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	<title>Olga Cavaleiro, Autor em Etaste</title>
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	<title>Olga Cavaleiro, Autor em Etaste</title>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Os Não Alimentos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Dec 2020 11:20:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Quantas dores de barriga, quantos desarranjos de estômago, quantas mortes aconteceram até percebermos o que podíamos comer e o que deveríamos rejeitar. Sim, porque se o exemplo mais óbvio é o dos cogumelos e mantemos, após tantos séculos de “experiências” e de conhecimento, tantas reservas em relação ao que vamos encontrando, facilmente poderemos pensar no mais comum dos alimentos.</p>
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<p>Às voltas na escrita, indecisa no que escrever que os tempos são de desafio voraz e persistente, lembrei-me de como os não alimentos davam uma história. Penso muitas vezes no quanto foi preciso experimentar até concluirmos que certos produtos seriam alimento e outros nem por isso. Quantas dores de barriga, quantos desarranjos de estômago, quantas mortes aconteceram até percebermos o que podíamos comer e o que deveríamos rejeitar. Sim, porque se o exemplo mais óbvio é o dos cogumelos e mantemos, após tantos séculos de “experiências” e de conhecimento, tantas reservas em relação ao que vamos encontrando, facilmente poderemos pensar no mais comum dos alimentos.&nbsp;</p>



<p>Quantos séculos demorámos a perceber um produto como alimento. Sim, porque uma coisa é termos o produto, outra será percebermos esse mesmo produto como alimento. E essa é uma história fascinante. Terá sido a necessidade de que nos levou a perceber as urtigas como alimento bom. E terá sido a abundância que tirou as urtigas da nossa mesa. Ainda há poucos anos se comiam saramagos e outras plantas hoje consideradas daninhas, hoje privilegiamos outros vegetais. A perda de estatuto das urtigas e dos saramagos nunca esteve relacionada com os produtos em si.</p>



<p>Terá sido uma aventura engraçada aquela de ir experimentando as várias partes das plantas. Gosto de ir pensando nas caras feias, nos vómitos, nas más disposições de várias ordens, nas cefaleias e até espasmos que muitos dos nossos antepassados devem ter experimentado com as várias provas que iam fazendo. Pensemos nas folhas do tomateiro. Ora, acredito que depois de vencida a resistência e desconfiança contra aqueles pequenos frutos que tanto sabor trouxeram à panela, se deve ter experimentado as folhas como alimento. É claro que a experiência não deve ter sido a melhor, dado que as mesmas são revestidas de um repelente viscoso destinado a afastar os insetos dispostos a importunar os belos e saborosos frutos.&nbsp;</p>



<p>Aliás, esta minha ideia lembra-me a história da entrada das batatas na mesa no Império Britânico. As batatas quando foram oferecidas à rainha Isabel I, o cozinheiro real usou as folhas em vez do tubérculo o que levou a um indisfarçável desagrado da monarca. Foi preciso esclarecer qual a parte comestível para que as batatas ganhassem a confiança e a admiração.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Estamos muito habituados a comer as vísceras dos porcos, das galinhas, dos cordeiros e dos cabritos. Em dia de matança do reco comemos o fígado, os rins, o coração, os pulmões até ficarmos “com os bofes de fora”. Sem preconceitos. Lá fomos arranjando maneira de comermos estas partes internas sem problemas de maior… E a língua da vaca? Petisco imperdível. E os intestinos, buchos e bexiga dos porcos? Ideais para encher os maravilhosos enchidos, não cabe pela cabeça recusá-los como alimentos. E o sangue? Bem, do porco até para fazer mimos doces é usado. Já o de galinha, em algumas regiões do nosso país vai direto para a terra. Não alimento, portanto.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>É claro que não terá sido pacífica a aventura do homem no que à conservação da carne diz respeito. Não terá sido por inspiração divina que os homens atingiram o ponto ideal para o fumeiro e salga das carnes. Quantos dias de tempero, de salga, de fumeiro? Não é à toa que os buchos e as bexigas se comem no Carnaval… e a mostrar a boa gestão da casa, algumas chouriças da matança passada devem durar até ao próximo dia 30 de Novembro, dia de Santo André em que se agarra o porco pelo pé.&nbsp;</p>



<p><br></p>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Guisado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Nov 2020 11:42:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Talvez seja hora de recuperar o guisado, em todo o seu esplendor e dignidade. Ele merece uma ovação e merece deixar de ser considerado a receita provinciana reflexo de um Portugal “pobrezinho, mas honrado” estigmatizado por uma cultura política e social que nos temos esforçado por esquecer.</p>
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<p>Talvez seja hora de recuperar o guisado, em todo o seu esplendor e dignidade. Ele merece uma ovação e merece deixar de ser considerado a receita provinciana reflexo de um Portugal “pobrezinho, mas honrado” estigmatizado por uma cultura política e social que nos temos esforçado por esquecer.&nbsp;</p>



<p>Pensando bem, devíamos fazer uma homenagem ao guisado e pô-lo num pedestal. Porque não? Se foi ele que deu a festa quando o quotidiano era frugal e escasso de diversidade. Os dias eram marcados pela repetição sentida de couves, batatas, feijão e pão apenas adornados por uma peçazinha da salgadeira. O cheiro ao estrugido da cebola, alho, azeite, louro, salsa com a carne disponível onde o vinho dava o toque final anunciava sempre conduto melhorado. Era uma bênção, era uma festa. Ou a singela galinha que era riqueza dos pobres guardada apenas para momentos especiais. Ou uma peçazinha de caça como o coelho que acabava sempre acompanhado de um arroz ainda hoje lembrado com saudade. Ou, riqueza das riquezas, um cabritinho ou um borrego, privilégio de quem os tinha e se dava ao luxo de os sacrificar à abundância do momento penhorando o proveito da venda do leite, da lã ou das crias. Ou das fressuras que acabavam na panela sem vergonha e com muito sabor. Até o sangue era guisado acompanhado dos suspeitos do costume. Dia de guisado não acontecia todos os dias, mas quando cheirava na cozinha era porque havia razões para festejar, fosse ela o santinho ou a santinha padroeira da terra, a boda, o domingo, a Páscoa ou o Natal.&nbsp;</p>



<p>Só por isso, porque deu festa, alívio a uma pobreza malvada, alento para os dias que escureciam cedo, o nosso guisado merecia uma homenagem nacional. Até os olhos brilham quando os mais velhos recordam os dias em que o guisado aparecia na mesa. Nem a pobreza mais desgraçada resistia ao encanto, à abundância deste guisado. </p>



<p>Ao contrário do que se poderia pensar, não eram os assados os pratos dos dias de festa. Para além das casas ricas, quem era o pobre desgraçado que tinha um forno em casa para fazer um assado? O forno, aquele onde se cozia o pão e se podia fazer o assado, era comunitário e não estava disponível para todos. Pois, era com o lume que crescia e aquecia a casa que se faziam estes guisados que, só com o cheiro, alimentavam ao mesmo tempo que faziam crescer água na boca. Por isso, se usavam aquelas panelas de 3 pernas onde os ingredientes conviviam pacificamente até o gosto estar apurado. E incrível como este guisado “supria mais”, ora pois! Os sucos da carne a cozinhar lentamente amparados pela base de todos os refogados: o azeite, o alho, a cebola. E o louro, a salsa, ou o serpão, ou a segurelha ou a hortelã. Nada se desperdiçava nesta cozedura lenta, tudo ficava na panela e servia de base para o caldo que iria deixar guisar as batatas, o arroz ou a massa cuja quantidade logo dependia do tamanho da família. Por isso, o guisado “supria mais”, ainda que a carne não abundasse, o caldo do guisado, com todos os sucos apurados, daria sabor às muitas ou poucas batatas ou arroz.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Era uma farturazinha controlada, que as famílias eram grandes e o conduto tinha de dar para todos. Mas claro que era o guisado! Que de outro modo, para além do cozido era possível conseguir aproveitar tudo o que a carne tinha para dar? Esta moda dos grelhados já vem num tempo em que a abundância alimentar permite desperdiçar os sucos que se esvaem nas brasas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Os sorrisos, o brilho nos olhos, a agitação das mãos e o avivar da memória das mães e das avós que “nunca deixavam passar os dias de festa sem aquele comerzinho melhorado” deixou-me com a certeza de que temos uma dívida para com o Guisado. E as Beiras sabem disso, a festa do povo beirão é no guisado que encontra o seu final feliz. Vamos celebrar o Guisado Beirão?</p>



<p><br></p>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Açorda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Oct 2020 20:52:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nascida mesmo à beira dos arrozais, habituada a ter mais um tacho de arroz do que uma açorda, um ensopado ou uma miga sobre a mesa, não sabia do encanto das açordas até as provar e de perceber que é magia o que se faz com pão, um caldo e um bom tempero. Não me esqueço do tempo que os meus amigos alentejanos passaram a tentar explicar-me como a açorda é uma coisa simples e não se confunde com outras receitas.</p>
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<p>As açordas da minha vida. Aquelas que já provei e aquelas todas que ainda hei-de provar. Pelas açordas de cada pedacinho deste país, que não é só no Alentejo que elas existem. Por isso mesmo, quero falar de açordas. Quero por tudo o que disse e porque percebo que a açorda é a próxima vítima da moda da gastronomia portuguesa, uma espécie de “typique” ao contrário. O mesmo aconteceu ao bacalhau à lagareiro, às migas, ao bacalhau com broa, às caldeiradas, ao arroz de marisco e agora é a açorda que se perfila para ser estandardizada numa receita que fica bem numa ementa de um qualquer restaurante do nosso país. Emblema gastronómico nacional abunda por aí, mas na maioria dos casos, muito mal feita.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Nascida mesmo à beira dos arrozais, habituada a ter mais um tacho de arroz do que uma açorda, um ensopado ou uma miga sobre a mesa, não sabia do encanto das açordas até as provar e de perceber que é magia o que se faz com pão, um caldo e um bom tempero. Não me esqueço do tempo que os meus amigos alentejanos passaram a tentar explicar-me como a açorda é uma coisa simples e não se confunde com outras receitas. “Então menina, faz um piso”, “um piso?” perguntei eu. “Sim, um piso com sal, coentros, alho. Por cima o azeite e o pão e só depois a água fervida. Isto é uma açorda!”. Não descansei até provar a açorda que estes meus amigos do Baixo Alentejo me tentaram ensinar. Simples e tão bom, aprendi eu.&nbsp;</p>



<p>Depois fui a cantarolar pensando que tinha descoberto o santuário das açordas. Sentia-me sábia com tão sápido ensinamento. Mas mal passei o Tejo, descobri a açorda de peixe do rio acompanhada de peixe frito. Exclamei: uma açorda? Parecem umas migas… Não menina, é uma açorda. E o melhor é que esta açorda tinha um sabor extraordinário, viciante, capaz de criar gula até naqueles que nada percebem de gastronomia. Disseram-me que era do poejo. Comi envergonhadamente o último bocado na travessa e suspirei por perceber que não iria repetir a experiência nos tempos mais próximos.&nbsp;</p>



<p>Pensei que tinha de descobrir as açordas no Norte. Comecei pelos receituários imperdíveis e, fascinada, dei comigo a imaginar aquelas açordas que às vezes me pareciam migas e aquelas migas que mais pareciam açordas. Não me saem da cabeça as Migas Ripadas que, nitidamente, são uma açorda e ainda não perdi a esperança de as reproduzir na minha cozinha.&nbsp;</p>



<p>Nas minhas voltas pela Beira Alta dei com uma receita que parecia saltar de um lado para o outro sempre com pequenas variações, mas com um princípio fundamental: água temperada com sal e alho para cozer o sangue do porco. Pão (de centeio) embebido nesta água, sangue esfarelado por cima e alho fervido em azeite ou banha (consoante a abundância da oliveira) a tchiar por cima daquele pão. Uma açorda pensei eu, afinal este sarrabulho é uma açorda.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Sou uma aprendiza em relação a açordas e a migas, mas fico triste, tão triste com o que vou encontrando por aí a dizer-se de açorda! Curiosa e gulosa ganhei o hábito de experimentar açorda sempre que as cartas dos restaurantes me proporcionam. Mas, infelizmente, percebi que a maioria dos exemplares disponíveis são umas mixórdias mal-paridas feitas a partir de caldos destemperados de tanto picante que têm em que uma espécie de pão é misturado e embebido sem pudor nem respeito pela palavra açorda. Já desisti de provar.&nbsp;</p>



<p>Temo que aconteça com a açorda o mesmo que aconteceu com outros exemplares da nossa gastronomia. O uso e abuso de uma receita e do conteúdo cultural que ela encerra leva a que nem sempre o resultado seja merecedor da atribuição dada. É caso para dizer: vamos salvar a açorda? Tenho muitas ideias para isso. Até porque acredito que a gastronomia portuguesa é como a açorda, abebera e deixa-se abeberar. Mas isso, são palavras para outra conversa. Mas sim, vamos salvar a açorda.&nbsp;&nbsp;<br></p>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Maracujá</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Sep 2020 09:50:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Oriunda da América do Sul (a maior variabilidade genética encontra-se no Brasil), esta planta correu mundo através das viagens marítimas dos espanhóis e portugueses.</p>
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<p>Conheci primeiro a flor e depois o fruto. E apaixonei-me. Não por ser a flor da paixão, mas pela extrema beleza e aroma. O aroma que me levou a querer comer o fruto. Não descansei, por isso, até provar um maracujá. Lembro-me do embaraço, como comer um fruto que não se descasca? Como sorver aquelas sementes envoltas de um creme gelatinoso? Há uns anos, era fruta exótica, pelo menos para nós que vivemos pelo Continente. Já para os Madeirenses e Açorianos é fruta boa que conhecem há muito.&nbsp;</p>



<p>Escrevo estas palavras com as mãos a cheirar a maracujá. Estão soltas e inspiradas, por isso, caminham sozinhas para além do pensamento e vão atrás das diferentes designações de uma das minhas frutas preferidas. Maracujá para nós desde o primeiro contato, “fruto de la pasión” e “<em>granadilla</em>” para os espanhóis. Os franceses e ingleses seguiram o tema e chamaram-lhe “<em>fruit de la passion</em>” e “<em>passionfruit</em>”, respetivamente.&nbsp;</p>



<p>A viagem que este fruto fez pelo tempo e pela geografia conta-nos as razões de tão diferentes vocábulos. Em 1587, Gabriel Soares de Sousa, na sua viagem pelo Brasil, relata minuciosamente tudo o que vê. Entre o imenso mundo que descreve lá estão os maracujás. Fala das virtudes terapêuticas das folhas, da beleza muito formosa da flor, do bom cheiro dos frutos e do suave sabor. Desde o primeiro contato com esta fruta, é certo que absorvemos o vocábulo “<em>maracujá</em>” das tribos indígenas Tupi e Guarani que povoavam o Brasil.&nbsp;</p>



<p>Se o tema da paixão escolhido pelos espanhóis para descrever a flor e o fruto nos parece levar para o reino sempre encantado do amor, a verdade é que eles falavam de uma “paixão mística” e os propósitos de tal estavam relacionados com a evangelização dos povos indígenas que tão sofregamente quiseram domesticar. “La Flor de las cinco Llagas”, era assim descrita e interpretada pelos jesuítas espanhóis que ofereceram exemplares ao Papa Paulo V (que presidiu ao julgamento de Galileu Galilei). Símbolo da paixão de Cristo, a flor do maracujá foi tida e interpretada por descrever cada momento do martírio no momento da Crucificação. Motivos à parte, o tema da paixão nunca mais abandonou a flor e o fruto. Carl Nilsson Linnaeus recorre ao vocábulo <em>Passiflora</em> (flor da paixão) para a classificação botânica daquela planta.&nbsp;</p>



