Nestes tempos de insanidade vamos rompendo as cordas que nos amarram às coisas seguras e emocionalmente asséticas. Uns em casa a ensandecer enquanto julgam ter ainda o discernimento e subordinação de obedecer ao que lhes é pedido, por outrem ou por autodisciplina, outros a observar de mãos atadas a ruína que se adivinha, outros a meter as mãos nas massas porque por obrigação ou paixão juraram a Hipócrates. Neste grupo não há trocadilho de mau gosto capaz de apimentar o texto. Serviria apenas para minha sobranceria e presunçoso desdém por, na realidade, não ter sido capaz de ingressar no Santo Graal dos anos 90. 

Estes são tempos de desvario e de pureza simultânea. Opto por mostrar as minhas cicatrizes e encantar-me a sentir a humanidade nas pessoas com quem normalmente tenho uma relação recheada de teatralidade e competição pelas fanfarronices, sucesso e ausência de feridas. Porque feridas, chagas, peles conspurcadas ou já lambidas, mesmo se curadas e com tecido cicatricial, são sítios vulneráveis, onde, fragilizada, a pele permite dar entrada ao outro e acesso nos nossos medos e àquilo que queremos encobrir a todo o custo.

Um sorriso seguro, um diálogo fascinante, uma atitude entusiasmante, os tempos corretos para entrar nas conversas, com a tirada exata no momento certo? Algo que sempre invejei, invejo e vou invejar. Nos dias de reclusão que vivemos, continuo a corroer-me por dentro por me faltar algo, rapidez de raciocínio ou simplesmente acalmar a mente e entregar-me aos outros. Mas encontrei a escrita, que não exige a minha ousadia perante olhares alheios e julgamentos públicos sobre as minhas expressões faciais, risos atempados e vivacidade presencial, que não possuo e da qual no fundo não quero desistir. Valha-me agora escrita.

O que aprendi por ora com o COVID-19 fazendo parte do grupo que está em casa? A esconder-me fisicamente e a expor-me sob o subterfúgio das palavras de um pseudónimo. Chega (por ora) de tentativas frustradas de fazer boa figura perante quem pouco conheço ou perante grandes grupos de pessoas. Assumo-me como introvertida, com aspirações a extrovertida. Assumo-me como inadaptada. Estou cá em baixo. Assim seja.

Serve esta crónica para fazer as pazes com os meus esforços (e o de tantos outros tímidos) por ter tentado agarrar-me ao prazer de poder ser bem-vinda, de arranjar por meios químicos a energia que anima um grupo de pessoas, e por isso ter vivido muitos anos em entrega inocente. Partilho esta crónica com o Miguel, meu amigo e colega há seis anos, amigo que desconfio ser um introvertido mascarado, como eu. 

Trabalhámos juntos e conhecemo-nos quando ele voltou de baixa após um acidente de mota. Fomo-nos conhecendo muito rapidamente, no lodo reconhecido entre os tímidos, como irmãos que compartilhavam banalidades que não saíam da nossa união fraterna. O Miguel ansiava diariamente pela entrada às 9h em ponto da nossa nova colega, de uma beleza, humor e intelecto celestial, tudo platónico para ele, mas que o fazia levantar da cama pela manhã sem dores no ombro estilhaçado pelo peso da mota, a cicatrizar lentamente, e com a energia de quem ia fazer uma conferência de imprensa sobre a pandemia que ele não sabia que iria chegar seis anos depois. Revi-me nesta atitude todos os dias em que brincávamos com o asunto.  

Vim mais tarde a conhecer melhor a vida do Miguel, porque ele vai revelando as coisas pouco a pouco, como pingas que solta com muita dor e esforço, a quem as merece por semelhança de temperamento. Hoje conheci um pouco mais. O nome dele não é Miguel, está resguardado, mas permitiu-me partilhar vivências que fazem dele quem hoje ele é. 

