Esta crónica começa por se repetir: isto é uma crónica. Não é um artigo científico, não é feito sob as suas regras, não cita fontes, e no cômputo geral levanta mais perguntas do que exibe respostas, como a minha curiosidade meio desapegada ante a inundação de informação inicialmente a ferver sobre coronavírus, reboliço sem pausa, bolhas e bolhas sobrepostas, ruído sem ritmo que impedia a organização de pensamentos e provocava aversão; agora águas paradas, mais calmas e em banho-Maria, com a mesma ausência de respostas, arrastando-se sem que ninguém saiba muito sobre para onde irá ser servido o cozinhado.

Animista, no início de abril, o Papa esclarece-nos em forma de pergunta por que razão alguém pegou nos ingredientes e os resolveu confecionar de forma errada, lançando-nos “e se a atual pandemia fosse uma vingança da natureza?”, para dar em seguida a eventual resposta, “seria com certeza uma resposta da natureza à humanidade”, como no dito espanhol “a natureza é cega e nunca perdoa”. Considero muito encantadora esta visão não instrumental da natureza, nem tão pouco contemplativa ou romântica, mas completamente naturalista. Não é a vingança de Aristóteles, é a da Natureza. Poder-se-ia dizer em relação à Natureza, de modo semelhante ao que Epicuro disse relativamente a nós, Humanos, “A coexistência com alguns sobressaltos é a vingança da Natureza perante o Homem que dela abusa, tal como a vingança da Natureza é um presente de terror perante o Homem que a humilha e esfola”.

Será? Será que estorricámos o cozinhado outra vez? A última que a minha memória alcança, certamente já com muitas imprecisões, foi a crise das vacas loucas nos anos 90. Será que ultrapassámos o limite do razoável de novo, depois do Reino Unido aproveitar o vazio legal para fazer crescer bifes mais depressa com menos custo e pôr as vacas a dar mais leite, usando processamento de sobras e restos inutilizáveis de matéria animal para alimentar vacas? Lá no meio vieram fatalmente sobras contaminadas de ovelhas com “scrapie” (“a BSE dos ovinos”) e restos de bovinos (algo denominado canibalismo…) contaminados com BSE. A tão badalada e já meio esquecida doença das vacas loucas, ou encefalopatia espongiforme bovina, fez na altura os seus estragos biológicos e económicos. A mesma doença nos nossos pratos que a ciência e a epidemiologia demonstraram (mas não provaram com 100% de certeza) ter alta probabilidade de ultrapassar a barreira inter-espécie e contagiar o Homem, sendo com muita probabilidade (mas não irrefutável) a única causa da pavorosa nova variante da Creutzfeldt-Jakob, doença degenerativa humana que afeta pessoas jovens (média 28 anos de idade) e que se inicia com sintomas psiquiátricos inespecíficos que vão piorando progressivamente até à demência e inevitável morte em pouco mais de 1 ano.

Em 1996, com o Plano Nacional de erradicação da BSE e com a recolha e destruição dos materiais de risco especificado dos ruminantes saudáveis (Amígdalas, Olhos, Cérebro, Baço, Timo, Intestinos, Espinal-medula, Coluna vertebral) acabou-se com esse pitéu chamado mioleira e muitas pessoas entraram em puro pânico e deixaram de comer carne de vaca. Em meados de Abril desse ano, estima-se que 1/3 dos portugueses a tenham eliminado por completo do seu reportório gastronómico.

Entretanto o cientista que identificou o prião, uma simples molécula, uma proteína “enrolada” de modo deficiente, como agente causador das encefalopatias espongiformes, descreve-o em detalhe, sugere que pode ser a causa da nova variante da Creutzfeldt-Jakob e ganha o prémio Nobel da Medicina em 1997.

Foram tempos em que a televisão pegou no temor e nos anseios dos comensais e fez o seu próprio festim com informação correta e informação errada. Quando já não havia mais matéria exuberante o assunto morreu por esquecimento. Voltámos a ir ao restaurante, voltámos a apreciar hambúrgueres, bifões e cortes de talho, vísceras e mioleiras, sem medos nem pudores.

Na minha memória foi-se tão rápido como o frenesim que causou, mas já se passaram praticamente 30 anos e os anos vão-se colando implacavelmente e sendo prensados na linha do tempo em que organizamos as nossas recordações para lá caber tudo.

Por oposição, estamos a viver outra crise que afeta o modo como nos relacionamos com a comida, e passados tão poucos meses parece que andamos imersos nela há uma eternidade. Na crise e na comida, que as balanças não enganam.

Um vírus 100 vezes maior que o prião, mas que ainda assim não é considerado coisa viva e é coisa minúscula, nem digna de ser vislumbrada por um mero microscópio, penetrou nas nossas vidas, supostamente vindo de um salto inter-espécie, para alguns, ou da fuga de um laboratório de pesquisa e desenvolvimento de armas biológicas, para outros.

Dizem que já tinha sido identificado em morcegos monitorizados em grutas chinesas pelo grupo Ecohealth Alliance e que consideraram que não constituía ameaça. Era o coronavírus RaTG13, cujo genoma possui 96% de similaridade com o SARS-CoV-2, o atual monstro com que nos deparamos.

Pode significar que vejo documentários e filmes do Netflix enquanto estou aqui por casa a comer em excesso, a desenhar e a escrever. Pode significar que os documentários Netflix não têm credibilidade científica. Ou também pode significar que andamos todos sem saber nada sobre nada, apenas sabendo que nada sabemos, alguns a fingir que sabem o que se passa e se vai passar, outros a trabalhar para manter isto a andar, e que, definitivamente, alguém vai ganhar um prémio Nobel.

A montanha pariu um morcego.