Hoje às 18h19 debrucei-me no umbral da minha varanda, para expor a cara de semblante conformado aos últimos raios de sol. Raios frios e desenxabidos, mas razoáveis quando me aninhei naquele triângulo junto à parede, que se desvaneceu em menos de 19 minutos.

Houve toda a nossa vida para trás desta era que vivemos atualmente. Diz-se que a história se repete a si mesma. Em pleno ano 1 do anno Covid19 (a.c.), temos consciência da nova linha temporal – a era a.c.; o ano zero iniciado em Dezembro de 2019, e o presente e futuro. Não estamos nos tempos bíblicos, quem viveu em a.C e d.C, não sabia que haveria uma designação para o antes e para o depois. Este a.c. teremos como fonte de boas e más lembranças e de aprendizagens e avisos do que devemos ou não repetir. O a.c. futuro construi-lo-emos nós.

Quebrou-se o tempo mas podemos voltar atrás nas nossas memórias e isso é sempre bom.

Depois existe um período em que não tínhamos consciência dessa quebra no tempo e vivíamos felizes na ignorância de quem achava que a história se repetiria com uns novos loucos anos 20. Período para ir buscar pedaços e cozinhar lembranças para evocar prazeres vividos.

Hoje enfeiticei-me com um desses cozinhados confecionados com pedaços de memória. Precisamente desses tempos de inocência vividos há tão poucos dias. Os raios de sol na minha pele podiam estar entorpecidos, e no entanto veio-me à mente um dos últimos festins. 

Mesmo no início de Março, juntei-me com duas amigas para uma pequena viagem de surf e jantaradas na zona de Vila do Bispo. Para as iguarias pedimos dicas ao nosso professor de surf, o Gonçalo, nascido em Lisboa mas criado nesta terra mágica, onde a terra termina abruptamente e começa o mar, para juntarmos quatro dias de desporto intenso com três dias de pura euforia gastronómica.

Quatro dias de boas ondas e nenhum português à vista, apenas multidões de estrangeiros e escolas de surf a atacarem as praias da Ingrina e Zavial como tubarões. Todos numa completa ingenuidade de quem ouve algumas notícias ocasionais sobre um surto de gripe.

O Gonçalo fez-nos uma lista exaustiva da etiqueta alfacinha na restauração algarvia do Barlavento em época baixa. “Cozinharem e servirem, ali, é interpretado como um grande favor que vos fazem. Peçam tudo de uma só vez, restrinjam-se ao que está no menu e não façam perguntas parvas. Deixem o banho para depois. Em terra de praia e pescadores, ninguém quer saber. Se o restaurante fecha às 22h, chegar às 21h é pisar um grande risco”. 

Primeiro dia, viagem longa, um pouco de surf, nada fechado. Como poderíamos nós e eles saber? Vamos diretas à Tasca do Careca, já a roçar as 21h, com um sorriso amarelado, e perguntamos se podemos jantar. Na verdade, sem grandes sorrisos e cerimónias, decididas e despachadas, as mulheres na liderança desta casa ordenam-nos que nos sentemos onde quisermos e sugerem a especialidade da casa – lulas recheadas. Estamos roxas de frio, reunimos o pedido todo num só e sai de rajada “lulas recheadas para todas, uma dose de camarão grelhado 20/30, uma salada, um jarro de vinho branco da casa, uma Sagres sem álcool e uma garrafa de água”. Dever cumprido, conselho seguido. Chegam as lulas recheadas e os camarões, e os nossos queixos caem literalmente em cima da mesa! Uma travessa opulenta de lulas recheadas, com um molho com cebola e pimento abundantemente atomatado e com o que mais escorre de sucos do recheio, que, provado com o pão, parece néctar do Oceano, a cair em onda sobre um monte de batatas fritas que se estende pelo horizonte. Lá ao fundo uns camarões gigantes bem grelhadinhos e um limão, como um sol a brilhar. Que é isto? Um deleite! As lulas, de textura firme irrepreensível e conteúdo suculento, foram o maior dos mimos para o nosso final de dia. Fenomenais! Imperdíveis! 

Hoje em dia ninguém atende o telefone. Calculo que esteja encerrado.

Segundo dia, skate e Zavial. Três apetites vorazes, já a noite caía sobre Vila do Bispo. Exauridas e enregeladas, fomos diretas ao Marigil, fachada e decoração externa meio disparatada, tipo Twin Peaks, mas muito aconchegante e aprumado lá dentro. Uma salamandra aquece a sala. Nós, munidas de gorros, casacos e botas, de cabelo revolto e sal na cara, com uma fome gigante, pedimos umas ameijoas à Bulhão Pato. Para começar. Nós não sabemos, mas vem aí um gigante abater-se sobre nós. Tempos agigantados, como as ameijoas, grandes e robustas, suculentas e deliciosas, bem frescas, molho dourado de azeite bem quente, três dentes de alho, sorvido por estas três famintas equipadas com fatias de pão de cabeça. Neste restaurante algarvio, todo o ambiente é encantador e simpático. Maria dá a cara, a simpatia e um dedos de conversa, e marido Gil ocupa-se na cozinha dos pratos de confeção mais prolongada, que por norma só saem com reserva. Tivemos sorte. Ninguém sabia que este restaurante fechará daí por uns dias, e nesta noite havia perna de borrego assada no forno. A carne, tenra, desfaz-se milagrosamente com leves toques do talher. Parece estar noutro estado físico, algo completamente alucinante. Arrebatador. 

Atualmente o Marigil está encerrado, sem serviço de take away ou entregas, mas ainda atende o telefone a voz triste da proprietária. 

Terceiro dia de surf, praia da Ingrina, derradeira ceia. Decidimos apostar na Ribeira do Poço. Estava cheio e não tínhamos reserva, mas ficámos numa mesa bem central. Restaurante rústico inaugurado em 2002, erguido das ruínas de um palheiro (bela metáfora), onde o exigente senhor Álvaro só deixa entrar peixe e mariscos frescos. A abarrotar durante o Verão. Hoje ninguém atende o telefone… Uma ardósia mesmo junto à nossa mesa com as especialidades da casa – perceves, longueirão, mexilhões e ameijoas, lapas e moreia. Na mesa, entretemo-nos com anchovas, pão e maionese com alho, hoje vamos provar um vinho do Algarve, e comer um clássico algarvio – massada de peixe. Diz que é para dois, mas dá para três e nós já transportamos nas nossas entranhas muita riqueza gastronómica destes últimos dois dias. Pedimos ao simpático empregado para escolher o vinho. Escolhe o mais caro, mas queremos crer que o fez por ser o melhor. Vem um vinho tinto chamado João Clara de 2016, com a casta algarvia Negra Mole, única no mundo, e que já esteve quase extinta. O vinho é muito bom, suave e leve. Não sentimos as notas típicas de couro e frutas frescas. Saímos da praia há 1h e ainda temos o nariz tapado para estes aromas subtis e homeopáticos na opinião da minha rinite perene que nada tem de infeção mas sim de alergia. Já o mesmo não se passa em relação à massada. Trazem-nos uma farta e aromática massada de peixe, tão perfumada como o mar, um mar agora bem quente, com camarão, pata-roxa, tremelga, raia e tamboril e o seu fígado. Que delícia! Magnífico! 

Pelas inúmeras tentativas infrutíferas de contacto é mais que provável que a Ribeira do Poço esteja fechada.

Gonçalo Cintra, sem o saberes levaste-nos à nossa última ceia. Obrigada pelas lições de surf. E por nos apontares às nossas últimas refeições sem clausura, sem saber o que nos esperava. A nós e a eles.