Quero mesmo acreditar que o mundo está melhor (lá veio mais uma metonímia…), mais solidário, mais tolerante, mais culto, mais compassivo.
Mas o mundo tem pessoas. E as pessoas têm obsessões. Crenças. Preconceitos. Lados díspares. Espelhos que confundem compaixão com vingança. Os que têm tudo, detestam os que não têm nada. Por medo, incómodo, nojo. Os que nada têm, abominam os que tudo têm. Por medo, inveja, fome. E, na cegueira do “progresso”, no perturbado caminho para uma estranha forma de (in)civilização, os novos cruzados das caducas religiões e os novos crentes na inexistência de valores, aliam-se, numa espiral destrutiva, às alterações climáticas (evidentes para todos, até para os mais cépticos), às manipulações genéticas dos alimentos, à trágica normalização conseguida com a obliteração da diversidade, à tentativa criminosa de aniquilação da diferença. Humilham-se os mais fracos (cretino passatempo tão em voga nas televisões do mundo e, infelizmente, nos últimos anos, também nos programas com cozinheiros) e idolatra-se a soberba, a injustificada auto-promoção, a arrogância de quem sabendo quase nada acha que deve opinar sobre quase tudo. A imitação despudorada, cópia desenfreada, roubo de ideias e processos criativos não parece justificar qualquer vergonha desde que traga cinco segundos de fama. A “grunhice orgulhosa” instala-se e transforma-se em doloroso pesadelo, a que parece não escapar quase ninguém independentemente da área em que se atole.
E, como não podia deixar de ser, também na política, tanto, cada vez mais, parece mal: sobre os pobres americanos liderados por esse hino à boçalidade chamado Trump, não está ainda nada dito do muito que, infelizmente, vai haver para dizer. Em África, caminha-se de tragédia em tragédia e de extinção em extinção, com minoritários oásis que não parecem ter grande capacidade de resistência. Os construtores/arquitectos de uma nova Europa, tanto tentaram dissipar as saudáveis diferenças que apenas conseguiram colocar quase todos num estado de total insatisfação, fazendo renascer pesadelos xenófobos neo-fascistas colaboracionistas como a Frente Nacional em França (esta crónica está a ser escrita antes das eleições em França), ou mergulhando na ilusão securitária do regresso a velhas ditaduras de esquerda e direita onde, mais umas vez, nacionalismos radicais vão, se não se acordar a tempo, levar ao regresso a episódios trágicos que se julgavam para sempre erradicados. Temos depois a burrice do Brexit e dos seus instigadores, as amplas liberdades da Coreia do Norte, da Venezuelana, do Yemen ou da Hungria, temos as falsas democracias, os regimes teológicos, os simplesmente selvagens, os assumidamente criminosos, ou os tão liberais que sonham com um mundo perfeito onde muito poucos têm tudo e quase todos nada têm.
E no entanto… tal como na pequena aldeia gaulesa (que me ajudou a crescer) existe um espaço em que alguns irredutíveis vão resistindo à imbecilidade quase generalizada… Um cantinho, com beira-mar, beira-serra, beira-rio e beira-campo. Onde tanta tradição vai resistindo à aceleração dos tempos passantes. Onde subsistem vales encantados, com olivais, vinhas e citrinos, ou planaltos que mantêm uma antiquíssima rotação cereal/pousio. Onde muitas pessoas ainda conversam, ainda se ouvem, ainda se preocupam, ainda se emocionam. Com o simples, as cores da passagem das estações, o som das variações do tempo, a preparação de tudo o que tem que ser aproveitado pois nada se pode estragar. Guarda-se o pão (para sopas, migas, açordas), guarda-se a fruta (para caldas, compotas, picles, concentrados), guardam-se as carnes em alturas de alguma abundância (para fumeiros, rojões, curas naturais), guarda-se o feijão, por vezes com as suas cascas (para guisados, cozidos, butelos). Os mais modernos reconhecerão espantados, a conservação de tubérculos dentro de terra, feito desde sempre ao longo de todo o norte de Portugal. Os mesmo modernaços maravilhar-se-ão com a quantidade de ervinhas e florzinhas que os velhos e velhas continuam a recolher, a guardar, a utilizar em indescritíveis e hiper imaginativas infusões, mezinhas e rezas, rituais de cura quase pagãos, herdados de um tempo de brumas, narrativas, feitiçarias, simplicidade, obscurantismo, que se calhar é mais parecido com o tempo de hoje, do que, à primeira vista, se possa pensar.
Neste cantinho, irredutível, teimoso, pouco comovido com os ditames dos escravos burocratas que só pensam em prestar vassalagem desavergonhada ao poder económico, há história própria, orgulhosa, antiga, que soube resistir a tantos e tão maus condutores. Uma história que tem muito para nos orgulhar e (obviamente) muito para reparar. O que nessa história é bom, e que devemos todos querer manter, tem que ser gritado, ensinado, relembrado, acarinhado, divulgado diariamente. Divulgar, por exemplo, que com grandes dificuldades, se vão mantendo, apesar da tentativa de aniquilação e olvido, raças diferentes e diversas de galinhas, de ovelhas, de cabras, de vitelas… Vão-se mantendo variedades de grão, inúmeras de feijão, algumas de batatas, bastantes de cereais. Oliveiras, Macieiras, Cerejeiras, Citrinos… Variedades ainda não contagiadas pela alteração supostamente vantajosa das características genéticas e que, portanto, têm mesmo que ser recolhidas para que possam ser distribuídas por quem acredita (mais uma vez) na diversidade e não quer um mundo incolor, insípido e inodoro, perfeitinho, redondinho, lavadinho, xoninha.
E quem quiser (porque é apenas uma questão de vontade) utilizar um pouco do seu tempo, para perceber como o mundo a sério está fora dos grandes centros, não pode deixar de se apaixonar e de perceber que é uma obrigação social/moral/política, explicar aos felizes detentores de tanta pérola genética, de tanto conhecimento quase instintivo, de tanta riqueza epistemológica, que na verdade não são pobres. São mesmo ricos. Quiçá milionários! E que aquilo que sabem, tem que ser passado aos outros. E que aquilo que fazem (sejam canções, enchidos, facas, potes, histórias…) não é corriqueiro. Na verdade é mesmo extraordinário, único. Tem que ser divulgado, mas antes tem que ser valorizado para que quem faz não desista, não a abandone a favor de mais uma qualquer quinquilharia chinesa, americana, nórdica ou australiana.
É, por isso, que a política do “se não dá dinheiro, tem que ser extinto” é tão ridícula, tão reacionária, tão estúpida, que quem a defende (esquerda, direita ou centro) está a contribuir alegre e decisivamente para o nosso inexorável extermínio. E portanto é uma besta! E assim deverá voluntariamente ir viver na companhia das outras bestas que idolatra.
Este país fez-se com as pessoas, o clima, a terra. Fez-se com as invasões, as ocupações, as partidas, os regressos. Com os Mouros, Suevos, Vândalos, Romanos, Gregos, Fenícios… Fez-se de risos e choros, velhos confortados por novos, novos ensinados por velhos. Fez-se de cultura, orgulho, sentido de pertença. Não o queiramos transformar em algo que não merece. Eu, no que puder, não vou deixar!
Texto original publicado na INTER 256.
*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico
