Ao longo do inclemente e inexorável passar dos anos, entre brumas e aromas, visitas e regressos, sabores e sorrisos, assombros e compromissos, guardamos (para sempre?) algumas recordações de algo imaterial, excitante, comovente e, tantas vezes, sufocante que, provavelmente, é… amor. Faz-nos mover, reflectir, dançar e rir. Causa angústia, expectativa, euforia e medo. É inseguro, magnífico, inocente, irracional, intenso, incondicional, inexplicável… e, no entanto, tentamos explicar, dissertar, arrazoar. De onde vem, por onde andou, para onde vai, quanto tempo dura? É química? Espiritualidade? Física? Religião? Impulso? Memória desfocada? Onde está? Como é que se encontra? Pode-se procurar? Pode-se abandonar? É para esquecer, para lembrar, para odiar? Porque é que passa, fulminantemente, de um extremo a outro, sem que se perceba realmente o porquê? Tanta pergunta. Tanta falta de resposta. E, apesar disso… Tenho amado. Talvez mais vezes do que seria razoável. Com uma capacidade sensível de disfarce, de auto-controlo, de simulada indiferença. Pessoas, princípios, locais, atitudes, letras, sons, cores, formas, palavras, ideias, gestos, cheiros, sabores! Ora bem. Sabores! Desta vez, estavam a começar a desconfiar que não chegava lá! Alguns (provavelmente quase todos) já desistiram, mas para quem resistiu até agora, sem rasgar a página para passar às escritas modernas que me precedem e sucedem, aqui vou eu, no regresso preguiçoso ao mundo dos tachos (daqueles que fazem companhia às panelas).
“Cozinho com amor!”
Um daqueles cansativos lugares comuns, repetidos e jurados histrionicamente, embora, em boa verdade, com a convicção ribombante de uma mosca morta. É quase tão mau como dizer a torto e a direito que “tenho muito respeito pelo produto”… Cozinhar com amor. É possível? Sim, mas não profissionalmente. Ninguém está tão transbordante de amor, tão irradiante de sentimento, tão iluminado por uma aura beatífica, que consiga passar anos e anos a distribuir amor por todos os que lhe vão passando pelas mãos, pelos olhos, pelos ouvidos e pelo nariz. Amar o próximo. Claro que sim. Para quem não tem mais nada para fazer, mais nada com que se preocupar, mais nada para pensar. Para quem tem um gigantesco saco, carregado de bons sentimentos, que por intervenção mágica de uma qualquer resplandecente divindade, se enche, noite após noite, recarregando-se de amor, de gratidão, de empatia, de simpatia. “Coloco o amor no prato…”, talvez, nunca provei, mas acredito ser uma opção respeitável e certamente olorosa. Não faço ideia das quantidades, temperos, temperaturas e texturas. Não consigo imaginar a cor, se tem florzinhas, espuminhas ou pózinhos, nem quais os vinhos que harmonizam. Já eu, é mais foie gras, chouriços de abóbora, pombos, batatas, ovos e trufas, alheiras, lavagantes, manteiga, peixes, carnes, pão, arroz, azeite.
“Amo os meus clientes!”
Brilhante, estupendo e, calculo, que será interessante e quiçá mesmo excitante. Mas eu, lamentavelmente, não posso dizer o mesmo. Não só não conheço a gigantesca maioria dos clientes que tem passado pelos meus restaurantes ao longo dos anos, como nem sequer estou especialmente interessado em interagir com eles para os ficar a conhecer. E também, enquanto cliente, nove vezes em cada dez, não estou interessado em falar com o chefe ou com qualquer outro digno trabalhador. O mesmo se passa na pronto-a-vestir, no supermercado, nas bombas de gasolina ou no café. E, isto, assim mesmo, sem disfarces, sou eu. Imperfeito (embora obcecado com a perfeição), arrogante (embora tentando sempre não o mostrar), impaciente (embora, por vezes, me espante a mim mesmo com a capacidade para aturar alguns), arrufadiço (embora, por vezes, orientalmente calmo). Não pretendo julgar ninguém. Mas também não vou andar como uma “Maria vai com as outras” a papaguear frases estafadas. E, apesar de tudo o que ficou lá para trás, tenho que confessar, a custo, muito custo, correndo mais uma vez o risco de não ser levado a sério, que acredito em cozinhar com amor! E nada, no mundo da cozinha, pode ser mais compensador do que cozinhar com amor. A questão é que, como tudo o que provoca uma dádiva, uma emoção, uma empatia, deve ser utilizado de forma parcimoniosa. E, no meu caso, esse amor aparece ufano e esplendoroso, quando cozinho para a família e, em especial, para a mãe. Em que não só quero ser bom e perfeito (como sempre), mas também quero beber emoção, alimentar-me da reacção, compartilhar a felicidade e rir-me na sua companhia. A família é a epifania do cozinhar por amor. Com alguns amigos o efeito é o mesmo, embora noutra dimensão, mais momentânea, mas igualmente enriquecedora. Mas também se pode cozinhar com amor, quando cozinhamos com pessoas de que gostamos, com quem nos sabe bem estar, que nos completam, nos inspiram, nos motivam a ser melhores; e, neste caso, nos últimos tempos, tenho tido a imensa sorte de ter alguns alunos que originam este incrível e desinteressado afecto, obrigando-me ao prazer de reacender um fogo que parecia estar indefinidamente extinto. Querem saber mais. Querem procurar outros caminhos, por vezes complexos, difíceis, intensos, mas, por isso mesmo, apaixonantes. E, então, é um momento glorioso quando me conseguem motivar a ir outra vez investigar, estudar, procurar, perguntar. A troca da experiência pelo inusitado entusiasmo. A troca de conhecimento pelo prazer de ver executar com perfeição. A troca do cansaço pelo brilho nos olhos de quem descobre que consegue fazer, entender e comover. Então sim. É possível. É raro, mas magnífico. É único e, por isso, genial.
Tenho que ficar por aqui, mas não posso deixar de registar uma sentida e lacrimejante nota de despedida para o certamente bem intencionado editor: por favor, parem de me desestabilizar com indicações sobre o tema que eu devo abordar. Só serve para me enervar, angustiar, confundir. Sou completamente incapaz de escrever a pedido. Começo às voltas, perco-me no caminho, sofro com fome e sede. Tenho arrepios. Arranco os poucos cabelos que me restam e o resultado é este acumular de letras cujo sentido é tanta vez igual à dose de amor com que os políticos nos bombardeiam diariamente.
Desta vez, era para escrever sobre quê? Sobre o amor? Não faço a mais pequena ideia.
Texto original publicado na INTER 257.
*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico
