de vendas da indústria automóvel, venho mais tarde a saber quando chegarmos à parte em que já todos somos um único grupo de convivas. Já lá iremos.</p>



<p>A páginas
tantas, já bem adiantada no arroz de lingueirão e na meia garrafa
do vinho branco que me propuseram (salvo erro, 1808 Douro DOC branco
bem fresquinho), o proprietário, sósia do Jorge Jesus, vem a
caminhar na minha direção e deixa inadvertidamente cair um copo. Os
estilhaços voam na minha trajetória. Eu vejo literalmente o tempo a
parar e um monte de pedaços de vidro a voar diretamente para os meus
olhos incrédulos. Isto pareceu uma eternidade, como se todos
estivessem congelados, os projéteis parados no ar e eu tivesse um
espaço no tempo para os ir buscar um a um, como o Neo no Matrix.
Quando finalmente processei esta fotografia no meu cérebro, o tempo
voltou ao normal, e como reflexo agacho-me de lado e coloco a cabeça
entre os cotovelos, para proteger a minha pele cuidada e os meus
grandes olhos castanhos, que fecho com força não vá ocorrer um
ricochete tipo bala mágica de Dallas.</p>



<p>As conversas em
fundo cessam, fica o silêncio geral. Sinto que já caiu tudo, os
vidros que me iriam desfigurar caíram e eu não senti nada. Volto
muito lentamente à minha posição original enquanto olho para um
cenário digno de um quadro da última ceia. Tento interpretar o que
vejo, mas não há um pingo de ação – as pessoas estão nos seus
lugares, com os seus talheres nas mãos, bem sentadas, em silêncio,
a olhar para mim. E eu a olhar para elas.</p>



<p>Depois olho para
o dono do restaurante. E há finalmente ação! Prontamente agarra no
copo, no prato, na garrafa, nos talheres e no que mais havia na mesa
e grita para a cozinha “sai outro arroz de lingueirão!”. Depois
vira-se para mim e pede-me imensa desculpa, pergunta se estou bem,
lava-se em desculpas segunda vez, e parece que segue o “guião dos
acidentes”. Muito profissional, no mínimo. Nunca na minha vida
profissional tinha visto uma gestão de dano tão rápida e eficaz.</p>



<p>Confesso que
fiquei impressionada positivamente. Ele não teve culpa alguma.
Acidentes acontecem. E ali estava ele a perguntar-me de que modo me
podia compensar. E a pedir desculpa incessantemente. Eu já tinha
comido praticamente todo o arroz de lingueirão e só me saiu da boca
“sente-se aqui comigo, não quero mais comida, quero que beba um
copo de vinho comigo para nos acalmarmos, ninguém se aleijou”. 
</p>



<p>Pronto! Foi como
um árbitro que apita para começar o jogo! Começa toda a gente a
falar comigo ao mesmo tempo, um grita de uma mesa “Eu também quero
vinho, que eu também estive em perigo!”, imediatamente outro
incentiva do outro lado da sala com um “Pede um vinho com jeito.
Ele tem para aí umas garrafas boas!”. O burburinho aumenta e a
minha já é a mesa mais concorrida. A minha e a do senhor António,
ou melhor, Tony, que entretanto se apresentou e sentou do outro lado,
junto à cozinha. Uns e outros a pedirem vinho e a falar com o
António, que começa agora a descomprimir. No meio da algazarra
gerada, da insistência compassiva do Tony, e da minha calma pós
descarga de adrenalina, saio-me com um tímido “Eu nunca provei um
Pêra Manca!”. Sacaninha, eu! Foi o suficiente para toda a claque
pensar “é Golo! Vai, mulher, avança!”</p>



<p>E o senhor
António diz “assim seja! Vamos os dois disfrutar de um Pêra
Manca!”</p>



<p>Foi como se o
ajuntamento tivesse ganho o campeonato da liga do Carnaval! Vêm uns,
sentam-se outros, parecem um bando de miúdos fascinados com um
brinquedo novo. Diante dos meus olhos incrédulos o senhor António
abre uma garrafa de Pêra Manca e diz para os dois grupos já
imiscuídos, “este, vou eu beber mais a senhora, vocês não bebem
nada! Bola!”. Ninguém leva a mal, já percebi que são <em>habitués</em>
a horas tardias. Um pede o livro de reclamações, outro já está a
centímetros do Tony à espera de uma gotinha, e eu digo alto e a bom
som “faço questão que a Tatiana beba um copo!”. A Tatiana é a
empregada de mesa de uma simpatia à prova de chatos e clientes de
lista negra. Mais piadas e mais tentativas de provar o Pêra Manca.
“A Tatiana bebe muito, temos de ajudar!”. Já estão duas
garrafas abertas na mesa onde tudo aconteceu, já me levantei para
levar um copo ao cozinheiro e à ajudante. A rapariga gira do casal
até então calado diz também “Eu nunca provei Pêra Manca!”. O
Tony não deixa uma senhora em apuros. Mais um copo para ela. Já há
dois afoitos a incitar para que ele a peça em casamento. Ele pede e
ela aceita. Claramente já vivem juntos e não fazem tenções de
casar, mas isso já não interessa. Ninguém ali quer saber das notas
florais e balsâmicas, dos taninos muito finos e firmes. Ninguém
perguntou o ano. Era de 2014. 
</p>



<p>Estamos todos
endiabrados e inebriados pelo júbilo contagiante de provar algo que
endeusamos. Porra, e é isso que faz um bom vinho! Baco estava
seguramente entre nós.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/opiniao/ana-paz-segredos-e-bastidores-o-dia-em-que-provei-pera-manca/">Ana Paz: Segredos e Bastidores. O dia em que provei Pêra Manca</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">22945</post-id>	</item>
	</channel>
</rss>
