No Inverno de 2006, fiz com o Zé Avillez, o jantar/banquete anual da Academia Internacional de Gastronomia, no Hotel Bristol em Paris, onde o restaurante era, e continua a ser, comandado por Eric Frechon, na altura com duas, e agora com três estrelas Michelin.

A experiência, intensa e cheia de aventuras que hoje não são para aqui chamadas, mantém-se bem viva na minha memória: as longuíssimas horas de trabalho, a brigada absolutamente focada nos nossos pratos, as perdizes selvagens (em plena gripe das aves, escondidas numa mala), o bacalhau (risco gigantesco quando fora do país), os pastéis de Belém (que justificaram excelentes três dias na fábrica), o indesmentível sucesso que foi o jantar e o facto (que me deu uma enorme satisfação) de, no fim, eu ter levado à sala, o chef dos Banquetes, que nunca tinha sido aplaudido publicamente…

Mas, sucessos à parte, o que me traz a estas linhas é um reconhecimento, o assumir de uma gratidão, uma pequenina evocação de alguém muito grande: o José Bento dos Santos, principal responsável pela organização do evento e que nos convidou a comandar as cozinhas.

Conhecemo-nos há muitos anos, do mundo das comidas, mas também do mundo do rugby, e o tempo tem confirmado uma amizade que se mantém, mesmo à distância, com o mesmo respeito e admiração de sempre.

É para mim evidente, que se trata da mais importante figura da gastronomia em Portugal. E, propositadamente não escrevi da gastronomia “de” Portugal, pois o grau de conhecimento, capacidade de influência, cultura gigantesca, domínio da arte de prender a atenção, excede em muito as limitações físicas das nossas fronteiras.

Sabe imenso sobre tanta coisa: cozinha, música, pintura, vinhos, literatura…

É um extraordinário comunicador, grande cozinheiro e compreende como ninguém a importância da mensagem, da estética, do prazer, da explicação do gosto. Mas, a sua característica mais tocante é o entusiasmo com que abre as portas a todos, deleitando-nos com uma enorme generosidade e um real prazer em receber e ensinar.

A única forma de ficarmos realmente completos é quando passamos o que sabemos, com naturalidade e coração aberto, àqueles que querem mesmo aprender. Esta partilha, ajuda-nos também, a querer saber mais e a perceber a dimensão imensa do que nos rodeia.

Ao longo da minha vida, aprendi muito e, graças ao prazer de viver e a algumas novas amizades, continuo a aprender.

Conheci muita gente notável e, ocasionalmente continuo a conhecer. Tenho muito orgulho em ser amigo do José Bento dos Santos.

*o autor não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.