“Trabalho numa empresa que paga bem, o que me dá a felicidade de percorrer os locais mais longínquos de todo o território nacional, e conhecer humildes, belos e perdidos tesouros da restauração nacional. Adoro este beco profissional no qual caí, única e exclusivamente por ter acesso a uma boa 1/2 diária, que me permite enfiar-me em restaurantes giros e bebericar bons vinhos.

Ana Paz

Esta crónica poderia ser sobre um pequeno restaurante nos arredores de Lisboa, onde costumo comer soberbamente, rápida ou lentamente, bem e barato, quando há reuniões para os lados de Alfragide. Muito haveria a dizer e muito será dito, mas de outra forma. Na forma de relato de uma das noites mais loucas e inusitadas que nunca imaginei passar nesta casa que sempre conheci como pacata – quanto muito ligeiramente ruidosa pelo espaço exíguo –, desde que a frequento amiúde há uns quatro anos e nas mais diversas situações. Almoço, jantar, sozinha, em modo date, família, amigos, colegas, em modo laboral ou pessoal.

Na sexta-feira véspera de fim-de-semana gordo de Carnaval, nada faria prever o que aí vinha. Sem folia marcada, decido ir bebericar um vinho e jantar algo no Segredos e Bastidores, um pequeno e agradável restaurante em Alfragide, com paredes forradas a garrafas de vinho e um bar balcão onde se expõem peixes e carnes frescos de cores vivas. Apontam-me a mesa junto à cozinha, de onde tenho vista para todo o restaurante. Refastelo-me com um arroz de lingueirão soberbamente confecionado ao jeito algarvio, com um caldo estival que se apodera da minha boca e me faz fechar os olhos para me concentrar no prazer do paladar e olfato, enquanto os ouvidos são bombardeados com pedaços de frases de conversas paralelas, ligeiramente ébrias, emitidas por dois alvoroçados grupos de homens de negócios. Vendedores e chefes de vendas da indústria automóvel, venho mais tarde a saber quando chegarmos à parte em que já todos somos um único grupo de convivas. Já lá iremos.

A páginas tantas, já bem adiantada no arroz de lingueirão e na meia garrafa do vinho branco que me propuseram (salvo erro, 1808 Douro DOC branco bem fresquinho), o proprietário, sósia do Jorge Jesus, vem a caminhar na minha direção e deixa inadvertidamente cair um copo. Os estilhaços voam na minha trajetória. Eu vejo literalmente o tempo a parar e um monte de pedaços de vidro a voar diretamente para os meus olhos incrédulos. Isto pareceu uma eternidade, como se todos estivessem congelados, os projéteis parados no ar e eu tivesse um espaço no tempo para os ir buscar um a um, como o Neo no Matrix. Quando finalmente processei esta fotografia no meu cérebro, o tempo voltou ao normal, e como reflexo agacho-me de lado e coloco a cabeça entre os cotovelos, para proteger a minha pele cuidada e os meus grandes olhos castanhos, que fecho com força não vá ocorrer um ricochete tipo bala mágica de Dallas.

As conversas em fundo cessam, fica o silêncio geral. Sinto que já caiu tudo, os vidros que me iriam desfigurar caíram e eu não senti nada. Volto muito lentamente à minha posição original enquanto olho para um cenário digno de um quadro da última ceia. Tento interpretar o que vejo, mas não há um pingo de ação – as pessoas estão nos seus lugares, com os seus talheres nas mãos, bem sentadas, em silêncio, a olhar para mim. E eu a olhar para elas.

Depois olho para o dono do restaurante. E há finalmente ação! Prontamente agarra no copo, no prato, na garrafa, nos talheres e no que mais havia na mesa e grita para a cozinha “sai outro arroz de lingueirão!”. Depois vira-se para mim e pede-me imensa desculpa, pergunta se estou bem, lava-se em desculpas segunda vez, e parece que segue o “guião dos acidentes”. Muito profissional, no mínimo. Nunca na minha vida profissional tinha visto uma gestão de dano tão rápida e eficaz.

Confesso que fiquei impressionada positivamente. Ele não teve culpa alguma. Acidentes acontecem. E ali estava ele a perguntar-me de que modo me podia compensar. E a pedir desculpa incessantemente. Eu já tinha comido praticamente todo o arroz de lingueirão e só me saiu da boca “sente-se aqui comigo, não quero mais comida, quero que beba um copo de vinho comigo para nos acalmarmos, ninguém se aleijou”.

Pronto! Foi como um árbitro que apita para começar o jogo! Começa toda a gente a falar comigo ao mesmo tempo, um grita de uma mesa “Eu também quero vinho, que eu também estive em perigo!”, imediatamente outro incentiva do outro lado da sala com um “Pede um vinho com jeito. Ele tem para aí umas garrafas boas!”. O burburinho aumenta e a minha já é a mesa mais concorrida. A minha e a do senhor António, ou melhor, Tony, que entretanto se apresentou e sentou do outro lado, junto à cozinha. Uns e outros a pedirem vinho e a falar com o António, que começa agora a descomprimir. No meio da algazarra gerada, da insistência compassiva do Tony, e da minha calma pós descarga de adrenalina, saio-me com um tímido “Eu nunca provei um Pêra Manca!”. Sacaninha, eu! Foi o suficiente para toda a claque pensar “é Golo! Vai, mulher, avança!”

E o senhor António diz “assim seja! Vamos os dois disfrutar de um Pêra Manca!”

Foi como se o ajuntamento tivesse ganho o campeonato da liga do Carnaval! Vêm uns, sentam-se outros, parecem um bando de miúdos fascinados com um brinquedo novo. Diante dos meus olhos incrédulos o senhor António abre uma garrafa de Pêra Manca e diz para os dois grupos já imiscuídos, “este, vou eu beber mais a senhora, vocês não bebem nada! Bola!”. Ninguém leva a mal, já percebi que são habitués a horas tardias. Um pede o livro de reclamações, outro já está a centímetros do Tony à espera de uma gotinha, e eu digo alto e a bom som “faço questão que a Tatiana beba um copo!”. A Tatiana é a empregada de mesa de uma simpatia à prova de chatos e clientes de lista negra. Mais piadas e mais tentativas de provar o Pêra Manca. “A Tatiana bebe muito, temos de ajudar!”. Já estão duas garrafas abertas na mesa onde tudo aconteceu, já me levantei para levar um copo ao cozinheiro e à ajudante. A rapariga gira do casal até então calado diz também “Eu nunca provei Pêra Manca!”. O Tony não deixa uma senhora em apuros. Mais um copo para ela. Já há dois afoitos a incitar para que ele a peça em casamento. Ele pede e ela aceita. Claramente já vivem juntos e não fazem tenções de casar, mas isso já não interessa. Ninguém ali quer saber das notas florais e balsâmicas, dos taninos muito finos e firmes. Ninguém perguntou o ano. Era de 2014.

Estamos todos endiabrados e inebriados pelo júbilo contagiante de provar algo que endeusamos. Porra, e é isso que faz um bom vinho! Baco estava seguramente entre nós.