<p>Oriunda da América do Sul (a maior variabilidade genética encontra-se no Brasil), esta planta correu mundo através das viagens marítimas dos espanhóis e portugueses. Não só a flor atraía curiosidade, como o fruto suscitava interesse. Sabemos que em 1818 é descrita a sua produção em Inglaterra com sementes de maracujá que os portugueses trouxeram do Brasil e fornecem aos ingleses.&nbsp;</p>



<p>Felizmente que não soubemos apenas levar para outros destinos, mas que experimentamos a sua produção em território português. A Madeira e os Açores são locais de reputada produção, tomando neste último a proteção Denominação de Origem Protegida. Uma planta tão versátil pelos usos ornamental, alimentar e farmacêutico, só poderia ser de produção regrada obrigando a cuidados extremos em todas as fases. Sublinho o pormenor da polinização já que as flores tão lindas e perfumadas apenas estão recetivas durante um dia no período mais quente do mesmo e dependem muito da presença de insetos polinizadores como os abelhões, e besouros. Já as abelhas, que pelo tamanho não conseguem depositar o pólen nas outras flores, são desviadas para as sebes de rosmaninho e de urze de forma a não perturbarem este processo. Um dia a fazer a diferença na vida de uma fruta tão boa.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Para mim, pelo aroma e sabor intensos, continua a ser o fruto da paixão, mas agora que sei a sua história, gosto de lhe chamar Maracujá.</p>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Ananás</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2020 14:09:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Tem coroa e não é rei, tem escamas e não é peixe”. É o ananás, pois com certeza. Se não é o rei dos frutos pelo sabor e pelas suas qualidades tão prestáveis à nossa saúde, o seu aspeto elegante, imponente e farfalhudo dá-lhe ares de majestade.</p>
<p>O post <a href="https://etaste.pt/opiniao/olga-cavaleiro-palavras-com-sabor-a-portugal-ananas/">Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Ananás</a> aparece primeiro no <a href="https://etaste.pt">Etaste</a>.</p>
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<p>“Tem coroa e não é rei, tem escamas e não é peixe”. É o ananás, pois com certeza. Se não é o rei dos frutos pelo sabor e pelas suas qualidades tão prestáveis à nossa saúde, o seu aspeto elegante, imponente e farfalhudo dá-lhe ares de majestade. A sua forma com os pequenos bicos sempre me fez lembrar aquelas gargantilhas e lenços muito armados com que reis, rainhas e nobres poderosos se faziam apresentar na corte. Definitivamente, assenta-lhe bem o ar real.&nbsp;</p>



<p>Sei, no entanto, que Cristóvão Colombo, a 4 de Novembro de 1493, ao receber este fruto dos nativos de Guadalupe (Pequenas Antilhas) como um sinal de boa hospitalidade o batizou de pinha (<em>piña</em>) pelas parecenças deste fruto com uma pinha, fruto do pinheiro. Já os ingleses ao conhecerem este fruto começaram por lhe chamar “<em>pine-cone</em>” (tradução de pinha), sendo que mais tarde, substituíram por “<em>pine-apple</em>”, provavelmente porque considerarem mais adequado tendo em conta o miolo do fruto.&nbsp;</p>



<p>Os estudos botânicos dizem-nos que a origem da domesticação deste fruto está no Brasil e no Paraguai. Acreditam os investigadores que a sua disseminação pela América do Sul ficou a dever-se às migrações e trocas entre tribos nativas. Ainda, sabemos que é em território brasileiro que se encontra maior diversidade genética o que, não só reforça aquele país como o epicentro da origem, como também nos diz que lá se encontram outras espécies do género Ananás. Por isso, no Brasil faz-se a diferença entre o fruto abacaxi e o fruto ananás, se o primeiro diz respeito a frutos de melhor qualidade e a variedades mais conhecidas, o último é usualmente utilizado para descrever a variedades não cultivadas (selvagens) e de qualidade inferior.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Em Portugal, é frequente ouvir que o que circula pelo mercado e pela maioria dos restaurantes é abacaxi e não ananás como se um tivesse mais qualidade do que outro. Na verdade, tal tem mais a ver com a origem e com o modo como a fruta é produzida do que com graus de qualidade. O uso da designação “abacaxi” está circunscrita ao Brasil e Paraguai, já a designação universal do fruto abacaxi é Ananás ou “<em>Piña</em>”. Nós, portugueses, não desmerecendo a importância e o sabor do abacaxi, preferimos o “nosso” ananás que nos chega da Ilha de São Miguel (Açores) e cujo processo de produção envolve tantos e tantos cuidados. Habituámo-nos a esta deferência perante um fruto que demora 24 meses a completar o ciclo de produção e que obriga a um trabalho permanente e quase pessoal de quem dele cuida de forma a criar as condições desejadas. Em estufas de madeira e vidro caiadas de branco (para proteção dos raios solares diretos na planta), a produção de ananás é feita em solo artificial a permitir o arejamento. São as conhecidas “camas quentes” que são feitas com leiva, lenha, terra velha, serradura e aparas de madeira. Na história da produção do Ananás de São Miguel entra o pormenor do “fumo” para ajudar a floração simultânea de todas as plantas dentro da estufa. Logo que a planta está adulta e dura é aplicado a queima de materiais vegetais como ramada, criptoméria, folhas de bananeira e palha de feijoeiro.&nbsp;</p>



<p>É longo o processo como é longa a história deste fruto que por ser tão exótico quando chegou à Europa era alugado para ter no centro da mesa como sinal de riqueza e prontamente devolvido após a exibição. Mas não resisto dizer que nós portugueses tivemos uma importante expressão na sua divulgação pelo mundo. Através das nossas viagens marítimas levámos o ananás para África, Índia e China e, claro, para os Açores! Numa receita inglesa de tarte de Ananás (“<em>tart of the ananas”),</em> 1736, é sugerido juntar Vinho da Madeira a este fruto tão saboroso. Dupla extraordinária… Quem quer experimentar?</p>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Tomate Capucho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jul 2020 09:55:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Para além de Tomate Lagartixa, também recebe a designação de Tomate Barrela na Costa Norte da Ilha. Talvez esta designação se fique a dever à antiga utilização da baga ainda verde como elemento fundamental nas barrelas.</p>
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<p>Entretida a olhar a pequena baga amarela que espreita por entre aqueles véus feitos pétalas protetoras, dou comigo a pensar como os nossos preconceitos encolhem a nossa visão da geografia dos produtos. Ainda mais agora, que descobrimos que é bonito valorizar o autótone, o local, o daqui e o dali, o que é nosso. Genuíno dizemos, pensando que os produtos são filhos de uma única geografia e propriedade de uma única latitude. A verdade é que não é bem assim. Vem-me tudo isto à cabeça enquanto desfolho a Capucha e olho demoradamente aquele amarelo tentador antes de o pôr na boca. Mais conhecida por <em>physalis</em>, é pormenor em receitas requintadas e provoca a admiração pela beleza do pequeno fruto que se descobre por entre as delicadas sépalas que lhe servem de abrigo. Curiosa, vou procurar mais informação sobre este fruto tão formoso e descubro a sua origem para lá do Atlântico na região Andina. Um presente que há muito chegou à Europa vindo da América do Sul e que se sabe existir nos Açores, pelo menos, desde meados do século XIX. Edmond Goeze (1838 &#8211; 1929), jardineiro do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra aquando de uma expedição à Ilha de São Miguel, em 1866, descreve esta planta e os seus frutos entre as mais de 3000 espécies presentes no jardins encantadores do Sr José do Canto. Sabemos, por isso, que a presença desta planta por aquela ilha não é recente. Talvez esse passado explique a forma carinhosa e delicada como que tratam aquele fruto ao qual chamam de &#8220;Rebuçado&#8221;. De facto, por entre o embrulho de folhas transparentes, lá se encontra o gomo luzidio que parece mesmo um rebuçado. Descrito nos manuais botânicos como uma espécie bastante resistente a pragas e doenças, é uma planta que não pede muitos cuidados e chega a ser espontâneo no ciclo de produção. É, por isso, frequente encontrá-la, na Ilha de São Miguel, por entre vinhas e pomares onde recebe, ainda, a designação de tomatinho-da-capucha. Na classificação botânica, este fruto pertence à família das <em>Solanacea</em>, a mesma dos tomates o que, decerto, explica que nos Açores ele receba aquela designação e na Madeira seja chamado de Tomate Lagartixa. O naturalista inglês Richard T. Lowe (1802 &#8211; 1874), que estudou a flora do Arquipélago da Madeira, refere a existência em abundância desta espécie que crescia espontaneamente por entre as pedras basálticas e pelos caminhos das ravinas. Nos manuais botânicos refere-se que esta espécie está perfeitamente naturalizada na Madeira, quer no litoral, quer na média altitude. <br><br>Para além de Tomate Lagartixa, também recebe a designação de Tomate Barrela na Costa Norte da Ilha. Talvez esta designação se fique a dever à antiga utilização da baga ainda verde como elemento fundamental nas barrelas. Usadas para &#8220;corar&#8221; a roupa branca, ou seja, torná-la ainda mais branca, incluíam os pequenos tomates ainda verdes que, ricos em alcalóides solanina e solanidina, ajudavam neste processo de branqueamento dos tecidos. Deliciada com aquele banquete de Capuchas (ou &#8220;Rebuçados&#8221;, a minha designação preferida), regressei à minha reflexão sobre as plantas que gostamos de dizer &#8220;que vieram de fora&#8221; como se fosse fácil definir o que é &#8220;nosso&#8221; e o que não é. Na verdade, a história da alimentação é um longo desfiar de produtos que foram aclimatados e adaptados a diferentes geografias. A vontade de provar diferente e de variar a alimentação sempre criou no homem a ambição de superar a ausência. E, neste caminho, levaram-se e trouxeram-se sementes, fizeram-se enxertias, cruzaram-se plantas diferentes. E, por vezes, quando assisto a conversas onde se debate a entrada de novas plantas como se tal fosse um sacrilégio eu penso nas muitas plantas que ao longo do tempo fomos buscar ou que alguém deixou. Penso em como somos muito mais felizes com as laranjas vindas da China, como devemos estar gratos pela herança árabe do limão, como a Idade Moderna representa um salto na alimentação com os produtos vindos do Novo Mundo. Enfim, como somos mais ricos com todos os produtos que viajaram até ao nosso território e aqui se naturalizaram. Gritar a destruição da paisagem com a plantação de novas plantas é não perceber que, desde que escolhemos a agricultura como modo de vida, mudamos a paisagem de acordo com os nossos desejos alimentares. Não há paisagem original. Existe apenas aquela que decidimos naquele momento segundo o nosso gosto e apetite. E tudo isto, porque o Verão é generoso e generosa foi a Isabel que me trouxe estes &#8220;rebuçados&#8221;&#8230;. Viva o Verão!</p>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Douro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jul 2020 11:59:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O Douro é um rio que corre dentro de nós. Estamos longe sentimos saudades, estamos perto queremos mais. Os dias esgotam-se, mas o Douro está sempre lá para nós.</p>
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<p>O Douro é um rio que corre dentro de nós, como o sangue. Ora ferve, ora corre tranquilo e descansado. Não é preciso estar ao seu lado para sentirmos a sua força. Vive dentro de nós em cada curva, em cada margem, no granito e no xisto, no socalco, na vinha e na oliveira, na amendoeira e na figueira. Estamos longe e ainda é Douro, estamos perto e é o Douro que nos abraça. E nesse abraço cabem tantos pedaços daquele rio, daquele que escorrega pela Beira ao que se encosta a Trás-os-Montes.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Há uma Beira que namora o Douro e se põe à janela por entre os planaltos graníticos. Generosas, estas terras altas oferecem ao Douro os seus proveitos como a cereja, a maçã e a castanha. Frutos produzidos em altitude, têm no frio dos invernos rigorosos a melhor oferta para a necessária dormência das árvores. Já o calor dos verões sufocantes que o granito amplifica, faz a fruta doce, de cor e aroma intensos. Por isso, outrora, as maçãs que se guardavam para serem comidas fora do tempo delas, tinham a função de perfumar as casas pelo cheiro doce que deixavam pelas divisões.&nbsp;</p>



<p>Depois é o Douro Superior, assim denominado por em tempos ser inacessível o acesso a este troço do rio à conta de um monólito de granito retirado, somente, em 1780. O mais quente e o mais seco, enfiado que está numa região xistosa com pequenos apontamentos de granito vai desde o Cachão da Valeira até à fronteira com Espanha. Entendem bem os que por ali moram o que é viver “nove meses de Inverno e três de Inferno” com as amplitudes térmicas a queimar a pele, ora de calor, ora de frio.</p>



<p>Há quem fale do Douro Superior por causa dos vinhos que pelos predicados climáticos e de relevo apresentam caraterísticas invejáveis. Eu prefiro falar desta ponta extrema pelas amendoeiras que bordejam o alto dos montes ou se estendem pelas beiras do caminho. Gosto de imaginar o porquê das designações das variedades: “Bonita de São Brás”, “Marcolina”, “Dona Virtude”, “Boa Casta”. E, é claro, tenho a certeza de que somos mais felizes com a oferta que recebemos da Primavera, as amendoeiras em flor. Por entre aqueles pontos brancos floridos descobrimos o caminho até à terra onde a amêndoa atinge maior formosura. Estamos em Torre de Moncorvo e as “cobrideiras” fazem da sua arte de “cobrir” a amêndoa ressonância das ondas que batem na costa, lá longe. É um longo e suspirado marulhar que os dedos protegidos por dedais fazem ao bater nas amêndoas e no cobre. Entro no coração daquelas mulheres sempre que escuto aquele lento e arrastado movimento.&nbsp;</p>



<p>Tão diferente do Superior fica o Douro ribeirinho, de paisagem verde a fazer sentir o correr da água que nos mostra que o Rio nasce com um destino de chegar, de levar e trazer. Outrora, era esse o destino do Rio Douro, levar até à foz as amêndoas, os figos, as pipas com o vinho, as laranjas que caíam pela viagem, o azeite, a cortiça. E na volta trazia o que o litoral tinha para dar aquelas gentes habituadas mais à carne que ao peixe. O bacalhau, a sardinha salgada ou prensada e o polvo seco faziam o caminho para animar os dias de jejum.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O Douro é um rio que corre dentro de nós. Estamos longe sentimos saudades, estamos perto queremos mais. Os dias esgotam-se, mas o Douro está sempre lá para nós. </p>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Toiro Bravo de Lide</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2020 16:11:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Sempre que penso no altivo e forte Toiro Bravo de Lide gosto de pensar que nesta raça sobrevive uma réstea do Toiro primitivo selvagem que povoou a Europa há muitos séculos atrás.</p>
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<p>Sempre que penso no altivo e forte Toiro Bravo de Lide gosto de pensar que nesta raça sobrevive uma réstea do Toiro primitivo selvagem que povoou a Europa há muitos séculos atrás. No meio de toda a domesticação que impusemos aos animais dando-lhes comida e segurança em troca do seu trabalho e da sua vida, resistiu este animal nervoso, irrequieto, atlético, senhor da Lezíria do Tejo. É uma espécie de ligação ao que já não existe, é como se viajasse no tempo através da história deste animal. Sinto-me próxima do toiro que inspirou mitos e crenças fazendo da sua bravura modelo que ainda sobrevive na arte rupestre. No longo percurso em que amansámos os animais valorizando aqueles que cumpriam a nossa vontade, nesta raça bovina deixámos escapar, propositadamente, a rebeldia que nos davam através da bravura.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Mas se o Ribatejo é terra destes animais de porte altivo e pose brava, é também reino da sua contraparte, os campinos. Homens valentes que entendem e acompanham em bravura a nobreza do animal e com ele mantêm uma relação de igual para igual. O Toiro domina a lezíria e o campino domina o toiro numa relação constante de desafio e de respeito. Se por outras geografias, o animal deixou-se amansar mantendo uma relação de subserviência para com a vontade humana, pela lezíria e pela charneca o toiro manteve a sua independência na liberdade da corrida sob o olhar atento na guarda e condução do campino. Como o toiro desliza pela paisagem ribatejana como se dela fizesse parte, o campino é sombra suave que desenha o movimento que agita o tempo. Toiro Bravo e campino são pedaços iguais da mesma força, do mesmo desígnio, do mesmo destino.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>É preciso ser-se ribatejano, conhecer a lezíria e a charneca e a relação cúmplice entre toiro e campino para se poder falar destas figuras que são muito mais do que um cartaz turístico. Foi isso que senti na primeira vez que fui a Coruche e me vi no meio de uma conversa sobre esta Raça Bovina. Quem vem de fora não compreende aquilo que é natural para quem nasceu por entre histórias de valentia de campinos e gado bravo. Dos mais novos aos mais velhos, percebi bem o orgulho. Eu que nasci no Baixo Mondego, habituada à mansidão dos animais que conduziam os antigos “carros de bois” que transportavam o milho e o arroz, não percebia a força destes animais e, muito menos, sabia que os toiros bravos que via pelos campos do Mondego eram aqueles do Ribatejo.&nbsp;</p>



