Quando eu era pequeno, o tempo durava mais tempo. Era excessivo, cansativo, permanente. Eram as férias que nunca mais acabavam, as aulas que nunca mais começavam, as mesmas aulas que nunca mais terminavam.

As manhãs de sábado e domingo com demasiado tempo na cama (os pais ainda dormiam e, portanto, não podia haver barulho…). Depois, havia missa (demasiado tempo), ida a casa da avó (demasiado tempo), viagens até à província (demasiado tempo), refeições com a família na quinta (demasiado tempo), as noites antes dos jogos de rugby (demasiado longas)… Os velhos eram lentos e andar com eles gastava muito tempo. As conversas, não só eram aborrecidas como duravam muito tempo. A vida tinha que ser vibrante, rápida, emotiva, no limite. O que era novo é que era bom. Como esse sinal da grande condição humana, a música, que me inspirava e arrepiava, e que obviamente era o máximo, contrastando com a de outros velhos tempos, molengona, maçadora, parada. E assim, com tempo a mais, a vida foi passando, com muito mais alegrias que tristezas, muito mais sucessos que fracassos, muito mais arrogância que tolerância. E, de repente, começou a ser menos rápida.

De repente, quando entrei no meu Outono que caminha para Inverno, descobri, finalmente, que o tempo é pouco. E dei comigo a pensar no que já não vou ter tempo para fazer, no que já não vou voltar a visitar, no que provavelmente não voltarei a comer. Começo a ter saudades de quem vai desaparecer. Da música que não vou ouvir. Dos risos que vão cessar. A idade dourada, que nem sempre é de ouro, mas que tem que valer a pena.

Pois bem, sinto que os cabelos brancos juntos com a idade, também trazem coisas boas: esgotou-se a capacidade (por falta de tempo) para fingir ter paciência para aturar pessoas pouco inteligentes. Posso agora dizer tudo o que penso, como quero, a quem quero e quando quero. Não tenho que ser escravo de modas, políticas, religiões ou coerências. Não tenho que fazer salamaleques a alguns jornalistas/escribas(?) que, sem saberem quase nada, dão opiniões sobre tudo e pretendem comer sem pagar no maior número possível de restaurantes, para depois massacrarem o papel ou o ecrã, com meia dúzia de frases feitas, que parecem ser filhas dilectas de um enorme monstro feito de banalidades.
Por outro lado, vantagens da velhice, é com um profundo sentimento de antecipada satisfação que, de vez em quando, me preparo para entrar num daqueles restaurante onde querem, custe o que custar, estar naquilo que acreditam piamente ser moda. É garantido, então, que me vou deparar com vários cozinheiros (tatuados), com um ar pouco limpo, que levitam suavemente pela cozinha (aberta) armados com as inevitáveis pinças e espátulas… Satisfeito comigo mesmo e, sem me deixar abater pelo cansaço provocado pelo óbvio, tento imaginar como vai ser o inevitável primeiro acto (ao mesmo tempo que vou relembrando, com prazer, um qualquer percurso pedestre pelas terras do Barroso, em busca de um prato de comida normal para pessoas normais). E, claro, confirmando a minha expectativa, rapidamente se aproxima um jovem barbudo, para me perguntar, com um ar muito sério, se tenho alguma alergia… e eu, que já não preciso de disfarçar o aborrecimento, respondo de imediato que sou alérgico à estupidez e ao lugar comum. Depois, segue-se uma parada de pratos redundantes, com comidas todas parecidas e explicações supostamente eruditas (mas que não passam de balbucios incoerentes) e maçadoras instruções sobre como comer e qual a ordem correcta. Pois é. Todos sabem tudo. E eu, que continuo a saber pouco, tenho cada vez menos paciência para quem acha que já sabe o suficiente.
Embora com menos tempo, insisto em procurar. E, sintomaticamente, continuo a encontrar muito. O moderno espectacular. O moderno aterrador. O antigo cansativo. O antigo genial. O actual promissor. O actual decrépito. Este meu mundo da cozinha vai andando, saltitando, bailando de moda em moda. A réplica, que quando não identificada se transforma em cópia, deveria ser (graças à sociabilidade das redes) cada vez mais fácil de detectar. Mas a verdade é que o El Bulli (onde fui três vezes) já foi há muito tempo e insistir em repetir o que foi novidade em 1999, 2000, 2001, apresentando-a outra vez como novidade e esperando que a memória (que realmente vai falhando) já não funcione, é desonesto.

Nesta vida quase sem tempo, novidade é a descoberta do que está quase perdido. Novidade é a manutenção da grande memória. Novidade é o respeito sério pela nossa cultura. Novidade é parar de dizer que a doçaria conventual tem que ser adaptada aos tempos modernos. Novidade é ensinar e explicar sem titubear, que este mundo dos tachos não é fácil, não é dourado, não leva quase nunca a um grande sucesso. Mas, será que temos também que só procurar a novidade? Que é dela que nos vamos alimentar? Não. Temos que perceber que o mais importante de tudo, é saber ter tempo. E gastá-lo, aproveitando-o. Para estudar, para descansar, para passear, para elucidar, para perguntar. Temos que o estimar, regar cuidadosamente, para ver se cresce. O tempo para rir e chorar. Para amar e conhecer. Para olhar e entender. Para ouvir e compreender. O tempo para a família. Para os novos e, principalmente, para os velhos. O tempo para refletir, introspecionar a nossa passagem pela terra e, se possível, para aproveitar o melhor possível, a dose que nos resta.
O tempo, esse magnífico sacana. Bem que podia parar.

Texto original publicado na INTER 255.

 

*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico