Às voltas na escrita, indecisa no que escrever que os tempos são de desafio voraz e persistente, lembrei-me de como os não alimentos davam uma história. Penso muitas vezes no quanto foi preciso experimentar até concluirmos que certos produtos seriam alimento e outros nem por isso. Quantas dores de barriga, quantos desarranjos de estômago, quantas mortes aconteceram até percebermos o que podíamos comer e o que deveríamos rejeitar. Sim, porque se o exemplo mais óbvio é o dos cogumelos e mantemos, após tantos séculos de “experiências” e de conhecimento, tantas reservas em relação ao que vamos encontrando, facilmente poderemos pensar no mais comum dos alimentos. 

Quantos séculos demorámos a perceber um produto como alimento. Sim, porque uma coisa é termos o produto, outra será percebermos esse mesmo produto como alimento. E essa é uma história fascinante. Terá sido a necessidade de que nos levou a perceber as urtigas como alimento bom. E terá sido a abundância que tirou as urtigas da nossa mesa. Ainda há poucos anos se comiam saramagos e outras plantas hoje consideradas daninhas, hoje privilegiamos outros vegetais. A perda de estatuto das urtigas e dos saramagos nunca esteve relacionada com os produtos em si.

Terá sido uma aventura engraçada aquela de ir experimentando as várias partes das plantas. Gosto de ir pensando nas caras feias, nos vómitos, nas más disposições de várias ordens, nas cefaleias e até espasmos que muitos dos nossos antepassados devem ter experimentado com as várias provas que iam fazendo. Pensemos nas folhas do tomateiro. Ora, acredito que depois de vencida a resistência e desconfiança contra aqueles pequenos frutos que tanto sabor trouxeram à panela, se deve ter experimentado as folhas como alimento. É claro que a experiência não deve ter sido a melhor, dado que as mesmas são revestidas de um repelente viscoso destinado a afastar os insetos dispostos a importunar os belos e saborosos frutos. 

Aliás, esta minha ideia lembra-me a história da entrada das batatas na mesa no Império Britânico. As batatas quando foram oferecidas à rainha Isabel I, o cozinheiro real usou as folhas em vez do tubérculo o que levou a um indisfarçável desagrado da monarca. Foi preciso esclarecer qual a parte comestível para que as batatas ganhassem a confiança e a admiração.  

Estamos muito habituados a comer as vísceras dos porcos, das galinhas, dos cordeiros e dos cabritos. Em dia de matança do reco comemos o fígado, os rins, o coração, os pulmões até ficarmos “com os bofes de fora”. Sem preconceitos. Lá fomos arranjando maneira de comermos estas partes internas sem problemas de maior… E a língua da vaca? Petisco imperdível. E os intestinos, buchos e bexiga dos porcos? Ideais para encher os maravilhosos enchidos, não cabe pela cabeça recusá-los como alimentos. E o sangue? Bem, do porco até para fazer mimos doces é usado. Já o de galinha, em algumas regiões do nosso país vai direto para a terra. Não alimento, portanto.  

É claro que não terá sido pacífica a aventura do homem no que à conservação da carne diz respeito. Não terá sido por inspiração divina que os homens atingiram o ponto ideal para o fumeiro e salga das carnes. Quantos dias de tempero, de salga, de fumeiro? Não é à toa que os buchos e as bexigas se comem no Carnaval… e a mostrar a boa gestão da casa, algumas chouriças da matança passada devem durar até ao próximo dia 30 de Novembro, dia de Santo André em que se agarra o porco pelo pé.