O relógio agora insistia em dar graus. Estampado na cara do frigorífico de casa, um termómetro insistente repetia a mesma hora todos os dias: três graus. Eu e ele, como um massacre, uma responsabilidade onde não só eu tinha que superar como ele tinha que sobreviver. De repente, pancadas contínuas ouviam-se pelas escadas. Massa batida, roupa suja, alma limpa, pão e uma cozinha – um pleno deja vu. O suor escorria pela testa, a água transbordava pelos lábios e os olhos insistiam em não olhar para um relógio estranho. A massa já descansava, mas a cabeça não, a farinha estava no chão mas o corpo não, eu limpava a cozinha mas as ideias não. O pão cozia, mas o desejo não, arrefecia o tempo mas a fome não. O pão lindo numa foto, a memória gravada e mais um dia sem noção. No sofá, as ideias e as estratégias chegavam em tom de responsabilidade e falavam baixinho ao meu ouvido “não te deixes morrer Luiz, amanhã à mesma hora”.