Aqueles momentos de profunda tristeza e raiva que só a presença de uma amiga consegue reverter instantaneamente, em que ambas sentimos que dançamos em par apenas com os neurónios dos locais mais primitivos do cérebro, em que o problema de uma é sentido e aniquilado com um sorriso da outra, em que a outra nos conta a história certeira para nos nutrir com um aconchego maternal e a calma profunda de um colo e de um peito cheio de maná e hemostático, em que sentimos que tudo é seguro e belo, é um momento que se vive em poucos locais.

Uma mesa de um restaurante, ainda que entremos com máscaras, desinfetemos as mãos, é um desses locais. Duas amigas, frente a frente, em pura entrega uma para a outra, a comunicar com a perfeita perceção das mais subtis expressões faciais. Duas almas femininas e delicadas que se acalentam mutuamente e se energizam nessa dança. Enquanto nutrem o corpo e a alma. Enquanto se riem e gracejam e permutam todo o amor incomensurável que está contido numa amizade entre duas mulheres. Enquanto tentam conter o sangue uma da outra.

O meu escorre pelas narinas e é letal.

Nesta noite sinto uma vontade imensa de irromper pelo restaurante onde estive com uma das mulheres amigas que mais admiro pela sua força e alegria, ambas contagiantes, e dizer-lhe em poucas palavras, que laconicamente ela entende, que me sinto um pedaço de lixo sem valor, e que ele, com o seu desprezo, vai-me fazer sentir sangrar profusamente pelas narinas. Aguardando pelo medo do medo da morte durante esta noite em que durmo só. Sangrarei também pelo peito e pela pele do ventre que há dias ele observava com ar reprovador.

Estaria eu e ela, a minha amiga, sentadas frente a frente no banco de madeira de As Ladras Bistro, na Calçada dos Cesteiros. Duas amigas a serem apaparicadas com dois baos de pescada e um tártaro de salmão, carinhosamente cozinhados e servidos por outras duas mulheres. Teria ido a pé até ao restaurante, a prever, enfurecida, dizer com indignação à minha amiga, que tenho medo de morrer amanhã, que sinto sangue a gotejar pelo meu nariz e que estou danada porque ele combinou e não cumpriu.

Mas tenho a certeza que responderia ao sorriso dela com outro, e que pouco lhe diria sobre o rancor que sinto. De seguida que ela me contaria, do outro lado da mesa, uma história cheia de pormenores rebuscados e tão bem encadeada que me esqueceria num instante que quem me desrespeitou também às vezes me faz sentir bem. Às vezes.

Comeria com languidez a textura fofa do bao barrado com ovo, a contrastar com o exterior crocante da pescada frita. Ela deixar-me-ia provar o tártaro de salmão e o bolo de mousse de chocolate. Pouco, para não engordar na barriga que ele desaprovou. No final pagaríamos 10 euros cada, ainda trocaríamos muitos dedos de conversa, e eu sairia aliviada, calma e com um pedaço mais de amor para dar.