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	<title>Nuno Diniz, Autor em Etaste</title>
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	<description>Um portal para todos os amantes e profissionais de gastronomia</description>
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	<title>Nuno Diniz, Autor em Etaste</title>
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		<title>#resistir Nuno Diniz: O chão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nuno Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2020 14:53:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[campo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar da vontade de poder estar com os meus cozinheiros no Revolução, e da recordação do prazer oferecido pelas guitarras e teclados que ficaram em Lisboa, tenho, aqui para estes lados onde a noite é apenas eventualmente iluminada pela lua e pelas estrelas e, de quando em vez, embalada por sons que raramente identifico, tenho aqui, dizia, momentos inesperados, excitação, novidade e cultura que chegam para me manter interessado, durante pelo menos mais sessenta anos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ainda e sempre extasiado com as novidades diárias, que afortunadamente estão alheias aos populismos, ao arrependimento dos liberais, à demagogia de quem já se esqueceu da sua própria história, às derivas totalitárias e ignorantes que se alimentam e medram graças à descarada mentira em conjunto com o medo e o preconceito, continuo higienicamente isolado, nadando sem receio de perder o pé, através de alterosos e encantados montes, onde as ondas são brancas, amarelas e roxas, orgulhosas exibições de matos ondulantes, sendo por demais evidente que aqui poderia permanecer para não sair, não sentindo nunca a falta do movimento, da excitação, das cacofonias do dia a dia, ou até dos reflexos nocturnos das ruas citadinas.</p>



<p>Apesar da vontade de poder estar com os meus cozinheiros no Revolução, e da recordação do prazer oferecido pelas guitarras e teclados que ficaram em Lisboa, tenho, aqui para estes lados onde a noite é apenas eventualmente iluminada pela lua e pelas estrelas e, de quando em vez, embalada por sons que raramente identifico, tenho aqui, dizia, momentos inesperados, excitação, novidade e cultura que chegam para me manter interessado, durante pelo menos mais sessenta anos.</p>



<p>Só para dar um exemplo, hoje, no meio de um denso e pegajoso nevoeiro que entre arrepios escondia (talvez imaginados) fantasmas, percebi que alguém, formando uma sombra indefinida e sem sexo, parecia estar a trabalhar no meio de um campo.</p>



<p>Num feriado!<br>À hora (urbana) de almoço&#8230;<br>Intrigado e arrancando do fundo do estômago, coragem para afrontar o frio quase tão rijo como a espessura da cerração, calcei mais uma vez as galochas (que, sabemos já, resistem aos inesperados percalços da natureza livre), enfiei mais um casaco, enrolei um cachecol e parti em direcção à sombra.<br>Era o B, a espalhar esterco na terra com uma retorcida forquilha, engenhosamente feita a partir de um ramo de amieiro.</p>



<p>“É para preparar a terra para a batata” (disse-me ele.)<br>“Este ano comprei da estrangeira&#8230;” (kennebec presumi eu),<br>“&#8230; e vem para aqui, pois a outra terra lá em baixo está com a infecção!”<br>(e eu, atendendo aos tempos que correm, decidi não perguntar, embora calcule que terá a ver com uma eventual falta de rotação dos plantios&#8230;)<br>Falámos mais uns minutos e, deixando-o trabalhar na mesma paz que eu interrompera, perdi-o no nevoeiro.<br></p>



<p>Antes, fiquei ainda a saber que o esterco (que não cheirava mal ou então sou eu que já deixei de notar), onde se percebiam alguns troncos de giesta, tinha já três anos(!) e por isso calculo que seja de esperar alguns poderes sobrenaturais que transformarão os já superlativos tubérculos em monumentos “<em>nunca antes vistos</em>” especialmente se ainda conseguirem injectar os torrões por desfazer, com uma <em>“dose maciça de Hydroxychloroquine”</em>&#8230; (só para confirmar que, embora bem exilado, não deixei de estar também atento ao dia a dia do resto do mundo, e assim citar esse oxigenado monumento ao bom senso, à cultura e à inteligência, chamado Trump&#8230;).</p>



<p>Ultrapassando de imediato a lembrança súbita deste tipo de idiotices, subi a rua e refugiei-me, seguro e ainda razoavelmente seco, em casa.</p>



<p>É então assim que por cá, os dias se vão sucedendo, sem percalços nem más novas. Passa-se, sem aviso prévio, da mais deslumbrante primavera, para um frio gelado que sabe e cheira a vida e que até, já por duas vezes trouxe neve, esse bruxedo sedutor que mantém uma inesgotável capacidade para aquecer velhos e empedernidos corações.</p>



<p>A busca da lenha é um desporto diário e quase pesado, que contribui, quero mesmo acreditar, para ajudar a desvanecer parte do que me vai trazer este longo período de magnífica indolência e certamente não piores banquetes, elaborados com tudo o que de tão bom existe aqui mesmo à mão e que torna escusadas, visitas a supermercados.<br></p>



<p>Senão vejamos: para lá das, já noutras crónicas referidas, ofertas da Rosa e da Maria, temos à Terça à tarde a carrinha da broa centeia de Pitões das Júnias, às Quintas às 8h a Ford Transit que traz o pão de mistura de Vilar de Perdizes, às Sextas uma outra que traz mercearias, lacticínios e frutas e aos Sábados mais um carro que traz o pão de Codeçoso. Claro que as chegadas são devidamente anunciadas com longas e sucessivas buzinadelas que assustam até o sino da igreja e emudecem momentaneamente o galo que mora e canta, na rua abaixo da minha casa!<br></p>



<p>Tudo é muito bom! Tudo é muito barato!<br>Temos ainda a insuperável carne do talho do Delfim, que vem até à aldeia se eu quiser, o conforto das visitas do David que continua a aparecer, trazendo queijo, presunto ou folar e ainda uma inesgotável e gratuita oferta de ervas e ervinhas, espalhada por quase todos os caminhos que vou deslaçando.<br>Junte-se os vinhos que tenho trazido e quase não consumido em animados Natais dos mais recentes anos e uma enorme colecção de equipamento de cozinha e pastelaria que também fui trazendo para cá e perceber-se-à, que para exílio repentino, não estamos nada mal&#8230;<br></p>



<p>Quanto ao resto do tempo, está sempre ocupado&#8230;<br></p>



<p>Nesta busca para imortalizar o momento mágico, insisto em explorar, acabando por encontrar juncos, que depois de secos, torcidos e entrançados, alguém (se tal ainda fosse possível), me faria uma extraordinária croça, que com o quase perdido conhecimento de antanho, me poderia proteger hoje, dos rigores deste tempo imprevisível.<br></p>



<p>Vejo por todo o lado verdes lameiros, com um verde que parece pintado pelos melhores de Hollywood, e que me impelem a sentir, descalço, a força e energia incomparáveis que se escondem nestas terras antigas, esperando então poder absorver algo, com o entusiasmo e até alguma inconsciência que caracterizam tantas vezes a juventude, embora saiba bem que as mesmas terras ignoram com descansada altivez, a minha presença.</p>



<p>Apesar disso, piso sofregamente o chão (terra, pedras, flores, espinhos, restolho), que como ontem e antes, se renova, exsudando uma vida poderosa e vibrante que bem sinto, e que (quero-me mesmo convencer), sussurra um hipnótico canto que me insta a não partir.</p>



<p>E no entanto sei que tenho que ir.<br>Relembrando outros bons tempos, alguns passados também aqui, que acredito, voltarão, e que me fazem tantas vezes regressar, para também eu poder voltar a abraçar (um dia) e gargalhar, sentindo como é redentor reencontrar um amigo, e depois conseguir ficar em silêncio, feliz e regenerado, plenamente confortado pelo imbatível prazer da companhia.</p>



<p>Ps: Tenho comigo uma paciente e sempre satisfeita, sénior, e portanto, para lá dos passeios, das escritas, das tarefas campesinas e dos sonhos, também preciso cozinhar (boa desculpa!)<br>Aqui ficam apontamentos de algumas coisas, que por cá têm acontecido:</p>



<p>Pudim Marfim, Folar de Fumeiro, Cabrito do Barroso assado com Arroz de miúdos (tudo em forno de lenha), Bacalhau à Zé do Pipo, Bolo de laranja, Vazia de Vitela Barrosã à Marrare, Açorda de Galinha com Grão, Regueifa, Polvo à maneira do Pico, Sopa de Feijões, Empadão de Batata e Vitela, Pudim de Ovos, Galo assado com Porto e Espigos, Alheiras (da Rosa e da Maria) na brasa, Feijoada Barrosã, Cabrito grelhado, Fogaças de Alcochete, Arroz de Bacalhau, Ovos (azuis, das galinhas do Delfim) mexidos com Chouriça e gordura de Presunto, Pudim de Mel de Urze, Costeleta Barrosã grelhada com Batata Kennebec no borralho&#8230;</p>



<p><br></p>



<p><br></p>
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		<title>#resistir Nuno Diniz: Andando</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nuno Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Apr 2020 15:22:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Diários Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[Gastronomia]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Diniz]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[resistência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Diariamente as tarefas são muitas: ler e pensar, reflectir e ver, mas também cozinhar, apanhar lenha caída (para a lareira), lavar roupa à mão, ajudar na limpeza da casa, ter a oportunidade única de fazer companhia à mãe, ir aprender a tratar da terra (agora a ser enriquecida com o estrume de um ano), contactar a família, manter interessados os cozinheiros que estão isolados e espalhados pelo país.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Andando. Sozinho. Quase sempre. </p>



<p>Só que insisto em relembrar. E isso devia acabar. Mas eu não quero. O que continuo a querer é mesmo lembrar. É nunca esquecer. </p>



<p>E assim vou andando, sozinho. </p>



<p>Subo montes que me desafiam, desço a leitos de ribeiros sem nome, passo por belíssimas ruínas que, sem estarem assombradas, me fazem perceber com assombro terem sido antes berço de farinhas que acabaram em pão.</p>



<p>Ando sozinho. </p>



<p>Com estranheza descubro-me atento a sons que nunca tinha ouvido (embora estivessem sempre cá). É como se, repentinamente, um novo mundo tivesse renascido das futuras cinzas. Mas não é novo. É muito antigo. Sempre aqui esteve. E nunca se escondeu. E eu, que apesar da aceleração o vislumbrava de vez em quando, nunca tinha mesmo tentado conhecê-lo. </p>



<p>Então vou andando. Sozinho. Monte acima. </p>



<p>Desejo um bom dia aos negrilhos, troco um olhar com os lameiros, procuro entender os nabais, oiço atentamente os carvalhos (que começam a ressumar orgulhosas flores). Fico envolto em repentinos nevoeiros onde me imagino parte de tudo. Perco-me em labiríntica floresta que quase esconde o dia, desdenhando o sol. Nos primeiros dias, saltitava cuidadosamente, evitando a bosta de vaca que existe com picaresca abundância, mas depois, lembrei-me que tinha guardado no último Natal umas belíssimas galochas e… arre mula que aqui vou eu. Que se lixe a bosta (que sempre se pode lavar, caso haja algum incidente maior). </p>



<p>E então vou andando. Sozinho. Monte abaixo. </p>



<p>E encontro a Rosa (do Porfírio), que ia até minha casa para oferecer umas chouriças, ou um salpicão, ou um galo, ou batatas, ou carqueja para quando chegar o frio nocturno. Noutros dias, batem cuidadosamente à minha porta e penduram de imediato um saco. Quando abro a porta vejo a Maria (do Quim), que me foi entregar umas alheiras e uns espigos apanhados uma hora antes. Tudo custa apenas um sorriso, envergonhado, mas exultante perante a minha reacção. </p>



<p>De dois em dois dias, também o David vai aparecendo, mantendo sempre a nova distância, mas preocupado com o bem-estar. Com o meu. E querendo sempre saber se falta algo. Que não falta. Falamos alguns minutos, satisfeitos com a companhia. </p>



<p>Diariamente as tarefas são muitas: ler e pensar, reflectir e ver, mas também cozinhar, apanhar lenha caída (para a lareira), lavar roupa à mão, ajudar na limpeza da casa, ter a oportunidade única de fazer companhia à mãe, ir aprender a tratar da terra (agora a ser enriquecida com o estrume de um ano), contactar a família, manter interessados os cozinheiros que estão isolados e espalhados pelo país. </p>



<p>Logo depois, vou andando. Sozinho. Para onde calha. </p>



<p>Raramente encontro alguém. Os cães afastam-se e as galinhas não me entendem. As casas, pedras assentes sobre pedras, estão vazias e frias, mas bichanam-me histórias. De vidas duras, de pobreza e trabalho como nem sequer suspeito. Onde houve morte, doença, choro. Mas também houve vida, energia, riso. Olho para o nome das ruas e começo a escrever mentalmente um novo livro. Que se terá passado e quem terá habitado na Rua do Poço, na Rua d&#8217;Água, na Rua da Fonte de Baixo, na Rua de Trás-do-Rego, ou na da Fonte de Deus? Todas têm a ver com água. Porquê? É certo que estamos no reino da água (e dos ventos e dos fumos)… </p>



<p>E continuo. Andando. Prazerosamente sem destino. </p>



<p>Reparo, atordoado em novos sons de novos seres. Vejo e oiço pela primeira vez, o cuco e a popa. Avisto rolas, águias, melros, picanços, rouxinóis e sou até visitado, numa das noites, por uma coruja das torres. </p>



<p>Por vezes fico desconfiado, perturbado, pensando que se existisse uma outra vida, não depois, mas antes, eu talvez estivesse estado por aqui, talvez fosse árvore. Mas logo depois acho que não; se tivesse sido árvore saberia muito mais sobre o que é realmente importante. </p>



<p>Num dos dias, vou olhando para o chão, admirando a imensa variedade de pedras e lembrando que talvez alguém tenha um dia apanhado as mesmas e com elas improvisado um prato. Embrenhado (mas não perdido) em memórias, reparo então num movimento dissimulado, através do canto do olho. Paro e recuo, adiando o respirar, no maior silêncio que consigo. Olho quase sem mexer, para uma destas singulares fragas de onde brotam urzes, giestas, estevas e silvas, à procura de algo que não sei, mas que está lá. E espero, como nunca teria sido capaz de esperar. Até que, repentina, saindo de uma fenda, aparece uma resplendente lagartixa verde, que apenas quer passar algum tempo no conforto da rocha, aquecida pelo sol. É a sua casa. Está a descansar e talvez a meditar. Retiro-me sem a incomodar, mas regresso nos dias seguintes, por volta das 4 da tarde, quando o ténue calor do sol do Barroso embate no exterior do seu refúgio e acabo por a conseguir filmar. Assim vou redesenhando os meus interesses. Não é um regresso a tempos passados. É mesmo uma chegada. Poderia explicá-la, mas terá que ficar para outra altura, pois por agora tenho que continuar a descobrir.</p>



<p>Andando. Sozinho. Mas também relembrando. </p>



<p>Relembro então um sorriso. Relembro a delicadeza. Relembro a elegância. Relembro, até, o que o futuro vai trazer. </p>



<p>Tudo isto pode parecer serôdio, mas fico descansado e orgulhoso, por conseguir continuar a acreditar e por não me esquecer de olhar para trás, ao andar, com decisão, bem em frente.</p>
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		<title>#resistir Nuno Diniz: O tempo sem tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nuno Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2020 12:20:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião #resistir]]></category>
		<category><![CDATA[coronavirus]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Diniz]]></category>
		<category><![CDATA[resistência]]></category>
		<category><![CDATA[Restaurantes e Chefes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Embora hesitantes e meio-perdidos, sabemos que a doença há-de enfraquecer e que a vida vai continuar.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p> Entre indigestão noticiosa, teorias infindas, milhares de geniais especialistas (inchados até explodir com tudo o que sabem), arautos da extinção e os negacionistas profissionais, vamos vivendo tempos de aparente barbárie, aproveitados para inoportunas lutas de classe, insistente exibição de falta de pudor, sugestões desavergonhadas para um quase regresso a ditaduras já mal lembradas.<br> Embora hesitantes e meio-perdidos, sabemos que a doença há-de enfraquecer e que a vida vai continuar. Talvez melhor, talvez com maior preocupação com os mais desprotegidos, talvez com um redescoberto carinho para os mais velhos, talvez até com uma classe mais unida e com vontade de finalmente querer partilhar conhecimento e experiência.<br> A verdade é que estávamos a acelerar, descontroladamente e com os olhos bem fechados, na direcção de um muito feio final do tempo.<br> Entre os populismos idiotas, os populismos pavões, os populismos ignorantes e os populismos perigosos (de esquerda e direita), o único valor que falava (?) era o do poder monetário, e muitos foram esquecendo todos os princípios mais básicos de respeito.<br> E por isso, quando nos apercebemos da dimensão que, o que agora nos isola, poderia tomar, muitos fingiram que nada era, outros pensaram apenas em si, outros ainda, os piores, esconderam a realidade e ridicularizaram quem a antecipou.<br> Agora, que a realidade demonstra o real, a solução é viver o melhor possível, tentar ajudar, pensar que há quem esteja muito pior e deixar os problemas para um futuro próximo em que seja realmente possível fazer algo para os tentar resolver.<br> E assim, também eu, vou passando os dias entre a assistência e conforto a quem precisa, a lembrança de quem está longe, a meditação sobre o que ainda quero e tenho por acabar, o espanto com a beleza de algumas partes do mundo, reparando com maior intensidade na força despida das árvores do fim do inverno e até encontrando, algo surpreendido, um estado de inesperada animação em toda a brigada do restaurante que ainda mal aberto, fechou&#8230; </p>



<p>Neste exílio quase dourado, todos os dias, mais do que uma vez ao dia e desde o indesejado fecho, contactamos usando o lado bom da tecnologia moderna.<br> E falamos de galos, espigos, bacalhau, pão, griséus, batatas ou fumeiro.<br> Trocamos ideias, tatuagens ridículas, mini concertos para espectadores de plástico. Brincamos com as origens, os hábitos, os almoços que cada um vai fazendo e que envia para todos os outros. </p>



<p>Decidimos que a primeira ementa do regresso, e logo após esgotar o (felizmente curto) stock
existente, vai ter apenas pratos escolhidos por cada um dos membros desta imberbe mas tão
entusiasta equipa.<br>
Enviamos mensagens aos fornecedores, agradecendo o que fazem e avisando que não estamos
preparados para desistir.
</p>



<p>Mantemo-nos empenhados, vivos e com vontade de nos transformarmos, de sermos mais limpos, de ampliarmos a capacidade de viver em sociedade, de nos maravilharmos com os encontros acidentais com a complexa condição humana.<br> Reconhecemos finalmente que até é possível descobrir alguma espécie de sublime neste tempo sem tempo, que mais do que de resistência é de reencontro com valores que nunca foram velhos, apenas estavam num inebriado estado de comatosa hibernação. </p>



<p>Voltaremos, todos juntos, e ainda mais fortes, sem nos esquecermos que precisamos, todos, de
ter tempo.
</p>
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		<title>Retalhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nuno Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Feb 2018 16:46:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Nuno Diniz]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Retalhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um destes dias, lânguidos, flutuantes, de mar chão, e vento Suão, dei comigo a pensar que, talvez, por vezes, raramente, adjective demais. E fiquei sentido. Fiquei mesmo enfadado, crispado, zangado.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="fr-FR">1. Eloquê</span></strong><span lang="es-ES"><strong>ncia</strong> </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Um destes dias, l</span>â<span lang="pt-PT">nguidos, flutuantes, de mar chão, e vento Suão, dei comigo a pensar que, talvez, por vezes, raramente, adjective demais. </span><span lang="pt-PT">E fiquei sentido. Fiquei mesmo enfadado, crispado, zangado. Detesto que me critiquem. Mesmo quando a cr</span>í<span lang="pt-PT">tica parte de mim&#8230; E eu nunca adjectivo demais! </span><span lang="fr-FR">Eu pinto, tempero, ornamento, engalano, enrique</span>ç<span lang="it-IT">o, rodeio, purifico, acentuo, sonorizo, romanceio, descrevo, aprimoro.</span><span lang="pt-PT"> Com imprevis</span>í<span lang="pt-PT">vel e not</span>á<span lang="pt-PT">vel bom senso, salpico as letras com florzinhas, p</span>ó<span lang="pt-PT">zinhos, espuminhas, ervinhas, arzinhos, rebentinhos, sementinhas. Apresento inovadores conceitos, tremendas teorias, maviosas met</span>á<span lang="pt-PT">foras, sibilinas insinuaçõ</span><span lang="es-ES">es, laboriosas explica</span><span lang="pt-PT">çõ</span>es, aristoté<span lang="pt-PT">licas instruçõ</span><span lang="es-ES">es, imaginativas alegorias, mir</span>í<span lang="pt-PT">ficas exposiçõ</span>es&#8230;<br />
<span lang="pt-PT">Adjectivos a mais? Não ser</span>á <span lang="pt-PT">antes, que quem me lê </span>está <span lang="pt-PT">a ficar com o vocabul</span>á<span lang="pt-PT">rio tão rico, como o de um pato mudo? Que fique, de uma vez por todas, total e indelevelmente claro: </span>Eu n<span lang="pt-PT">ão adjectivo! Depuro! E com indesment</span>í<span lang="pt-PT">vel, apaixonante, complexa, erudita, incisiva e tonitruante concisã</span>o!</p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong><span lang="pt-PT">2. As mem</span>ó</strong><span lang="pt-PT"><strong>rias dos sabores e o resto&#8230;</strong> </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Amoras, Camarinhas, Mexilhões, Bifes de Cebolada, Rãs, Arroz de Coelho&#8230; assim, com meia d</span>úzia de assombra<span lang="pt-PT">ções, evoco repentinamente nomes com caras, que normalmente estão enterrados em recantos long</span>í<span lang="es-ES">nquos, educadamente preservados, silenciosamente </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">espera de uma qualquer chamada. E logo de seguida reinstalam-se os ecos esquecidos dos cheiros, </span>é<span lang="pt-PT">pocas do ano, locais e per</span>í<span lang="pt-PT">odos da vida. Como a praia, com os gritos felizes de um tempo de sol, onde o carinho quase ignorado e aceite como sendo um direito divino, vindo de quem sempre gostou de n</span>ó<span lang="pt-PT">s, sem condiçõ</span>es, sem exig<span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncias, sem mal</span>ícia, era t<span lang="pt-PT">ã</span><span lang="it-IT">o glorioso, t</span><span lang="pt-PT">ão brilhante, tã</span><span lang="fr-FR">o inesquec</span>í<span lang="pt-PT">vel, que levaremos anos a lamentar não o ter aproveitado melhor. Mas tamb</span>é<span lang="pt-PT">m as aventuras na prov</span>í<span lang="pt-PT">ncia, em tempos de despreocupação, de juvenil inoc</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia. Brincadeiras sem tempo nem horas. Hist</span>ó<span lang="pt-PT">rias de outras vidas, vidas que j</span>á s<span lang="pt-PT">ã</span>o histó<span lang="es-ES">ria. Porque </span>é <span lang="pt-PT">assim que vivemos. Uma corrida sem fim, que, se a fundamental sorte nos acompanhar, se vai transformando numa maiorit</span>á<span lang="es-ES">ria colec</span><span lang="pt-PT">çã</span><span lang="es-ES">o de jubilosas mem</span>ó<span lang="pt-PT">rias. </span>E<span lang="pt-PT">, no entanto, surgem bruscamente, sem serem convidadas, sem se preocuparem por não serem bem vindas: as outras. Aquelas a que não quer</span>í<span lang="pt-PT">amos nunca voltar e t</span>í<span lang="pt-PT">nhamos tentado exilar. </span>Há <span lang="pt-PT">sempre um dia em que decidem querer assinalar a sua resist</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncia ao olvido. Emaciadas, mas obviamente conservadas em bom estado. Como um pickle, uma compota, um licor. Apesar de guardadas no arm</span>á<span lang="pt-PT">rio dos calend</span>á<span lang="pt-PT">rios antigos. Apesar de trancadas na gaveta do que j</span>á <span lang="pt-PT">foi e não era suposto voltar. </span><span lang="es-ES">Porque</span><span lang="pt-PT">, ao voltar, transformam-se numa antevisão do nosso pr</span>ó<span lang="pt-PT">ximo passado. </span>E ningué<span lang="pt-PT">m quer adivinhar o passado. Porque isso implica não ter presente. </span>Ent<span lang="pt-PT">ã</span><span lang="es-ES">o tentamos pint</span>á-las, decorá<span lang="pt-PT">-las, escond</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">-las no meio de um belo ramo de flores. Tentamos criar outras, mais bem cheirosas. Tentamos relembrar outras mais saborosas. Voltamos </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">praia, ao campo, </span><span lang="fr-FR">à </span><span lang="pt-PT">escola, aos amores, aos sucessos, aos pratos da mã</span>e.<span lang="pt-PT"> E seremos felizes mais algum tempo. Pois temos mesmo que ser felizes. A vida </span>é <span lang="pt-PT">demasiado comprida para ser vivida com tristeza. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT"><strong>3. A passagem</strong> </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Nunca consegui realmente perceber se era poss</span>í<span lang="pt-PT">vel acreditar num qualquer tipo de entidade suprema. Apesar de experi</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">ncias, por vezes (pelo menos para mim) inexplic</span>á<span lang="pt-PT">veis, me fazerem hesitar, temer pela sanidade mental, tentei sempre explic</span>á<span lang="pt-PT">-las com a frieza da qu</span>í<span lang="pt-PT">mica e da f</span>í<span lang="pt-PT">sica, rir com inseguro desd</span>ém. E<span lang="pt-PT">, assim, tendo a refugiar-me na ironia. A atacar com a cultura. A justificar com a experi</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="es-ES">ncia. </span><span lang="pt-PT">Fujo do que não tem sentido corp</span>óreo. E<span lang="pt-PT">, por isso, quando escrevo sobre a morte, tento apresent</span>á<span lang="pt-PT">-la quase sempre, como um cap</span>í<span lang="pt-PT">tulo final. </span>Mas<span lang="pt-PT">, ao mesmo tempo, sinto que talvez seja uma passagem. Para algo que não sei calcular, mas que espero que fa</span>ç<span lang="pt-PT">a algum sentido, pois a </span>ú<span lang="fr-FR">nica justifica</span><span lang="pt-PT">ção para o final da vida, tem que ser o encontrar de um portão para qualquer outra coisa. </span><span lang="fr-FR">À </span><span lang="pt-PT">medida que o meu tempo se vai esgotando, cada vez mais penso sobre o que fiz e sobre o que ainda posso fazer. Sei que nã</span><span lang="it-IT">o posso des</span><span lang="pt-PT">fazer nada, mas acredito que posso melhorar, ajudar, encorajar, entusiasmar e, de alguma forma, redimir-me do que merece eventual reprovaçã</span>o.