Quando te vi pela primeira vez eras somente um olho de uma parreira com desejo de um dia vir a ser um cacho ou simplesmente uma sombra. Graças ao coronavírus (ou covid-19), vejo-te agora crescer todos os dias. É bonito ver como cresces cerca de cinco centímetros por dia e, tal como eu, vais vendo os dias passando e a saudade dos amigos aumentando.
Hoje fazem anos o Ricardo Nogueira, mestre na assadura de leitões no seu restaurante Mugasa e o grande, o soberbo, o majestoso e grande amigo Miguel Castro e Silva. Este ano não vamos estar juntos no seu aniversário a beber umas pingas boas e a defumar uns peixinhos com o dedo mindinho da mão esquerda, assim só porque sim.
Porra, que belo fim de semana este que se aproxima, com direito a sol e chuva. Os nabos estão contentes e as gentes também que da janela veem o São Pedro a sorrir e a dar sentido à vida, nesta primavera que hoje começa para o resto das nossas vidas. Primavera essa tão viva e fugaz como tantas outras para a mãe natureza, mas em especial para cada um de nós, que a pode apreciar dentro dos nossos lares como se fossemos ouriços caixeiros acabados de hibernar e nos víssemos privados de a desfrutar.
Vamos ser diferentes a partir de agora, estou certo que sim, mais felizes e mais integrados no que é nosso. Vejo da minha janela a torre de ver a luz mencionada pelo grande escritor da nossa praça, Rui Cardoso Martins, no seu grandioso livro “E se eu gostasse muito de morrer”, inspirado na frase de Dostoievski em “Crimes e castigos” e onde nos leva uma janela…Enfim, tudo para lembrar que houve outros tempos em que essa torre servia para ver a iluminação de uma cidade a ser ligada! E agora, nada nos parece mais distante. E de repente estamos de fim de semana em casa, olhem, estamos todos em casa! A sério que não me lembro da ultima vez que estive num sábado em casa com a família. Choro de alegria e de tristeza, mas sei que vamos ser muito melhores pessoas a partir daqui. E a primavera lá estará para nos confortar com a sua força.