<p>A verdade é que a Raça Bravo de Lide, cujo solar está no Ribatejo, tem na sua área geográfica um ponto de produção em pleno Baixo Mondego. Mas por aqui o sentir é diferente, a relação não é de desafio, de igual para igual. Por aqui cultiva-se a distância entre homens e animais. Se para os ribatejanos, a festa é brava e do comer ao falar sente-se a presença da Raça Bravo de Lide, para os Baixo-Mondeguinos são só as “vacas bravas” que, em tempos não muito longínquos, entravam pela vila adentro e obrigavam a um súbito recolher obrigatório. Depois de fechados mesmo a tempo os portões, só se ouvia o estrondo das cornadas na madeira. A estratégia era sempre a mesma, evitar olhar, provocar e muito menos irritar estes animais de nervoso fácil. Ainda assim, muitos contam histórias de como escaparam a estes animais que pelo Ribatejo são animal quase totémico.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não esqueço um “encontro” que tive há uns bons anos em plena planície, mal sabia eu que tinha à frente um Toiro Bravo de Lide. A minha sorte ou o meu sangue frio foi que o nervoso animal lá desistiu de investir contra mim. Hoje, que penso nisso, até sinto uma pontinha de orgulho. Naquela meia hora em que estivemos a olhar um para o outro, soube dominar o medo e soube olhar para dentro do animal. Sem saber escutei séculos de evolução de uma raça que ainda faz sentir o vento quando passa pela lezíria. Longe estava de pensar que tinha perante mim o Bravo Toiro do Ribatejo.</p>
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		<title>Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal &#8211; Minho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jun 2020 15:09:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>É o Minho, o Lima, o Cávado, o Ave e todos os afluentes que nos atraem na certeza de que o oceano Atlântico para onde correm é o grande regulador do clima.</p>
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<p>“Guardado está o bocado para quem o há-de comer”. Sempre senti que iria chegar o dia em que estaria preparada para falar do Minho. Seria um bocado bom que haveria de ficar guardado para o dia certo. Acho que é hoje. Não sei se é pela paisagem em escadinhas preenchidas pelo cultivo do milho e vinha em latada, se é pelo bater forte dos bombos nas romarias, se é pela pronúncia e espírito de resposta pronta ou, simplesmente, pelos amigos que lá tenho, adoro o Minho. Do litoral feito de praias de mar batido e milheirais que vão areal adentro ao interior de calor sufocante a fazer notar a barreira física que o Marão e o Gerês impõem à brisa marítima, adoro todos os pedaços deste Portugal Minhoto.&nbsp;</p>



<p>Sempre que lá vou faço questão de contar os rios que atravesso e de os anotar na minha memória. É o Minho, o Lima, o Cávado, o Ave e todos os afluentes que nos atraem na certeza de que o oceano Atlântico para onde correm é o grande regulador do clima. Têm um quê de romântico as palavras de Mariano Feio que nos dizem que o Minho “é um amplo anfiteatro virado para o mar”. Sabe bem pensar que sim, que o nosso Atlântico deambula por todo o Minho e o perfuma com o seu ar salgado e bravio.&nbsp;</p>



<p>Drenado por tantos rios que engrossam com os muitos afluentes, o Minho tem em si a sabedoria de bem cozinhar os peixes nobres do rio como a lampreia, o sável e a lampreia. Apesar da abundância dos peixes do rio, gosto mais do peixe que vem dos mares do Norte e que aqui tem tradição antiga. Perco-me com o bacalhau, dos bolinhos ao “à Narcisa”, “à Zé do Pipo”, “à Gomes de Sá”, à moda de… de todos os cantinhos do Minho.&nbsp;</p>



<p>Mas o que me fascina mesmo é o milho. O milho que cresce à beira do mar, na leira empoleirada e sobreposta e que deixa memória através dos espigueiros que fazem lindas sombras ao crepúsculo. Levado para o Noroeste logo após a sua chegada à Península Ibérica, o milho grosso ou de maçaroca substituiu o milho miúdo e o painço e logo fez valer a sua força nutritiva e a sua excelente capacidade de reprodução. Enfeitiçou pela sua capacidade em cumprir a missão, matar a fome, daí falarmos de revolução do milho. Gosto de viajar pelas receitas feitas ou aprimoradas com a farinha de milho. As papas de Sarrabulho ou o Caldo de Galinha com Farinha. Os Enfarinhados ou os Farinhatos são de uma ternura comovente pela inspiração breve cuja simplicidade espanta. É o milho em versão força bruta e em enfeite.&nbsp;</p>



