(continuação do Ensaio publicado ontem)

O pioneiro na área da carne cultivada foi Mark Post, um cientista holandês que produziu o primeiro hambúrguer.

Para se perceber a necessidade de procurar alternativas para a produção de carne, ficam alguns números :

Animais Abatidos

1970 – 13 mil milhões
2019 – 65 mil milhões
Consumo Mundial de Carne
1970 – 101 milhões de toneladas
2019 – 329 milhões de toneladas
Expectativa para 2050 – 425 milhões de toneladas

O grande problema no consumo de carne encontra-se na produção intensiva e não nos pequenos produtores. O atropelo ao bem estar animal e ao ambiente, o uso de hormonas e antibióticos constituem uma factura muito alta para o planeta e humanidade.

O processo de carne cultivada passa por isolar um pequeno volume de células animais e colocá-las numa solução que contém todos os nutrientes necessários para elas se multiplicarem como se estivessem no corpo do animal. Uma única amostra de células permite desenvolver 10.000 kg de carne cultivada, ou seja, bastariam 150 vacas para assegurar o consumo actual de carne no globo. As vantagens ambientais são evidentes desde que a produção em larga escala não dependa de combustíveis fosseis.

A carne que deriva desta produção em laboratório é dada a provar à equipa de cozinheiros que aprovam os parâmetros de sabor e textura. O passo seguinte será a produção em larga escala, semelhante à produção de cerveja, ou seja, em silos com capacidade para toneladas. O tempo de produção varia de 10 a 14 dias, é um ciclo de produção muito acelerado. O resultado é muito semelhante a uma carne picada.

Embora de momento não seja viável, há a possibilidade de no futuro reproduzir peças de carne.

Não se usam hormonas ou antibióticos e não há salmonelas, bactérias ou vírus. Nem qualquer tipo de contaminação relacionada com o abate já que na produção em linha as entranhas e material fecal do animal podem contaminar facilmente a carne.

Prevê-se que, em 2023, esta alternativa tenha o mesmo preço da carne convencional. Existem cerca de 40 empresas em todo o mundo a trabalhar nesta área, muitas delas financiadas pela industria de criação intensiva como a Bell Food ou o gigante Tyson Food. Bill Gates e Richard Branson também investiram nestas empresas.

Outra área em franco desenvolvimento é a Agricultura Vertical em Ambiente Controlado.

O seu desenvolvimento ocorreu depois do desastre nuclear que ocorreu em Fukushima, no Japão, de que resultou uma contaminação dos terrenos agrícolas.

A agricultura começou por querer controlar os factores que influenciam o crescimento das plantas. Esse controlo tem sido progressivo ao longo dos séculos, começou em campo aberto, criaram-se instrumentos para auxiliar os trabalhos e uniformizar, fertilizantes, pesticidas. De seguida, vieram as estufas e os últimos parâmetros que não eram controlados era luz, humidade e temperatura. As empresas Spread em Quioto, Aralab e Jungle Greens a operar em território nacional desenvolvem este tipo de agricultura que permitirá no futuro, por exemplo, os hipermercados a terem a horta de produtos nas suas caves, anulando o transporte e garantindo a frescura. Num futuro próximo será, inclusivamente possível, ter em casa um pequeno equipamento para produção e consumo próprio.

Numa perspectiva de eficiência energética estas arcas são iluminadas por uma luz LED magenta, pois as plantas só absorvem o vermelho e o azul do espectro através da clorofila e do beta-caroteno que fazem parte da sua composição. O algoritmo que controla a produção através de Inteligência Artificial, reproduzindo situações como noites frias ou mais ou menos vento, regula este conjunto de mecanismos optimiza a produção nomeadamente, o teor de fibras, o aroma, o sabor.

Não se usam pesticidas, eliminam-se dessa forma a contaminação dos solos e lençóis freáticos, não é necessário lavar estes produtos, pois não contém nenhum tipo de contaminação, isso aumenta o tempo de prateleira e reduz o desperdício. Reduz drasticamente o consumo de água, só usa 5% da água dos métodos tradicionais e o espaço necessário para a produção. Por exemplo, as 45000 toneladas de alface produzidas em Portugal ocupam 2000 hectares, com esta tecnologia é possível a mesma produção em 10 hectares.

A ciência está a desenvolver tecnologias para nos ajudarem a equilibrar o planeta.

Não sou fundamentalista, como todo o tipo de alimentos, mas tenho consciência. Temos de mudar hábitos, para obter resultados diferentes.

Temos de pensar que os recursos do planeta são finitos e que os mesmos precisam de ciclos para se regenerarem, temos de respeitar a nossa casa, viver em equilíbrio e cuidar de todos os seres.

Tempo de refletir, mudar hábitos e sobretudo aprender.
A nossa alimentação vai mudar e temos de estar preparados para isso.