Já há alguns dias que o sentia, como um epilético sente a aura e um ansioso sente o medo do ataque de pânico. Senti muitas vezes o meu colapso mental a chegar, mas sob controlo, caminhando pé ante pé no silêncio íncubo como um corcunda de articulações vincadas e corpo seco, de sorriso maléfico, a esticar-se na minha direção num regozijo manhoso de quem crê que me pode tocar de surpresa por trás. Fingi que não o sentia, fiquei estática a sentir os seus passos inaudíveis, mas virei sempre a cabeça a tempo. O monstro estava a querer tocar-me com a sua garra detonadora e eu dei-me conta dele, toda a vez que ele me quis tocar. Ele não vem quando estou a dormir. Ele vem quando estou acordada. Daí o medo do dia e a segurança
da noite.
Hoje, o sacana apanhou-me desprevenida.
Posso colocar-me no papel de vítima e dizer que estava a ressacar dos medicamentos que me mantêm vigilante porque não me dá jeito ir comprá-los nesta altura de reclusão e medidas de atendimento nas farmácias semelhantes às da quarentena dos miúdos no ET. O monstro azul escanzelado vai-se embora quando o olho nos olhos, e para mim é muito óbvio que a medicação me coloca mais atenta e sem medo de o encarar. Ele foge da coragem de não desviar o olhar. É como um cão. Conhece bem a hierarquia dos fortes.
Hoje opto com orgulho por me colocar no papel de vítima. Tinha tudo e todos a chamar a minha atenção. Não tinha tempo nem olhos para estar atenta ao monstro do descontrolo mental. Ele sabe quando baixo a guarda, e é nesse momento que ele ataca sem piedade.
Primeiro toca-me ao de leve nas costas, para avaliar a presa, eu, depois salta-me para as costas e crava-me as garras de modo a que já nem o consigo olhar nos olhos. Aí perco o controlo dos meus sentimentos e ações e já não consigo aceder ao meu lobo frontal. Eu sei que é o monstro, mas também sei que depois de ele se acercar tanto, ao ponto de me apertar o pescoço e os pulsos, estou fodida.
COVID-19 não me apanhas, mas deixaste o monstro que eu mais temo aproximar-se e agarrar-me com força. Tivesse eu comprado a minha medicação a tempo e ter-te-ia visto e mirado sobranceiramente, mas estive a alimentar os meus adolescentes, a cozinhar para nós, a trabalhar, a limpar, a escrever, a pagar o meu empréstimo. Saí a correr para levantar dinheiro num banco e depositar noutro, voltei a ofegar, sentei-me frente ao computador da empresa, e atacaste-me de modo implacável, não para matar, não é isso que queres, mas para fazer os teus estragos, que os tinhas em memória e deles ressacavas também.
Fechei-me na cozinha para lutar contigo, mas contigo não há luta possível porque atacas pelas costas. Contigo só consigo lutar se beber um copo de vinho ou tomar aquilo que tu já conheces. Não há aquilo que bem conheces, resta-me o copo de vinho antes que saia tresloucada da cozinha a berrar e a espumar perante os que mais amo. Bebo rápido, é o que me vale. Sinto-te esmorecer e aliviar o aperto.
Sento-me aliviada por ninguém ter presenciado a nossa luta completamente desnecessária.
Bebo outro copo de vinho, e sinto-te a recolher como os caranguejos para os confins do mundo onde te albergas. Algures na minha cabeça. Volta e não saias tão cedo, monstro articulado e parasita, que tive de beber dois copos de vinho tinto para te fechar de novo nos confins da minha consciência. Carraça! Não voltes tão cedo!

Nota: Esta crónica é dedicada a todas as pessoas que sofrem com a sua mente, com as suas doenças mentais, os seus medos e/ou que são obrigadas a passar este tempo de reclusão com pessoas tóxicas, muitas vezes membros da sua família. Eu pertenço a um destes grupos.