Trabalho numa nas empresas que mais precocemente decretou o teletrabalho nesta crise. Paga bem as minhas refeições quando estou fora, mas não agora, que trabalho a partir de casa. Nada mal. Mantenho a boa mesa a expensas próprias e a noção de saúde física e mental.

Esta crónica é uma autêntica bizarrice. É tão insólita e inaudita para mim como os momentos que se vivem em crescendo há pelo menos duas semanas e seguramente desde a última quinta-feira, 19 de março de 2020, quando o nosso excelentíssimo presidente da república veio dizer ao país que havia convocado o conselho de estado, ouvido o governo e solicitado autorização à assembleia da república para decretar o estado de emergência, evocando a nossa experiência como nação, “de quem já viveu tudo, numa história de quase nove séculos, se disciplinou, entendeu que o combate era muito duro e muito longo, e foram e têm sido, exemplares.” 

Para não lesar ninguém, e como muitos na minha profissão e similares, comecei por trabalhar voluntariamente a partir em casa. Dois dias depois, por resolução da minha entidade patronal, e, mais tarde, por decreto, mantive-me em casa. Veio o ilustríssimo Rodrigo Guedes de Carvalho, o da laranja em riste de outros tempos, agora ícone de respeito com postura de galã, pôr-nos no lugar numa sexta-feira 13 com um desconfortável “aos vossos avós foi-lhes pedido para irem à guerra, a vocês pedem-vos para ficar no sofá. Tenham noção!”, ficando imediatamente na história da televisão, por diferentes motivos, mas a par, com o histriónico José Rodrigues dos Santos em Janeiro de 1991 a anunciar o início da guerra do Golfo.

Como muitos profissionais que foram mandados para casa para trabalhar na reclusão dos seus lares, aproveitei para fazer outras coisas para além do trabalho especializado que não posso fazer aqui fechada, mas salto do sofá para a cama, e da cama para a mesa. Se chamasse tudo de “bom” seria plágio, contudo não vou ser hipócrita e confesso que mantenho o prazer da “boa mesa”. A minha necessidade de suprir necessidades básicas passa por comer bem, agora ainda mais, o que para mim significa ter prazer em ver, cheirar, tragar, mastigar e deglutir alimentos confecionados por especialistas no prazer do bem cozinhar. Com restaurantes fechados e isolamento social, resta-me pedir um bom jantar e partilhá-lo com a melhor das companhias. 

No primeiro dia em que tento pedir uma refeição bem fecunda para entrega ao domicílio dou-me logo mal. Estamos na segunda-feira, dia 16 de março. Primeira ideia, marisco do Ramiro, de imediato abandonada porque as entregas a casa não funcionam precisamente neste dia da semana. Segunda tentativa, Penha Longa – Spices, Arola e Penha Longa Mercatto. Ligo para receber a resposta de que apenas têm serviço de take-away, que não é de todo a informação que publicitam. Terceira tentativa, Tasca da Esquina de Vítor Sobral. Na net diz-se que entregam através do Glovo. Pesquiso na aplicação e recebo zero resultados. Entretanto tenho o Glovo aberto, a paciência a esgotar-se e a indicação de um Glovo recente de Frango da Guia. Vamos a isso, é um clássico do desenrascanço e já serve para acalmar a ânsia juntando-lhe um bom vinho. Quarenta e cinco minutos depois ligam-me do restaurante a dizer que cancelaram a entrega. Aparentemente este é o tempo que levam a descobrir que não entregam na minha zona de residência, quando já o tinham feito antes. Inaceitável! Estou a ficar cada vez mais irritada, não tenho noção do meu egoísmo nem estou sentada no sofá, por isso venha sushi, seja de onde for. Vem do Justsushi. Não sei quanto tempo demorou mas creio que foi rápido. A entrega foi muito simpática. A encomenda incluía uma garrafa de vinho branco Cabriz, que fez o brilharete diante de um sushi medíocre e duas sopas miso que sabiam a marisco e onde boiavam uns pedaços meio amorfos de caranguejo ou sucedâneo. 

Tiro a lição do primeiro dia: ligar para o restaurante a confirmar a receção e saída do pedido.

Dia seguinte, na esperança de ter marisco do Ramiro em casa, verifico que o telemóvel anunciado no website (969 839 472) está desligado. Deposito então toda a minha esperança na Uber Eats, dizem que há imensa escolha por lá. Em pouco tempo descubro que, como o Glovo, a Uber Eats é uma plataforma com serviço de entrega geográfica limitada. Na zona onde estou não há grande escolha. Nada de Boa Bao ou Ramen do Ajitama Ramen Bistro. É demasiado longe para eles, e no entanto estamos demasiado perto… Para quem leu extasiada um texto que garantia a experiência oriental dentro de portas nestes tempos em que as viagens estão interditas até aos países de origem destes “aromas exóticos e convidativos de cozinhas como a tailandesa, a chinesa, a japonesa ou a vietnamita”, é bastante frustrante perceber que estas experiências domiciliárias não estão, de todo, garantidas. E no entanto estou a 18 minutos de automóvel do primeiro e a 14 minutos do segundo… Opto por ter noção! Sento-me no sofá e engulo a repulsa por notícias precoces e disparatadas. Decido manter-me com o melhor que a Uber Eats ou um Glovo me pode oferecer. Nesta 3ªf, 17 de março, peço jantar da Maria Azeitona, na Amadora, a 5 minutos de distância, que se esticam por 45. Chega-me às mãos um saco de papel com uma mensagem de alento, escrita em menos de 1 minuto mas de um valor incalculável, e no interior um jantar que só poderia ser mil vezes melhor se apreciado no próprio restaurante. 

Muito se perde nestas comezainas pedidas por apps no telemóvel. Nem conto com toda a experiência de ir comer fora. Veja-se a comida apenas. Em pedidos grandes perde-se a noção do que é o quê. No restaurante Maria Azeitona pedimos chamuças e croquetes de vitela à antiga portuguesa, reconhecíveis, claro, e muito bons, exceto pela temperatura e textura da fritura que se perdeu pelo caminho. Ovos verdes, ovos rotos de linguiça de barrancos, moelas estufadas à portuguesa e tiras de porco preto de Aviz, que não sei com justiça dizer se estavam bons, apenas que estavam apetitosos e suculentos qb e que indiciavam ser bons se saíssem da cozinha no imediato. Mais um naco de vitela à Mirandela e caril de camarão com fruta fresca, e já estava instalada a confusão com os molhos e acompanhamentos – o que é que pertence ao quê? – num festim, sem noção!, de embalagens de plástico. 

Tiro a lição do segundo dia: experimentar o restaurante, a Maria Azeitona, quando tudo isto passar.

Depois, como em tudo na vida, descubro com a experiência quem nunca me falha em momentos de aperto. E os meus Glovos subsequentes foram todos para o Paraíso Tropical. Num primeiro momento, acarajé, tiras de picanha, picada mineira e moqueca baiana. Dou por mim a olhar com ar de tonta para as embalagens de plástico que sobravam… Tudo para o frigorífico, que muitos dias de sofreguidão virão e são molhos perfumados que se podem usar em várias situações. Maminha ao alho noutro dia, feijoada brasileira noutro ainda. Vinhos entregues em casa. Começo a ficar apegada a este restaurante. As entregas funcionam muito bem, só há que ter presente que se perde muito pelo caminho.

E começo a ganhar noção em cada etapa.

Noção de que tenho uma sorte dos diabos por não ter sido ainda chamada para ajudar num hospital, por poder ter comigo o melhor dos companheiros para partilhar uma refeição com sabor a chocalho de mota e a aroma de plástico, por poder ainda trabalhar a partir do sofá e saborear uma refeição que seria, certamente, divinal, no seu estado puro – saída da cozinha. 

Tenhamos noção e humildade.