Entre indigestão noticiosa, teorias infindas, milhares de geniais especialistas (inchados até explodir com tudo o que sabem), arautos da extinção e os negacionistas profissionais, vamos vivendo tempos de aparente barbárie, aproveitados para inoportunas lutas de classe, insistente exibição de falta de pudor, sugestões desavergonhadas para um quase regresso a ditaduras já mal lembradas.
Embora hesitantes e meio-perdidos, sabemos que a doença há-de enfraquecer e que a vida vai continuar. Talvez melhor, talvez com maior preocupação com os mais desprotegidos, talvez com um redescoberto carinho para os mais velhos, talvez até com uma classe mais unida e com vontade de finalmente querer partilhar conhecimento e experiência.
A verdade é que estávamos a acelerar, descontroladamente e com os olhos bem fechados, na direcção de um muito feio final do tempo.
Entre os populismos idiotas, os populismos pavões, os populismos ignorantes e os populismos perigosos (de esquerda e direita), o único valor que falava (?) era o do poder monetário, e muitos foram esquecendo todos os princípios mais básicos de respeito.
E por isso, quando nos apercebemos da dimensão que, o que agora nos isola, poderia tomar, muitos fingiram que nada era, outros pensaram apenas em si, outros ainda, os piores, esconderam a realidade e ridicularizaram quem a antecipou.
Agora, que a realidade demonstra o real, a solução é viver o melhor possível, tentar ajudar, pensar que há quem esteja muito pior e deixar os problemas para um futuro próximo em que seja realmente possível fazer algo para os tentar resolver.
E assim, também eu, vou passando os dias entre a assistência e conforto a quem precisa, a lembrança de quem está longe, a meditação sobre o que ainda quero e tenho por acabar, o espanto com a beleza de algumas partes do mundo, reparando com maior intensidade na força despida das árvores do fim do inverno e até encontrando, algo surpreendido, um estado de inesperada animação em toda a brigada do restaurante que ainda mal aberto, fechou…

Neste exílio quase dourado, todos os dias, mais do que uma vez ao dia e desde o indesejado fecho, contactamos usando o lado bom da tecnologia moderna.
E falamos de galos, espigos, bacalhau, pão, griséus, batatas ou fumeiro.
Trocamos ideias, tatuagens ridículas, mini concertos para espectadores de plástico. Brincamos com as origens, os hábitos, os almoços que cada um vai fazendo e que envia para todos os outros.

Decidimos que a primeira ementa do regresso, e logo após esgotar o (felizmente curto) stock existente, vai ter apenas pratos escolhidos por cada um dos membros desta imberbe mas tão entusiasta equipa.
Enviamos mensagens aos fornecedores, agradecendo o que fazem e avisando que não estamos preparados para desistir.

Mantemo-nos empenhados, vivos e com vontade de nos transformarmos, de sermos mais limpos, de ampliarmos a capacidade de viver em sociedade, de nos maravilharmos com os encontros acidentais com a complexa condição humana.
Reconhecemos finalmente que até é possível descobrir alguma espécie de sublime neste tempo sem tempo, que mais do que de resistência é de reencontro com valores que nunca foram velhos, apenas estavam num inebriado estado de comatosa hibernação.

Voltaremos, todos juntos, e ainda mais fortes, sem nos esquecermos que precisamos, todos, de ter tempo.