1. Eloquência

Um destes dias, lânguidos, flutuantes, de mar chão, e vento Suão, dei comigo a pensar que, talvez, por vezes, raramente, adjective demais. E fiquei sentido. Fiquei mesmo enfadado, crispado, zangado. Detesto que me critiquem. Mesmo quando a crítica parte de mim… E eu nunca adjectivo demais! Eu pinto, tempero, ornamento, engalano, enriqueço, rodeio, purifico, acentuo, sonorizo, romanceio, descrevo, aprimoro. Com imprevisível e notável bom senso, salpico as letras com florzinhas, pózinhos, espuminhas, ervinhas, arzinhos, rebentinhos, sementinhas. Apresento inovadores conceitos, tremendas teorias, maviosas metáforas, sibilinas insinuações, laboriosas explicações, aristotélicas instruções, imaginativas alegorias, miríficas exposições…
Adjectivos a mais? Não será antes, que quem me lê está a ficar com o vocabulário tão rico, como o de um pato mudo? Que fique, de uma vez por todas, total e indelevelmente claro: Eu não adjectivo! Depuro! E com indesmentível, apaixonante, complexa, erudita, incisiva e tonitruante concisão!

2. As memórias dos sabores e o resto…

Amoras, Camarinhas, Mexilhões, Bifes de Cebolada, Rãs, Arroz de Coelho… assim, com meia dúzia de assombrações, evoco repentinamente nomes com caras, que normalmente estão enterrados em recantos longínquos, educadamente preservados, silenciosamente à espera de uma qualquer chamada. E logo de seguida reinstalam-se os ecos esquecidos dos cheiros, épocas do ano, locais e períodos da vida. Como a praia, com os gritos felizes de um tempo de sol, onde o carinho quase ignorado e aceite como sendo um direito divino, vindo de quem sempre gostou de nós, sem condições, sem exigências, sem malícia, era tão glorioso, tão brilhante, tão inesquecível, que levaremos anos a lamentar não o ter aproveitado melhor. Mas também as aventuras na província, em tempos de despreocupação, de juvenil inocência. Brincadeiras sem tempo nem horas. Histórias de outras vidas, vidas que já são história. Porque é assim que vivemos. Uma corrida sem fim, que, se a fundamental sorte nos acompanhar, se vai transformando numa maioritária colecção de jubilosas memórias. E, no entanto, surgem bruscamente, sem serem convidadas, sem se preocuparem por não serem bem vindas: as outras. Aquelas a que não queríamos nunca voltar e tínhamos tentado exilar. sempre um dia em que decidem querer assinalar a sua resistência ao olvido. Emaciadas, mas obviamente conservadas em bom estado. Como um pickle, uma compota, um licor. Apesar de guardadas no armário dos calendários antigos. Apesar de trancadas na gaveta do que já foi e não era suposto voltar. Porque, ao voltar, transformam-se numa antevisão do nosso próximo passado. E ninguém quer adivinhar o passado. Porque isso implica não ter presente. Então tentamos pintá-las, decorá-las, escondê-las no meio de um belo ramo de flores. Tentamos criar outras, mais bem cheirosas. Tentamos relembrar outras mais saborosas. Voltamos à praia, ao campo, à escola, aos amores, aos sucessos, aos pratos da mãe. E seremos felizes mais algum tempo. Pois temos mesmo que ser felizes. A vida é demasiado comprida para ser vivida com tristeza.

3. A passagem

Nunca consegui realmente perceber se era possível acreditar num qualquer tipo de entidade suprema. Apesar de experiências, por vezes (pelo menos para mim) inexplicáveis, me fazerem hesitar, temer pela sanidade mental, tentei sempre explicá-las com a frieza da química e da física, rir com inseguro desdém. E, assim, tendo a refugiar-me na ironia. A atacar com a cultura. A justificar com a experiência. Fujo do que não tem sentido corpóreo. E, por isso, quando escrevo sobre a morte, tento apresentá-la quase sempre, como um capítulo final. Mas, ao mesmo tempo, sinto que talvez seja uma passagem. Para algo que não sei calcular, mas que espero que faça algum sentido, pois a única justificação para o final da vida, tem que ser o encontrar de um portão para qualquer outra coisa. À medida que o meu tempo se vai esgotando, cada vez mais penso sobre o que fiz e sobre o que ainda posso fazer. Sei que não posso desfazer nada, mas acredito que posso melhorar, ajudar, encorajar, entusiasmar e, de alguma forma, redimir-me do que merece eventual reprovação. Mas também acho que só eu é que posso julgar-me. Não acredito em ter que prestar contas a ninguém a não ser a mim mesmo e sei que mais ninguém será tão exigente no julgamento. Sei, hoje, que sou melhor e mais inteiro e que as minhas escritas são, mais e mais, uma forma de ao reconhecer tantas falhas, exorcizá-las para tentar definitivamente melhorar. São o meu julgamento e o meu testamento. São a prova da força única do reconhecimento das fraquezas. São o que eu sou. Não se pode esperar mais.

4. A dimensão do afecto

Regresso ao tema. Porquê, não sei. Ou talvez saiba. E não queira confessar, reconhecer, admitir, ceder. Adiante… Chegam, ninguém sabe porquê, como um terramoto gentil que abana e afecta bruscamente um retemperador sono. E provavelmente não passam de um sonho. Uma provocação. Uma prova do rebuscado sentido de humor deste multifacetado e sedutor mundo, pois embora assumam formas humanas, é óbvio que não podem ser reais, pois exibem demasiada perfeição e equilíbrio, e demonstram demasiada sensibilidade. Apesar disso, eterno crédulo, quero continuar a admitir que existem mesmo. Seres (pessoas?) que chegam, fazem o mundo parar, por vezes partem repentinamente, e, no entanto, por motivos inexplicáveis, ficam e mudam-nos. Fantasmas graciosos e benevolentes que, quando menos se espera, tantas vezes quando já não se espera, nos trazem um raio de inebriante luz. Serena, quase sempre. Efémera, fugaz, talvez. Mas que, de quando em quando, se mantém e levamos connosco. E que, mesmo quando essa deslumbrante luz está aparentemente ultrapassada, derretida, vanescida, tal como se fosse uma etérea neblina matinal – acaba, magicamente, por reaparecer sem se anunciar, (certamente desfocada), tal como uma fugidia, primaveril, nebulosa, queda de água no meio de uma secreta floresta divina, que, com o pulsar da magnífica emoção da vida, nos faz sorrir e chorar.
E como faz falta conseguir chorar! E como é magnífico conseguir sorrir!

Texto original publicado na INTER 258.

*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico