Ainda e sempre extasiado com as novidades diárias, que afortunadamente estão alheias aos populismos, ao arrependimento dos liberais, à demagogia de quem já se esqueceu da sua própria história, às derivas totalitárias e ignorantes que se alimentam e medram graças à descarada mentira em conjunto com o medo e o preconceito, continuo higienicamente isolado, nadando sem receio de perder o pé, através de alterosos e encantados montes, onde as ondas são brancas, amarelas e roxas, orgulhosas exibições de matos ondulantes, sendo por demais evidente que aqui poderia permanecer para não sair, não sentindo nunca a falta do movimento, da excitação, das cacofonias do dia a dia, ou até dos reflexos nocturnos das ruas citadinas.

Apesar da vontade de poder estar com os meus cozinheiros no Revolução, e da recordação do prazer oferecido pelas guitarras e teclados que ficaram em Lisboa, tenho, aqui para estes lados onde a noite é apenas eventualmente iluminada pela lua e pelas estrelas e, de quando em vez, embalada por sons que raramente identifico, tenho aqui, dizia, momentos inesperados, excitação, novidade e cultura que chegam para me manter interessado, durante pelo menos mais sessenta anos.

Só para dar um exemplo, hoje, no meio de um denso e pegajoso nevoeiro que entre arrepios escondia (talvez imaginados) fantasmas, percebi que alguém, formando uma sombra indefinida e sem sexo, parecia estar a trabalhar no meio de um campo.

Num feriado!
À hora (urbana) de almoço…
Intrigado e arrancando do fundo do estômago, coragem para afrontar o frio quase tão rijo como a espessura da cerração, calcei mais uma vez as galochas (que, sabemos já, resistem aos inesperados percalços da natureza livre), enfiei mais um casaco, enrolei um cachecol e parti em direcção à sombra.
Era o B, a espalhar esterco na terra com uma retorcida forquilha, engenhosamente feita a partir de um ramo de amieiro.

“É para preparar a terra para a batata” (disse-me ele.)
“Este ano comprei da estrangeira…” (kennebec presumi eu),
“… e vem para aqui, pois a outra terra lá em baixo está com a infecção!”
(e eu, atendendo aos tempos que correm, decidi não perguntar, embora calcule que terá a ver com uma eventual falta de rotação dos plantios…)
Falámos mais uns minutos e, deixando-o trabalhar na mesma paz que eu interrompera, perdi-o no nevoeiro.

Antes, fiquei ainda a saber que o esterco (que não cheirava mal ou então sou eu que já deixei de notar), onde se percebiam alguns troncos de giesta, tinha já três anos(!) e por isso calculo que seja de esperar alguns poderes sobrenaturais que transformarão os já superlativos tubérculos em monumentos “nunca antes vistos” especialmente se ainda conseguirem injectar os torrões por desfazer, com uma “dose maciça de Hydroxychloroquine”… (só para confirmar que, embora bem exilado, não deixei de estar também atento ao dia a dia do resto do mundo, e assim citar esse oxigenado monumento ao bom senso, à cultura e à inteligência, chamado Trump…).

Ultrapassando de imediato a lembrança súbita deste tipo de idiotices, subi a rua e refugiei-me, seguro e ainda razoavelmente seco, em casa.

É então assim que por cá, os dias se vão sucedendo, sem percalços nem más novas. Passa-se, sem aviso prévio, da mais deslumbrante primavera, para um frio gelado que sabe e cheira a vida e que até, já por duas vezes trouxe neve, esse bruxedo sedutor que mantém uma inesgotável capacidade para aquecer velhos e empedernidos corações.

A busca da lenha é um desporto diário e quase pesado, que contribui, quero mesmo acreditar, para ajudar a desvanecer parte do que me vai trazer este longo período de magnífica indolência e certamente não piores banquetes, elaborados com tudo o que de tão bom existe aqui mesmo à mão e que torna escusadas, visitas a supermercados.

