Andando. Sozinho. Quase sempre.

Só que insisto em relembrar. E isso devia acabar. Mas eu não quero. O que continuo a querer é mesmo lembrar. É nunca esquecer.

E assim vou andando, sozinho.

Subo montes que me desafiam, desço a leitos de ribeiros sem nome, passo por belíssimas ruínas que, sem estarem assombradas, me fazem perceber com assombro terem sido antes berço de farinhas que acabaram em pão.

Ando sozinho.

Com estranheza descubro-me atento a sons que nunca tinha ouvido (embora estivessem sempre cá). É como se, repentinamente, um novo mundo tivesse renascido das futuras cinzas. Mas não é novo. É muito antigo. Sempre aqui esteve. E nunca se escondeu. E eu, que apesar da aceleração o vislumbrava de vez em quando, nunca tinha mesmo tentado conhecê-lo.

Então vou andando. Sozinho. Monte acima.

Desejo um bom dia aos negrilhos, troco um olhar com os lameiros, procuro entender os nabais, oiço atentamente os carvalhos (que começam a ressumar orgulhosas flores). Fico envolto em repentinos nevoeiros onde me imagino parte de tudo. Perco-me em labiríntica floresta que quase esconde o dia, desdenhando o sol. Nos primeiros dias, saltitava cuidadosamente, evitando a bosta de vaca que existe com picaresca abundância, mas depois, lembrei-me que tinha guardado no último Natal umas belíssimas galochas e… arre mula que aqui vou eu. Que se lixe a bosta (que sempre se pode lavar, caso haja algum incidente maior).

E então vou andando. Sozinho. Monte abaixo.

E encontro a Rosa (do Porfírio), que ia até minha casa para oferecer umas chouriças, ou um salpicão, ou um galo, ou batatas, ou carqueja para quando chegar o frio nocturno. Noutros dias, batem cuidadosamente à minha porta e penduram de imediato um saco. Quando abro a porta vejo a Maria (do Quim), que me foi entregar umas alheiras e uns espigos apanhados uma hora antes. Tudo custa apenas um sorriso, envergonhado, mas exultante perante a minha reacção.

De dois em dois dias, também o David vai aparecendo, mantendo sempre a nova distância, mas preocupado com o bem-estar. Com o meu. E querendo sempre saber se falta algo. Que não falta. Falamos alguns minutos, satisfeitos com a companhia.

Diariamente as tarefas são muitas: ler e pensar, reflectir e ver, mas também cozinhar, apanhar lenha caída (para a lareira), lavar roupa à mão, ajudar na limpeza da casa, ter a oportunidade única de fazer companhia à mãe, ir aprender a tratar da terra (agora a ser enriquecida com o estrume de um ano), contactar a família, manter interessados os cozinheiros que estão isolados e espalhados pelo país.

Logo depois, vou andando. Sozinho. Para onde calha.

Raramente encontro alguém. Os cães afastam-se e as galinhas não me entendem. As casas, pedras assentes sobre pedras, estão vazias e frias, mas bichanam-me histórias. De vidas duras, de pobreza e trabalho como nem sequer suspeito. Onde houve morte, doença, choro. Mas também houve vida, energia, riso. Olho para o nome das ruas e começo a escrever mentalmente um novo livro. Que se terá passado e quem terá habitado na Rua do Poço, na Rua d’Água, na Rua da Fonte de Baixo, na Rua de Trás-do-Rego, ou na da Fonte de Deus? Todas têm a ver com água. Porquê? É certo que estamos no reino da água (e dos ventos e dos fumos)…

E continuo. Andando. Prazerosamente sem destino.

Reparo, atordoado em novos sons de novos seres. Vejo e oiço pela primeira vez, o cuco e a popa. Avisto rolas, águias, melros, picanços, rouxinóis e sou até visitado, numa das noites, por uma coruja das torres.

Por vezes fico desconfiado, perturbado, pensando que se existisse uma outra vida, não depois, mas antes, eu talvez estivesse estado por aqui, talvez fosse árvore. Mas logo depois acho que não; se tivesse sido árvore saberia muito mais sobre o que é realmente importante.

Num dos dias, vou olhando para o chão, admirando a imensa variedade de pedras e lembrando que talvez alguém tenha um dia apanhado as mesmas e com elas improvisado um prato. Embrenhado (mas não perdido) em memórias, reparo então num movimento dissimulado, através do canto do olho. Paro e recuo, adiando o respirar, no maior silêncio que consigo. Olho quase sem mexer, para uma destas singulares fragas de onde brotam urzes, giestas, estevas e silvas, à procura de algo que não sei, mas que está lá. E espero, como nunca teria sido capaz de esperar. Até que, repentina, saindo de uma fenda, aparece uma resplendente lagartixa verde, que apenas quer passar algum tempo no conforto da rocha, aquecida pelo sol. É a sua casa. Está a descansar e talvez a meditar. Retiro-me sem a incomodar, mas regresso nos dias seguintes, por volta das 4 da tarde, quando o ténue calor do sol do Barroso embate no exterior do seu refúgio e acabo por a conseguir filmar. Assim vou redesenhando os meus interesses. Não é um regresso a tempos passados. É mesmo uma chegada. Poderia explicá-la, mas terá que ficar para outra altura, pois por agora tenho que continuar a descobrir.

Andando. Sozinho. Mas também relembrando.

Relembro então um sorriso. Relembro a delicadeza. Relembro a elegância. Relembro, até, o que o futuro vai trazer.

Tudo isto pode parecer serôdio, mas fico descansado e orgulhoso, por conseguir continuar a acreditar e por não me esquecer de olhar para trás, ao andar, com decisão, bem em frente.