O seguinte artigo não é meu de todo. Foi inspirado na leitura de dois livros. É parte do capítulo 19 do Livro “Pensar, Depressa e Devagar” de Daniel Kahneman onde o autor explora os limites do cérebro humano e das respostas automáticas. O meu interesse neste capítulo é pelo facto de vivermos numa época em que essa ilusão mais parece sobressair. 

No livro “O Cisne Negro”, o autor Nassim Taleb introduz a noção de uma falácia da narrativa, a ideia de que histórias falhadas do passado orientam a nossa visão do mundo e as expectativas para o futuro. Estas narrativas aparecem inevitavelmente da nossa tentativa constante de dar um sentido ao mundo. As histórias que as pessoas acreditam ser atraentes são simples. São concretas em vez de abstratas, atribuem um papel muito elevado ao talento, estupidez ou intenções em vez de as atribuir à sorte e focam-se em alguns eventos interessantes que ocorreram, em vez de se focarem num número elevado de outros eventos que não aconteceram. Taleb sugere que os humanos se enganam constantemente ao construírem narrativas atraentes do passado e acreditando que são verdade.

Esta narrativa permite construir uma resposta para cada evento. Um “Cisne Negro” é um evento considerado imprevisível, impactante e só explicável depois de acontecer. Esta possibilidade de explicar um evento depois de acontecer é muito comum na vida humana. A ideia de que “eu-já-sabia-disto-antes” é recorrente no comentário desportivo, vida social e eventos impactantes. Para fazermos sentido do mundo que nos rodeia atribuímos heurísticas rápidas e simples. Se eu disser que “no interior de Portugal existem mais casos de cancro” a resposta será de que existem por falta de cuidados médicos ou falta de prevenção. No entanto se a frase for “no interior de Portugal existem menos casos de cancro” a resposta será de que existem porque as pessoas têm uma vida mais natural e menos stressante. 

Fazendo a ligação com a liderança, e fugindo agora ao livro do Kahnemam o caso mantém-se parecido. No livro “Heróis” o autor Stanley McChristal refere que a liderança não é só “influência”, mas sim relacional de contexto, relações e projeção de simbolismos. Atribuímos mais qualidades ao líder do que simplesmente sorte. Há uma necessidade de enumerar os feitos académicos, os prémios recebidos, as menções honrosas e todos os projetos vencedores onde participou. Assim, tentamos dominar a arte da liderança ao atribuir 3 qualidades míticas:

  • O mito da fórmula – na nossa tentativa de entender o processo, buscamos enquadrar a liderança dentro de uma checklist de atributos, ignorando a realidade que a liderança é extremamente contextual.
  • O mito da atribuição – atribuímos muito aos líderes, criando uma visão enviesada dos mesmos e esquecendo o contributo de outros grupos que o rodeiam. Somos levados a acreditar que liderança é aquilo que o líder faz, enquanto que na realidade os resultados são resultados de um esforço coletivo. 
  • O mito dos Resultados – podemos dizer que liderança é o processo de orientar grupos de pessoas na direção de obter resultados. Mais do que isso a liderança é entendida por aquilo que os líderes representam do que aquilo que alcançam. Uma liderança produtiva requer que os seguidores encontrem um sentido de propósito e significado naquilo que os seus líderes representam, como identidades sociais ou futuras oportunidades. 

O que relaciona as duas realidades? O facto de com muita frequência a necessidade de contar histórias atraentes cria uma aura de misticismo que não é real. A ilusão de que uma determinada pessoa entende muito sobre um fenómeno e de que será capaz de encontrar a resposta.

Esta situação é real nos dias de hoje. Dos milhares de conferências ZOOM que acontecem diariamente, todos tentam fazer sentido da situação através da sua visão, criando uma cacofonia de ideias e conceitos que talvez prejudiquem mais do que ajudem. Uma espécie de bebedeira coletiva em que todos estão convencidos de que entendem o fenómeno e são capazes de criar pensamento crítico sobre ele. Anteriormente escrevi os artigos menos inspiradores da Etaste, os menos arrebatadores e emocionantes. Talvez fossem aqueles que ninguém queria escutar, mas que poderiam ser os mais terapêuticos naquele momento. Evitar sofrer com a ideia de que conseguimos fazer sentido da realidade e que existia uma situação que curava tudo. 

Neste momento vemos a realidade. Restaurantes da periferia sofrem menos que os do centro da cidade, motivados por uma concentração populacional desequilibrada e pela ausência do turismo. Vemos restaurantes de praia com melhores performances que outros tradicionais. Vemos restaurantes muito preparados para responder à pandemia, mas preteridos pelos clientes que preferem outros onde não se cumprem as normas. Ideias de integridade deitadas abaixo pela forma como as pessoas fazem sentido deste evento.

O contexto parece estar a ditar tudo e a seguir uma via irracional. Neste momento as pessoas constroem o futuro agarrados ao que era verdade no passado. Recuperação a acontecer com o regresso dos aviões, que trará os turistas de volta, que voltarão a encher as ruas. Mas poderão mudar os padrões de consumo? Poderão acontecer outras variáveis que inevitavelmente irão ditar o insucesso da estratégia? É bem provável. Mas eu não sei. Não farei prognósticos só com a ilusão de querer entender o fenómeno e um dia poder afirmar que estava certo. 

O que faço é tentar manter viva a ideia de que não sei o futuro, mas que ele é criado cada dia. Participar em eventos que misturem atos do passado e ideias para o futuro e deixar a ilusão de compreensão de fenómenos para outros.