<p>Despedir-me do Minho terá sempre sabor a pão-de-ló e a doces de romarias. As rosquilhas, os bolos de gema, os brancos, as cavacas, os bolinhos de amor. O pão-de-ló é uma espécie de amor primeiro, irresistível dentro daquelas formas de barro. É claro que depois vem o miminho daquele pão chamado de ló forrado a branco de um glacé disfarçado. E nós suspiramos, aguamos, salivamos até chegar à nossa mão. Já os doces de romaria trazem a festa atrás de si. Imagino-os sempre acompanhados da excitação da festa vivida com sofreguidão pela certeza da sua existência breve de um suspiro de descanso. E o cansaço da distância feita para se viver momentos de devoção, mas também de permissão ao excesso. E o Vinhão nas Cavacas. História linda.&nbsp;</p>



<p>Falta perceber as maçãs do Minho, o Melão Casca de Carvalho, a Laranja de Amares e a do Ermelo. Que terra, que céu, que mãos fazem um Melão que parece que tem pimenta e umas laranjas tão doces? É o Minho sim senhora. Vamos lá? Sei que vão ser recebidos de braços abertos.&nbsp; &nbsp;</p>
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		<title>#resistir Olga Cavaleiro: Palavras com sabor a Portugal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Olga Cavaleiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2020 11:04:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Tal como aos outros a vida chama por mim e é tempo de cada um de nós seguir o seu ritmo. Apaixonada pelo meu país continuarei a ir ao encontro dos pequenos tesouros que nos encantam ao mesmo tempo que nos saciam a fome.</p>
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<p>Em cada dia daquela espécie de mundo ao contrário que vivemos nasceu, dentro da minha cabeça, uma história feita de palavras amassadas quase sempre ao fim do dia. A partir da minha janela, nasceram palavras, às vezes fluídas e discretas, outras vezes sólidas e garridas, mas sempre tendo como horizonte os dias que estávamos a viver, felizes apesar de tudo. Nas folhas do meu diário eram palavras proibidas as que nos levavam para o cinzento dos dias e o princípio era não falar do menos bom, pois que as palavras têm força. Quase, quase no fim de um tempo de clausura, fui surpreendida pelo imprevisto e a dor fechou os meus dias mais cedo do que gostaria e limitou a minha escrita. Ainda só com uma mão, não consigo resistir e saem umas linhas mesmo à beira de um importante momento para todos nós. Amanhã, vamos continuar valentes e ousados a olhar o futuro sem ponta de dúvida do que queremos. As incertezas moram longe e o desafio faz subir a adrenalina. A pele transparece a emoção e eu lembro as palavras de todos, as iniciativas em rede, a convicção de que tudo iria passar. E agora o futuro está aí. E cada um de nós ao seu ritmo vai estar preparado. Podemos não saber como vai correr, mas temos a certeza de que o mundo quer a nossa presença, o sabor da nossa comida. O resto vai-se construindo.</p>



<p>Tal como aos outros a vida chama por mim e é tempo de cada um de nós seguir o seu ritmo. Apaixonada pelo meu país continuarei a ir ao encontro dos pequenos tesouros que nos encantam ao mesmo tempo que nos saciam a fome. O meu compromisso é ir atrás da cor, do som, do sabor, do falar, do cantar e entender os instantes que compõem as várias camadas do nosso gosto. O momento em que começámos a olhar o arroz como um acompanhamento perfeito, aquele em que deixámos o tomate entrar na panela, o que nos fez perceber porque o limão é um espécie de protagonista discreto da boa cozinha, o que nos disse que o marmelo poderia ser doce depois de cozinhado, o que trouxe o milho de maçaroca até ao nosso lindo Minho e o encheu de espigueiros, o que fez das várias raças bovinas uma maravilhosa expressão da paisagem, aquele que nos contou como o açúcar foi o mote de uma história doce, e o que nos deu as frutas que ninguém esperava como o melão Casca de Carvalho, essa fruta só percebida por quem vive as dores da sua produção.</p>



<p>Muito me espera, muito tenho para descobrir. Em cada descoberta uma emoção, o sabor será sempre o resultado desse instante em que eu me enterneço com as razões, às vezes, tão simples para aquele gosto. Guardo todos os sabores pelas pessoas que descobri com eles. A mão rodopia pelo teclado e tenta acompanhar o pensamento sempre fugidio, sempre a voar mais do que devia. Mas vale a pena expressar a paixão e o compromisso pelo gosto da nossa geografia que se multiplica em tantos gostos de tantas geografias.&nbsp;</p>



<p>A vida chama por mim e eu, como sempre, vou atrás dela. Na minha procura, as palavras vão ter sabor a mar salgado, a planalto quente, a céu azul, a olhar amigo, a rio que flui e que atravesso com a certeza do que levo de uma margem para a outra. As palavras vão ter sabor a Portugal.   </p>



<p>*Este texto foi escrito dia 17 de maio, antes da reabertura dos restaurantes a 18 de maio</p>
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