Quero fazer uma crónica sobre o aniversário de uma pessoa muito especial, durante o estado de emergência, em especial no período de limitação à circulação no período da Páscoa, para os olhares daqueles que já vivenciaram ou vão passar por isso. Mas dos meus dedos não frui nenhuma crónica aprumadinha e grandiosa, exemplar digno de uma amálgama entre as memórias lapidadas da aniversariante, a sua apologia ficcionada e hipócrita, como nos obituários (em que os mortos são elevados ao seu esplendor mais puro e jocoso), e a infinita tristeza de não lhe poder dar um abraço forte e oferecer-lhe uma prenda e um beijinho. Faço pausas atrás de pausas, escrevo e reescrevo e ainda assim não sei ao certo o meu objetivo. Por isso vou deixar fluir o enlevo e esperar que alguém o leia. Ela, claro. A minha irmã.

Já falei e já a vi há pouco através de Facetime. Já lhe dei os parabéns, já nos rimos, já levei na cabeça, já trocamos ideias sobre os tempos do COVID19, já fizemos as nossas previsões, já cumpri o dever perante a aniversariante (com exceção da prenda). Agora posso divagar sobre ela e sobre mim e sobre a nossa relação. Sempre com muito cuidado, sem a magoar, que ela não sabe que estou a escrever sobre e para ela, e só por isso calculo que fique chateada. Não é o meu intuito, e embora tenha queda para fazer coisas que não devo, mesmo conscientemente, vou prosseguir por minha conta e risco.

Ana, conheço-te desde sempre. A minha vida não existe sem tu lá estares, presente ou não, e oxalá nunca viva sem que tu lá estejas. Sendo omnipresente, eu apenas me concebo contigo, mesmo que longe em distância e em opiniões. Considero-te uma figura maternal. Tens uma pele com um cheiro único e um toque tranquilizante. É no teu braço que encontro a segurança, e já nos rimos das evidências fotográficas que remontam a tempos longínquos. Foste tu que descobriste, o que para mim é ainda mais carinhoso. Acho que não sabes o quão maternal e meiga és. Sei que queres propositadamente desconhecer essa parte de ti e que isso te orgulha, mas enquanto me deixares, e quando isto passar, vou continuar a apertar o teu braço, mesmo que tenha de levar um calduço.

Depois há todas as outras coisas que nos afastam. Nenhuma é suficientemente forte para nos separar. Continuas sempre nos meus mecanismos de pensamento e raciocínio, mesmo naqueles que dizes que não compreendes, nos meus sonhos, nas minhas memórias e em partes de mim. Partilhamos alguns genes, por isso partilhamos carne e sangue. E partilhámos toda uma educação afetuosa mas bem estrita, contigo na dianteira a desbravar caminho e comigo a percorrer o mato já calcorreado por ti. Por isso te estou eternamente grata.

Invejo a tua força e a tua tenacidade. Invejo e admiro-a. Queria ser forte e disciplinada como tu, sempre a andar para a frente com foco e sem contemplações. Outras vezes não. Outras vezes admiro a nossa polaridade e pergunto-me se quem assume a dianteira é porque vê os outros sem preocupações em ficar onde estão. Em qualquer dos casos é com orgulho que penso que foste sozinha para o outro lado do mundo e que tiveste tomates para enfrentar aquilo que nos ensinaram que seria o caminho correto a percorrer.

Temos coisas só nossas. Coisas muito boas. O sentido de humor é uma delas. Sempre nos rimos das mesmas coisas, mais coisa menos coisa. Principalmente das coisas que os outros não entendem, ou melhor, que só nós entendemos. Mais hilariante ainda é quando outros não conseguem perceber qual a graça. E, aí, é tão divertido provocar-te o riso e observar a tua cara em guerra entre o rir e o respeitar! Lembrei-me agora mesmo das aulas do mestre, das da Marina, do professor chanfrado. Coisas só nossas em que nos comunicamos apenas com um olhar. E sinto saudades de fazer coisas contigo de novo. Muitas saudades.

Não quero saber como é viver sem estares presente. Isso angustia-me. Hoje é dia de festejar nascimentos, renovações, de festejar festejos. Quero que este bicho vá embora, falando de modo pueril, para sentir outra vez o júbilo de irmos fazer coisas juntas. E apertar o teu braço com força, para me gritares “deixa-me, ó!”.

Parabéns Ana!