A pandemia Coronavírus está a gerar uma enorme perturbação no mundo inteiro, cuja dimensão o medo de um futuro anormalmente difícil inibe de projetar.

O modelo adotado por quase todos os Estados de combate a um vírus com enorme capacidade expansionista que não escolhe raça, cor da pele, sexo ou idade, desorganizou, sem desconstruir, o modo social de convivência do ser humano. Mas não só. Feriu, ainda não se sabe com que gravidade, o mais recente desenvolvimento desse modo conhecido por globalização que aproximou o Mundo de si próprio e originou o crescimento do PIB mundial.

A estratégia de combate à enfermidade baseia-se essencialmente na imediata reversão do modo social de convivência pela aplicação duma determinação legal: afastamento social, reclusão familiar para isolamento, definição de serviços mínimos nacionais essenciais à defesa da vida. Assim, o efeito dizimador do vírus circunscrever-se-ia aos segmentos populacionais mais vulneráveis e seria retardada e condicionada a sua expansão. Não foi exatamente o que aconteceu, porque o vírus com enorme velocidade de transmissão a condizer com a era, foi mais rápido do que as medidas para o conter e suprimir bem como do que o próprio convencimento humano acerca do mal que o perseguia. Não, não podia ser tão grave como estava a ser anunciado… admitiram quase todos. Hoje mesmo, o mais arrependido deve ser o primeiro-ministro britânico.

Porém, a gravidade é bem maior porque há que contar com os efeitos sistémicos da pandemia: redução drástica da atividade económica (recessão), expansão da pobreza, da desigualdade decorrente do desemprego e do enfraquecimento da democracia (crise social).

São na realidade três crises mundiais que se conjugam sequencialmente: a sanitária, a económica e a sociopolítica.

A primeira terminará como outras epidemias ou pandemias precedentes bem conhecidas, cada vez menos infetados, menos vítimas e, por fim, doentes residuais. A segunda começará com um enorme rombo nas contas públicas, a que seguirão a quebra do PIB que significa quebra do rendimento nacional distribuído, a desagregação das empresas, as galopantes imparidades no sistema financeiro, o empobrecimento das famílias. A terceira é a inevitável consequência das anteriores.

Nada que escrevo é novo. Nem novos são os remédios apropriados para as três crises. A vacina, a liquidez, os programas sociais. O mundo, mais cedo ou mais tarde, depois de chorados os mortos, esquecê-los-á; novas empresas e outras instituições financeiras surgirão, a pobreza não será extinta, a desigualdade permanecerá como dantes… apenas uma preocupação. Talvez seja recordado que durante o longo período de crise o beneficiário terá sido o clima.

A robustez e a eficácia do combate a essa perturbação global, porque o é como nunca foi, de que depende a rápida erradicação do demónio de três rabos que hoje nos persegue, pode ser conseguida rapidamente se as Nações cooperarem sem egoísmos nem preferência pela liquidez.