Perguntámo-nos mutuamente, sem ser nossa intenção fazer a apologia desta pandemia – “Quem nunca bateu no fundo será feliz? Quem nunca viu um negócio próprio vir por água abaixo, quem nunca viveu um devastador desgosto de amor, quem nunca passou fome ou não pode prover aos seus, quem nunca deu cabo da vida… pode ser feliz?” Chegámos à conclusão que não, não pode ser feliz. As adversidades, estragar por completo a vida pessoal, ceder aos sonhos, viver um grande amor e vê-lo esmorecer e entrar em pânico, faz-nos humanos. E só seremos felizes se formos humanos. Senão seremos reféns daquilo que não vivemos. Seremos seres asséticos, bem esfregados a álcool gel, bem protegidos com máscaras e outros apetrechos.

Salvo prova em contrário estamos aqui nesta vida apenas uma vez.

A tónica encontra-se no facto do Miguel já ter sido proprietário e líder de um restaurante há muitos anos, num conhecido espaço comercial. O Miguel pinta quadros a óleo. É o que o faz fluir. Diz-me numa das mensagens que “um dos momentos que recordo como um dos mais felizes que tive, foi estar a pintar, e a minha filha ao meu lado começar a chorar, mas a chorar de felicidade. Agarrou-se-me aos beijos, as lágrimas gordas caíam-lhe do rosto. Tinha uns seis anos.”. Se a sua filha tinha 6 anos na altura, o Miguel estaria há 4 anos a gerir uma empresa com 25 empregados, a aprender a cozinhar de forma profissional, a despedir pessoas, a ver o melhor e pior que elas têm. A dedicar 14h por dia ao seu restaurante. A levantar-se às 6h da matina para fazer compras e a chegar a casa à 1h, para ver a mulher a tratar sozinha da filha recém-nascida, a sentir que o castelo começava a ruir.

E a #resistir. 

Segundo as suas palavras, “comecei com uma mão cheia de areia e a vi essa areia a escorrer muito lentamente por entre os dedos. Só no fim me apercebi que a areia que não conseguia manter com os meus dedos, a que deixava fugir, era a minha vida”. 

Quando insustentável, vendeu o restaurante, rumou com a mulher e filha para os Picos da Europa, numa tentativa desesperada de tentar salvar o que lhe tinha escorrido entre os dedos. “Abri um bar nas Astúrias, aprendi a falar espanhol, ia para o estabelecimento de cavalo, deixei crescer o cabelo até eu próprio ter um rabo-de-cavalo, tinha bâmbis a pastar no jardim da nossa casa às 6 da manhã. Parecia que tudo tinha voltado ao normal”. Diz-me depois “Esqueci-me, no entanto, que para onde quer que vás, os teus problemas vão contigo. As feridas eram demasiado grandes e nunca voltaram a sarar. Erros atrás de erros… Uma noite finalmente falámos o que andávamos a silenciar, ambos sentados no jardim com um copo de vinho branco na mão. Vimos que o caminho tinha terminado. Ambos quisemos deixar o melhor de nós nas nossas recordações, afinal conhecemo-nos desde os 17 anos. Às 5 da manhã daquela madrugada, a mais negra da minha vida, carreguei o meu carro com os meus pertences e deixei a minha vida para trás. Chorei durante toda a viagem até chegar a Lisboa. Tive de começar tudo de novo.”

Acrescenta num último WhatsApp – “Voltar a encontrar uma casa, um emprego, tentar recuperar os amigos…”, revivendo o que sentiu durante anos a fio depois da separação. 

E na despedida da nossa conversa fala-me da filha, agora maior de idade. “Estou a escrever-te e a recordar situações que já estavam armazenadas em caixas há muitos anos. Vou dar uma volta ao jardim, com a minha filha, e depois tenho de ir às compras”. 

Fico a pensar no desprendimento de uma ida ao supermercado com a sua criança que deixou para trás noutro país. Percebo finalmente que exulto por nunca ter evitado problemas e nunca ter perseguido a segurança a longo prazo como se ela me garantisse um futuro sem agruras, sem cicatrizes, sem ver o pior das pessoas e o pior de mim. Infelizes os que sempre tiveram a vida planeada, calculada e resoluta. Felizes os que vivem no meio do caos e do amor e do ódio em simultâneo, pois vivem.