<span lang="pt-PT"> Mas tamb</span>é<span lang="es-ES">m acho que s</span>ó <span lang="pt-PT">eu </span>é <span lang="it-IT">que posso julgar-me. N</span><span lang="pt-PT">ão acredito em ter que prestar contas a ningu</span>é<span lang="pt-PT">m a não ser a mim mesmo e sei que mais ningu</span>é<span lang="pt-PT">m ser</span>á t<span lang="pt-PT">ão exigente no julgamento. </span><span lang="de-DE">Sei</span><span lang="pt-PT">, hoje, que sou melhor e mais inteiro e que as minhas escritas sã</span>o<span lang="pt-PT">, mais e mais, uma forma de ao reconhecer tantas falhas, exorciz</span>á<span lang="pt-PT">-las para tentar definitivamente melhorar. São o meu julgamento e o meu testamento. São a prova da for</span>ça ú<span lang="pt-PT">nica do reconhecimento das fraquezas. </span>S<span lang="pt-PT">ão o que eu sou. Não se pode esperar mais. </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><strong>4. A dimens</strong><span lang="pt-PT"><strong>ão do afecto</strong> </span></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><span lang="pt-PT">Regresso ao tema. Porqu</span><span lang="fr-FR">ê</span>, n<span lang="pt-PT">ã</span><span lang="de-DE">o sei.</span><span lang="pt-PT"> Ou talvez saiba. E não queira confessar, reconhecer, admitir, ceder. </span><span lang="es-ES">Adiante&#8230; </span><span lang="pt-PT">Chegam, ningu</span>é<span lang="es-ES">m sabe porqu</span><span lang="fr-FR">ê</span><span lang="pt-PT">, como um terramoto gentil que abana e afecta bruscamente um retemperador sono. E provavelmente não passam de um sonho. </span>Uma provoca<span lang="pt-PT">çã</span>o.<span lang="pt-PT"> Uma prova do rebuscado sentido de humor deste multifacetado e sedutor mundo, pois embora assumam formas humanas, </span>é ó<span lang="pt-PT">bvio que não podem ser reais, pois exibem demasiada perfeição e equil</span>í<span lang="pt-PT">brio, e demonstram demasiada sensibilidade. </span><span lang="pt-PT">Apesar disso, eterno cr</span>é<span lang="pt-PT">dulo, quero continuar a admitir que existem mesmo. Seres (pessoas?) que chegam, fazem o mundo parar, por vezes partem repentinamente, e,</span><span lang="es-ES"> no entanto, por motivos inexplic</span>á<span lang="pt-PT">veis, ficam e mudam-nos. </span><span lang="es-ES">Fantasmas graciosos e benevolentes que</span><span lang="pt-PT">, quando menos se espera, tantas vezes quando j</span>á n<span lang="pt-PT">ão se espera, nos trazem um raio de inebriante luz. Serena, quase sempre. </span>Efémera, fugaz, talvez.<span lang="pt-PT"> Mas que, de quando em quando, se mant</span>é<span lang="it-IT">m e levamos connosco. </span><span lang="pt-PT">E que, mesmo quando essa deslumbrante luz est</span>á <span lang="pt-PT">aparentemente ultrapassada, derretida, vanescida, tal como se fosse uma et</span>é<span lang="pt-PT">rea neblina matinal &#8211; acaba, magicamente, por reaparecer sem se anunciar, (certamente desfocada), tal como uma fugidia, primaveril, nebulosa, queda de </span>á<span lang="pt-PT">gua no meio de uma secreta floresta divina, que, com o pulsar da magn</span>í<span lang="pt-PT">fica emoção da vida, nos faz sorrir e chorar.</span><br />
<span lang="pt-PT">E como faz falta conseguir chorar! </span><span lang="es-ES">E como </span>é magní<span lang="pt-PT">fico conseguir sorrir! </span></p>
<p>Texto original publicado na INTER 258.</p>
<p>*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico</p>
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		<title>O amor (mas porquê?)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nuno Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Oct 2017 10:12:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Diniz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O amor... De onde vem, por onde andou, para onde vai, quanto tempo dura? É química? Espiritualidade? Física? Religião? Impulso? Memória desfocada?</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Ao longo do inclemente e inexorável passar dos anos, entre brumas e aromas, visitas e regressos, sabores e sorrisos, assombros e compromissos, guardamos (para sempre?) algumas recordações de algo imaterial, excitante, comovente e, tantas vezes, sufocante que, provavelmente, é&#8230; amor. Faz-nos mover, reflectir, dançar e rir. Causa angústia, expectativa, euforia e medo. É inseguro, magnífico, inocente, irracional, intenso, incondicional, inexplicável&#8230; e, no entanto, tentamos explicar, dissertar, arrazoar. De onde vem, por onde andou, para onde vai, quanto tempo dura? É química? Espiritualidade? Física? Religião? Impulso? Memória desfocada? Onde está? Como é que se encontra? Pode-se procurar? Pode-se abandonar? É para esquecer, para lembrar, para odiar? Porque é que passa, fulminantemente, de um extremo a outro, sem que se perceba realmente o porquê? Tanta pergunta. Tanta falta de resposta. E, apesar disso&#8230; Tenho amado. Talvez mais vezes do que seria razoável. Com uma capacidade sensível de disfarce, de auto-controlo, de simulada indiferença. Pessoas, princípios, locais, atitudes, letras, sons, cores, formas, palavras, ideias, gestos, cheiros, sabores! Ora bem. Sabores! Desta vez, estavam a começar a desconfiar que não chegava lá! Alguns (provavelmente quase todos) já desistiram, mas para quem resistiu até agora, sem rasgar a página para passar às escritas modernas que me precedem e sucedem, aqui vou eu, no regresso preguiçoso ao mundo dos tachos (daqueles que fazem companhia às panelas).</p>
<p><strong>“Cozinho com amor!”<em><br />
</em></strong><br />
Um daqueles cansativos lugares comuns, repetidos e jurados histrionicamente, embora, em boa verdade, com a convicção ribombante de uma mosca morta. É quase tão mau como dizer a torto e a direito que “tenho muito respeito pelo produto”&#8230; Cozinhar com amor. É possível? Sim, mas não profissionalmente. Ninguém está tão transbordante de amor, tão irradiante de sentimento, tão iluminado por uma aura beatífica, que consiga passar anos e anos a distribuir amor por todos os que lhe vão passando pelas mãos, pelos olhos, pelos ouvidos e pelo nariz. Amar o próximo. Claro que sim. Para quem não tem mais nada para fazer, mais nada com que se preocupar, mais nada para pensar. Para quem tem um gigantesco saco, carregado de bons sentimentos, que por intervenção mágica de uma qualquer resplandecente divindade, se enche, noite após noite, recarregando-se de amor, de gratidão, de empatia, de simpatia. “Coloco o amor no prato…”, talvez, nunca provei, mas acredito ser uma opção respeitável e certamente olorosa. Não faço ideia das quantidades, temperos, temperaturas e texturas. Não consigo imaginar a cor, se tem florzinhas, espuminhas ou pózinhos, nem quais os vinhos que harmonizam. Já eu, é mais foie gras, chouriços de abóbora, pombos, batatas, ovos e trufas, alheiras, lavagantes, manteiga, peixes, carnes, pão, arroz, azeite.</p>
