“Este apartamento não é assim tão pequeno. Basta-me imaginar que é grande. Basta-me cerrar um bocadinho os olhos para que ele cresça. E esta fresta de luz pode ser o sol inteiro, se eu quiser que assim seja. Posso ter o sol inteiro a aquecer-me a alma. Mesmo na noite, posso ter o sol inteiro para mim. Estou num espaço imenso. Corro. Centenas de braços que abraçam os meus. Centenas de amigos, de família, todos à minha volta. E eu à volta de todos. Não tenho medo. Não tenho medo. Não me conseguem tirar este mundo meu do pensamento. Não me conseguem matar o pensamento. Eu tenho o olhar que vai mais longe e que se cruza com o olhar de quem vê o longe como eu vejo. Podem afastar-me do mundo. Podem pensar que me torturam. Eu estou aqui. Eu estou aqui. Tão perto da liberdade. Tão perto de ti. À minha volta não existem estas paredes. Só este mar de gente. Sem abandono. Cerro os olhos e vejo o mundo como eu sei que ele será um dia. Basta-me cerrar um bocadinho os olhos para estar fora deste apartamento. Estou mesmo à vossa frente. Passo por vocês. Procuro a notícia da revolução no jornal que está pousado na vossa secretária. Vejo-vos pegar na argola de chaves que está pendurada na parede. Retiram as máscaras que vos escondem o rosto, e abrem as nossas celas, uma por uma. Trocamos sorrisos e abraçamo-nos vitoriosos. Um a um. Sairemos todos juntos por aquela porta. Lá fora, espera-nos um outro mundo.”
(Marta Almendra, adaptação de um excerto do texto da mesma, Diz-lhes que não falarei nem que me matem, 2012)
Para vocês, que (todos) os dias trabalham por uma nova revolução, para que possamos (todos), num dia próximo de liberdade, estar de volta a uma mesa, junto daqueles que amamos.
Obrigada Vasco, Marco, Tânia, Filipa, Pedro, Renata, António, Nuno, Ricardo, Joana Marta, Cristóvão, e de todos os portugueses.