Senão vejamos: para lá das, já noutras crónicas referidas, ofertas da Rosa e da Maria, temos à Terça à tarde a carrinha da broa centeia de Pitões das Júnias, às Quintas às 8h a Ford Transit que traz o pão de mistura de Vilar de Perdizes, às Sextas uma outra que traz mercearias, lacticínios e frutas e aos Sábados mais um carro que traz o pão de Codeçoso. Claro que as chegadas são devidamente anunciadas com longas e sucessivas buzinadelas que assustam até o sino da igreja e emudecem momentaneamente o galo que mora e canta, na rua abaixo da minha casa!

Tudo é muito bom! Tudo é muito barato!
Temos ainda a insuperável carne do talho do Delfim, que vem até à aldeia se eu quiser, o conforto das visitas do David que continua a aparecer, trazendo queijo, presunto ou folar e ainda uma inesgotável e gratuita oferta de ervas e ervinhas, espalhada por quase todos os caminhos que vou deslaçando.
Junte-se os vinhos que tenho trazido e quase não consumido em animados Natais dos mais recentes anos e uma enorme colecção de equipamento de cozinha e pastelaria que também fui trazendo para cá e perceber-se-à, que para exílio repentino, não estamos nada mal…

Quanto ao resto do tempo, está sempre ocupado…

Nesta busca para imortalizar o momento mágico, insisto em explorar, acabando por encontrar juncos, que depois de secos, torcidos e entrançados, alguém (se tal ainda fosse possível), me faria uma extraordinária croça, que com o quase perdido conhecimento de antanho, me poderia proteger hoje, dos rigores deste tempo imprevisível.

Vejo por todo o lado verdes lameiros, com um verde que parece pintado pelos melhores de Hollywood, e que me impelem a sentir, descalço, a força e energia incomparáveis que se escondem nestas terras antigas, esperando então poder absorver algo, com o entusiasmo e até alguma inconsciência que caracterizam tantas vezes a juventude, embora saiba bem que as mesmas terras ignoram com descansada altivez, a minha presença.

Apesar disso, piso sofregamente o chão (terra, pedras, flores, espinhos, restolho), que como ontem e antes, se renova, exsudando uma vida poderosa e vibrante que bem sinto, e que (quero-me mesmo convencer), sussurra um hipnótico canto que me insta a não partir.

E no entanto sei que tenho que ir.
Relembrando outros bons tempos, alguns passados também aqui, que acredito, voltarão, e que me fazem tantas vezes regressar, para também eu poder voltar a abraçar (um dia) e gargalhar, sentindo como é redentor reencontrar um amigo, e depois conseguir ficar em silêncio, feliz e regenerado, plenamente confortado pelo imbatível prazer da companhia.

Ps: Tenho comigo uma paciente e sempre satisfeita, sénior, e portanto, para lá dos passeios, das escritas, das tarefas campesinas e dos sonhos, também preciso cozinhar (boa desculpa!)
Aqui ficam apontamentos de algumas coisas, que por cá têm acontecido:

Pudim Marfim, Folar de Fumeiro, Cabrito do Barroso assado com Arroz de miúdos (tudo em forno de lenha), Bacalhau à Zé do Pipo, Bolo de laranja, Vazia de Vitela Barrosã à Marrare, Açorda de Galinha com Grão, Regueifa, Polvo à maneira do Pico, Sopa de Feijões, Empadão de Batata e Vitela, Pudim de Ovos, Galo assado com Porto e Espigos, Alheiras (da Rosa e da Maria) na brasa, Feijoada Barrosã, Cabrito grelhado, Fogaças de Alcochete, Arroz de Bacalhau, Ovos (azuis, das galinhas do Delfim) mexidos com Chouriça e gordura de Presunto, Pudim de Mel de Urze, Costeleta Barrosã grelhada com Batata Kennebec no borralho…