<p><strong>“Amo os meus clientes!” </strong></p>
<p>Brilhante, estupendo e, calculo, que será interessante e quiçá mesmo excitante. Mas eu, lamentavelmente, não posso dizer o mesmo. Não só não conheço a gigantesca maioria dos clientes que tem passado pelos meus restaurantes ao longo dos anos, como nem sequer estou especialmente interessado em interagir com eles para os ficar a conhecer. E também, enquanto cliente, nove vezes em cada dez, não estou interessado em falar com o chefe ou com qualquer outro digno trabalhador. O mesmo se passa na pronto-a-vestir, no supermercado, nas bombas de gasolina ou no café. E, isto, assim mesmo, sem disfarces, sou eu. Imperfeito (embora obcecado com a perfeição), arrogante (embora tentando sempre não o mostrar), impaciente (embora, por vezes, me espante a mim mesmo com a capacidade para aturar alguns), arrufadiço (embora, por vezes, orientalmente calmo). Não pretendo julgar ninguém. Mas também não vou andar como uma “Maria vai com as outras” a papaguear frases estafadas. E, apesar de tudo o que ficou lá para trás, tenho que confessar, a custo, muito custo, correndo mais uma vez o risco de não ser levado a sério, que acredito em cozinhar com amor! E nada, no mundo da cozinha, pode ser mais compensador do que cozinhar com amor. A questão é que, como tudo o que provoca uma dádiva, uma emoção, uma empatia, deve ser utilizado de forma parcimoniosa. E, no meu caso, esse amor aparece ufano e esplendoroso, quando cozinho para a família e, em especial, para a mãe. Em que não só quero ser bom e perfeito (como sempre), mas também quero beber emoção, alimentar-me da reacção, compartilhar a felicidade e rir-me na sua companhia. A família é a epifania do cozinhar por amor. Com alguns amigos o efeito é o mesmo, embora noutra dimensão, mais momentânea, mas igualmente enriquecedora. Mas também se pode cozinhar com amor, quando cozinhamos com pessoas de que gostamos, com quem nos sabe bem estar, que nos completam, nos inspiram, nos motivam a ser melhores; e, neste caso, nos últimos tempos, tenho tido a imensa sorte de ter alguns alunos que originam este incrível e desinteressado afecto, obrigando-me ao prazer de reacender um fogo que parecia estar indefinidamente extinto. Querem saber mais. Querem procurar outros caminhos, por vezes complexos, difíceis, intensos, mas, por isso mesmo, apaixonantes. E, então, é um momento glorioso quando me conseguem motivar a ir outra vez investigar, estudar, procurar, perguntar. A troca da experiência pelo inusitado entusiasmo. A troca de conhecimento pelo prazer de ver executar com perfeição. A troca do cansaço pelo brilho nos olhos de quem descobre que consegue fazer, entender e comover. Então sim. É possível. É raro, mas magnífico. É único e, por isso, genial.<br />
Tenho que ficar por aqui, mas não posso deixar de registar uma sentida e lacrimejante nota de despedida para o certamente bem intencionado editor: por favor, parem de me desestabilizar com indicações sobre o tema que eu devo abordar. Só serve para me enervar, angustiar, confundir. Sou completamente incapaz de escrever a pedido. Começo às voltas, perco-me no caminho, sofro com fome e sede. Tenho arrepios. Arranco os poucos cabelos que me restam e o resultado é este acumular de letras cujo sentido é tanta vez igual à dose de amor com que os políticos nos bombardeiam diariamente.</p>
<p>Desta vez, era para escrever sobre quê? Sobre o amor? Não faço a mais pequena ideia.</p>
<p>Texto original publicado na INTER 257.</p>
<p>*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico</p>
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		<title>José Bento dos Santos &#8211; Especial 20 anos Quinta do Monte D&#8217;Oiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nuno Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Sep 2017 13:32:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Nuno Diniz]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[josé bento dos santos]]></category>
		<category><![CDATA[quinta monte d'oiro]]></category>
		<category><![CDATA[vinho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No Inverno de 2006, fiz com o Zé Avillez, o jantar/banquete anual da Academia Internacional de Gastronomia, no Hotel Bristol em Paris, onde o restaurante era, e continua a ser, comandado por Eric Frechon, na altura com duas, e agora com três estrelas Michelin.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>No Inverno de 2006, fiz com o Zé Avillez, o jantar/banquete anual da Academia Internacional de Gastronomia, no Hotel Bristol em Paris, onde o restaurante era, e continua a ser, comandado por Eric Frechon, na altura com duas, e agora com três estrelas Michelin.</p>
<p>A experiência, intensa e cheia de aventuras que hoje não são para aqui chamadas, mantém-se bem viva na minha memória: as longuíssimas horas de trabalho, a brigada absolutamente focada nos nossos pratos, as perdizes selvagens (em plena gripe das aves, escondidas numa mala), o bacalhau (risco gigantesco quando fora do país), os pastéis de Belém (que justificaram excelentes três dias na fábrica), o indesmentível sucesso que foi o jantar e o facto (que me deu uma enorme satisfação) de, no fim, eu ter levado à sala, o chef dos Banquetes, que nunca tinha sido aplaudido publicamente…</p>
<p>Mas, sucessos à parte, o que me traz a estas linhas é um reconhecimento, o assumir de uma gratidão, uma pequenina evocação de alguém muito grande: o José Bento dos Santos, principal responsável pela organização do evento e que nos convidou a comandar as cozinhas.</p>
<p>Conhecemo-nos há muitos anos, do mundo das comidas, mas também do mundo do rugby, e o tempo tem confirmado uma amizade que se mantém, mesmo à distância, com o mesmo respeito e admiração de sempre.</p>
<p>É para mim evidente, que se trata da mais importante figura da gastronomia em Portugal. E, propositadamente não escrevi da gastronomia “de” Portugal, pois o grau de conhecimento, capacidade de influência, cultura gigantesca, domínio da arte de prender a atenção, excede em muito as limitações físicas das nossas fronteiras.</p>
<p>Sabe imenso sobre tanta coisa: cozinha, música, pintura, vinhos, literatura…</p>
<p>É um extraordinário comunicador, grande cozinheiro e compreende como ninguém a importância da mensagem, da estética, do prazer, da explicação do gosto. Mas, a sua característica mais tocante é o entusiasmo com que abre as portas a todos, deleitando-nos com uma enorme generosidade e um real prazer em receber e ensinar.</p>
<p>A única forma de ficarmos realmente completos é quando passamos o que sabemos, com naturalidade e coração aberto, àqueles que querem mesmo aprender. Esta partilha, ajuda-nos também, a querer saber mais e a perceber a dimensão imensa do que nos rodeia.</p>
<p>Ao longo da minha vida, aprendi muito e, graças ao prazer de viver e a algumas novas amizades, continuo a aprender.</p>
<p>Conheci muita gente notável e, ocasionalmente continuo a conhecer. Tenho muito orgulho em ser amigo do José Bento dos Santos.</p>
<p>*o autor não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.</p>
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		<title>Gosto de cá estar!</title>
		<link>https://etaste.pt/opiniao/nuno-diniz-gosto-ca-estar/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=nuno-diniz-gosto-ca-estar</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nuno Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Jul 2017 17:19:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Nuno Diniz]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mas o mundo tem pessoas. E as pessoas têm obsessões. Crenças. Preconceitos. Lados díspares. Espelhos que confundem compaixão com vingança. Os que têm tudo, detestam os que não têm nada. Por medo, incómodo, nojo. Os que nada têm, abominam os que tudo têm.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quero mesmo acreditar que o mundo está melhor (lá veio mais uma metonímia&#8230;), mais solidário, mais tolerante, mais culto, mais compassivo.</p>
<p>Mas o mundo tem pessoas. E as pessoas têm obsessões. Crenças. Preconceitos. Lados díspares. Espelhos que confundem compaixão com vingança. Os que têm tudo, detestam os que não têm nada. Por medo, incómodo, nojo. Os que nada têm, abominam os que tudo têm. Por medo, inveja, fome. E, na cegueira do “progresso”, no perturbado caminho para uma estranha forma de (in)civilização, os novos cruzados das caducas religiões e os novos crentes na inexistência de valores, aliam-se, numa espiral destrutiva, às alterações climáticas (evidentes para todos, até para os mais cépticos), às manipulações genéticas dos alimentos, à trágica normalização conseguida com a obliteração da diversidade, à tentativa criminosa de aniquilação da diferença. Humilham-se os mais fracos (cretino passatempo tão em voga nas televisões do mundo e, infelizmente, nos últimos anos, também nos programas com cozinheiros) e idolatra-se a soberba, a injustificada auto-promoção, a arrogância de quem sabendo quase nada acha que deve opinar sobre quase tudo. A imitação despudorada, cópia desenfreada, roubo de ideias e processos criativos não parece justificar qualquer vergonha desde que traga cinco segundos de fama. A “grunhice orgulhosa” instala-se e transforma-se em doloroso pesadelo, a que parece não escapar quase ninguém independentemente da área em que se atole.</p>
<p>E, como não podia deixar de ser, também na política, tanto, cada vez mais, parece mal: sobre os pobres americanos liderados por esse hino à boçalidade chamado Trump, não está ainda nada dito do muito que, infelizmente, vai haver para dizer. Em África, caminha-se de tragédia em tragédia e de extinção em extinção, com minoritários oásis que não parecem ter grande capacidade de resistência. Os construtores/arquitectos de uma nova Europa, tanto tentaram dissipar as saudáveis diferenças que apenas conseguiram colocar quase todos num estado de total insatisfação, fazendo renascer pesadelos xenófobos neo-fascistas colaboracionistas como a Frente Nacional em França (esta crónica está a ser escrita antes das eleições em França), ou mergulhando na ilusão securitária do regresso a velhas ditaduras de esquerda e direita onde, mais umas vez, nacionalismos radicais vão, se não se acordar a tempo, levar ao regresso a episódios trágicos que se julgavam para sempre erradicados. Temos depois a burrice do Brexit e dos seus instigadores, as amplas liberdades da Coreia do Norte, da Venezuelana, do Yemen ou da Hungria, temos as falsas democracias, os regimes teológicos, os simplesmente selvagens, os assumidamente criminosos, ou os tão liberais que sonham com um mundo perfeito onde muito poucos têm tudo e quase todos nada têm.</p>
<p>E no entanto&#8230; tal como na pequena aldeia gaulesa (que me ajudou a crescer) existe um espaço em que alguns irredutíveis vão resistindo à imbecilidade quase generalizada… Um cantinho, com beira-mar, beira-serra, beira-rio e beira-campo. Onde tanta tradição vai resistindo à aceleração dos tempos passantes. Onde subsistem vales encantados, com olivais, vinhas e citrinos, ou planaltos que mantêm uma antiquíssima rotação cereal/pousio. Onde muitas pessoas ainda conversam, ainda se ouvem, ainda se preocupam, ainda se emocionam. Com o simples, as cores da passagem das estações, o som das variações do tempo, a preparação de tudo o que tem que ser aproveitado pois nada se pode estragar. Guarda-se o pão (para sopas, migas, açordas), guarda-se a fruta (para caldas, compotas, picles, concentrados), guardam-se as carnes em alturas de alguma abundância (para fumeiros, rojões, curas naturais), guarda-se o feijão, por vezes com as suas cascas (para guisados, cozidos, butelos). Os mais modernos reconhecerão espantados, a conservação de tubérculos dentro de terra, feito desde sempre ao longo de todo o norte de Portugal. Os mesmo modernaços maravilhar-se-ão com a quantidade de ervinhas e florzinhas que os velhos e velhas continuam a recolher, a guardar, a utilizar em indescritíveis e hiper imaginativas infusões, mezinhas e rezas, rituais de cura quase pagãos, herdados de um tempo de brumas, narrativas, feitiçarias, simplicidade, obscurantismo, que se calhar é mais parecido com o tempo de hoje, do que, à primeira vista, se possa pensar.</p>
<p>Neste cantinho, irredutível, teimoso, pouco comovido com os ditames dos escravos burocratas que só pensam em prestar vassalagem desavergonhada ao poder económico, há história própria, orgulhosa, antiga, que soube resistir a tantos e tão maus condutores. Uma história que tem muito para nos orgulhar e (obviamente) muito para reparar. O que nessa história é bom, e que devemos todos querer manter, tem que ser gritado, ensinado, relembrado, acarinhado, divulgado diariamente. Divulgar, por exemplo, que com grandes dificuldades, se vão mantendo, apesar da tentativa de aniquilação e olvido, raças diferentes e diversas de galinhas, de ovelhas, de cabras, de vitelas&#8230; Vão-se mantendo variedades de grão, inúmeras de feijão, algumas de batatas, bastantes de cereais. Oliveiras, Macieiras, Cerejeiras, Citrinos&#8230; Variedades ainda não contagiadas pela alteração supostamente vantajosa das características genéticas e que, portanto, têm mesmo que ser recolhidas para que possam ser distribuídas por quem acredita (mais uma vez) na diversidade e não quer um mundo incolor, insípido e inodoro, perfeitinho, redondinho, lavadinho, xoninha.</p>
<p>E quem quiser (porque é apenas uma questão de vontade) utilizar um pouco do seu tempo, para perceber como o mundo a sério está fora dos grandes centros, não pode deixar de se apaixonar e de perceber que é uma obrigação social/moral/política, explicar aos felizes detentores de tanta pérola genética, de tanto conhecimento quase instintivo, de tanta riqueza epistemológica, que na verdade não são pobres. São mesmo ricos. Quiçá milionários! E que aquilo que sabem, tem que ser passado aos outros. E que aquilo que fazem (sejam canções, enchidos, facas, potes, histórias&#8230;) não é corriqueiro. Na verdade é mesmo extraordinário, único. Tem que ser divulgado, mas antes tem que ser valorizado para que quem faz não desista, não a abandone a favor de mais uma qualquer quinquilharia chinesa, americana, nórdica ou australiana.<br />
É, por isso, que a política do “se não dá dinheiro, tem que ser extinto” é tão ridícula, tão reacionária, tão estúpida, que quem a defende (esquerda, direita ou centro) está a contribuir alegre e decisivamente para o nosso inexorável extermínio. E portanto é uma besta! E assim deverá voluntariamente ir viver na companhia das outras bestas que idolatra.</p>
<p>Este país fez-se com as pessoas, o clima, a terra. Fez-se com as invasões, as ocupações, as partidas, os regressos. Com os Mouros, Suevos, Vândalos, Romanos, Gregos, Fenícios&#8230; Fez-se de risos e choros, velhos confortados por novos, novos ensinados por velhos. Fez-se de cultura, orgulho, sentido de pertença. Não o queiramos transformar em algo que não merece. Eu, no que puder, não vou deixar!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Texto original publicado na INTER 256.</p>
<p>*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico</p>
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		<title>Ter tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nuno Diniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 May 2017 10:15:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Nuno Diniz]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando eu era pequeno, o tempo durava mais tempo. Era excessivo, cansativo, permanente. Eram as férias que nunca mais acabavam, as aulas que nunca mais começavam, as mesmas aulas que nunca mais terminavam.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu era pequeno, o tempo durava mais tempo. Era excessivo, cansativo, permanente. Eram as férias que nunca mais acabavam, as aulas que nunca mais começavam, as mesmas aulas que nunca mais terminavam.</p>
<p>As manhãs de sábado e domingo com demasiado tempo na cama (os pais ainda dormiam e, portanto, não podia haver barulho…). Depois, havia missa (demasiado tempo), ida a casa da avó (demasiado tempo), viagens até à província (demasiado tempo), refeições com a família na quinta (demasiado tempo), as noites antes dos jogos de rugby (demasiado longas)&#8230; Os velhos eram lentos e andar com eles gastava muito tempo. As conversas, não só eram aborrecidas como duravam muito tempo. A vida tinha que ser vibrante, rápida, emotiva, no limite. O que era novo é que era bom. Como esse sinal da grande condição humana, a música, que me inspirava e arrepiava, e que obviamente era o máximo, contrastando com a de outros velhos tempos, molengona, maçadora, parada. E assim, com tempo a mais, a vida foi passando, com muito mais alegrias que tristezas, muito mais sucessos que fracassos, muito mais arrogância que tolerância. E, de repente, começou a ser menos rápida.</p>
<p>De repente, quando entrei no meu Outono que caminha para Inverno, descobri, finalmente, que o tempo é pouco. E dei comigo a pensar no que já não vou ter tempo para fazer, no que já não vou voltar a visitar, no que provavelmente não voltarei a comer. Começo a ter saudades de quem vai desaparecer. Da música que não vou ouvir. Dos risos que vão cessar. A idade dourada, que nem sempre é de ouro, mas que tem que valer a pena.</p>
<p>Pois bem, sinto que os cabelos brancos juntos com a idade, também trazem coisas boas: esgotou-se a capacidade (por falta de tempo) para fingir ter paciência para aturar pessoas pouco inteligentes. Posso agora dizer tudo o que penso, como quero, a quem quero e quando quero. Não tenho que ser escravo de modas, políticas, religiões ou coerências. Não tenho que fazer salamaleques a alguns jornalistas/escribas(?) que, sem saberem quase nada, dão opiniões sobre tudo e pretendem comer sem pagar no maior número possível de restaurantes, para depois massacrarem o papel ou o ecrã, com meia dúzia de frases feitas, que parecem ser filhas dilectas de um enorme monstro feito de banalidades.<br />
Por outro lado, vantagens da velhice, é com um profundo sentimento de antecipada satisfação que, de vez em quando, me preparo para entrar num daqueles restaurante onde querem, custe o que custar, estar naquilo que acreditam piamente ser moda. É garantido, então, que me vou deparar com vários cozinheiros (tatuados), com um ar pouco limpo, que levitam suavemente pela cozinha (aberta) armados com as inevitáveis pinças e espátulas… Satisfeito comigo mesmo e, sem me deixar abater pelo cansaço provocado pelo óbvio, tento imaginar como vai ser o inevitável primeiro acto (ao mesmo tempo que vou relembrando, com prazer, um qualquer percurso pedestre pelas terras do Barroso, em busca de um prato de comida normal para pessoas normais). E, claro, confirmando a minha expectativa, rapidamente se aproxima um jovem barbudo, para me perguntar, com um ar muito sério, se tenho alguma alergia&#8230; e eu, que já não preciso de disfarçar o aborrecimento, respondo de imediato que sou alérgico à estupidez e ao lugar comum. Depois, segue-se uma parada de pratos redundantes, com comidas todas parecidas e explicações supostamente eruditas (mas que não passam de balbucios incoerentes) e maçadoras instruções sobre como comer e qual a ordem correcta. Pois é. Todos sabem tudo. E eu, que continuo a saber pouco, tenho cada vez menos paciência para quem acha que já sabe o suficiente.<br />
Embora com menos tempo, insisto em procurar. E, sintomaticamente, continuo a encontrar muito. O moderno espectacular. O moderno aterrador. O antigo cansativo. O antigo genial. O actual promissor. O actual decrépito. Este meu mundo da cozinha vai andando, saltitando, bailando de moda em moda. A réplica, que quando não identificada se transforma em cópia, deveria ser (graças à sociabilidade das redes) cada vez mais fácil de detectar. Mas a verdade é que o El Bulli (onde fui três vezes) já foi há muito tempo e insistir em repetir o que foi novidade em 1999, 2000, 2001, apresentando-a outra vez como novidade e esperando que a memória (que realmente vai falhando) já não funcione, é desonesto.</p>
<p>Nesta vida quase sem tempo, novidade é a descoberta do que está quase perdido. Novidade é a manutenção da grande memória. Novidade é o respeito sério pela nossa cultura. Novidade é parar de dizer que a doçaria conventual tem que ser adaptada aos tempos modernos. Novidade é ensinar e explicar sem titubear, que este mundo dos tachos não é fácil, não é dourado, não leva quase nunca a um grande sucesso. Mas, será que temos também que só procurar a novidade? Que é dela que nos vamos alimentar? Não. Temos que perceber que o mais importante de tudo, é saber ter tempo. E gastá-lo, aproveitando-o. Para estudar, para descansar, para passear, para elucidar, para perguntar. Temos que o estimar, regar cuidadosamente, para ver se cresce. O tempo para rir e chorar. Para amar e conhecer. Para olhar e entender. Para ouvir e compreender. O tempo para a família. Para os novos e, principalmente, para os velhos. O tempo para refletir, introspecionar a nossa passagem pela terra e, se possível, para aproveitar o melhor possível, a dose que nos resta.<br />
O tempo, esse magnífico sacana. Bem que podia parar.</p>
<p>Texto original publicado na INTER 255.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico</p>
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