Em casa, resguardado, tenho tempo para muita outra coisa que a precedente normalidade quotidiana não me permitia. Por exemplo, já utilizo completamente e com eficiência o controlo remoto do televisor. Fantástico? Nada! Uma ninharia… porque os meus netos mais novos, com 30 meses de idade, já o usam com exemplar eficácia e quando não selecionam a imagem televisiva que esperam ver, primeiro observam o dispositivo durante uns segundos, depois gritam até que a desconformidade fique resolvida.
Com a disponibilidade revelada, num dos vários vídeos que recebo diariamente, encontrei um exercício académico muito interessante apesar de me parecer um dejá vu.
O professor entra na sala de aula com frasco na mão que o coloca em cima da sua mesa de trabalho e perante a perplexidade dos alunos, já numa fase avançada do secundário, enche o dito recipiente com bolas de golfe. Fica cheio, como reconhecem os discípulos. A seguir despeja no mesmo recipiente uma porção de gravilha que preenche os espaços ainda disponíveis. Fica de novo cheio, como reconhecem os alunos. Depois, vaza uns gramas de areia que ainda têm acomodação suficiente. E uma vez mais o frasco fica cheio, como reconhecem os discípulos já possuídos de irónica curiosidade. Por fim, tira da mochila, que traz consigo, duas garrafas de cerveja, abre uma delas e verte parte do seu conteúdo naquele enigmático frasco que fica então complemente cheio, como reconhecem os alunos sem conter o riso incrédulo. O professor explica a experiência. Este frasco representa a nossa vida: se a preenchemos primeiro com coisas de pouca importância, invertendo a sequência do exercício, não reservaremos lugar para as mais valiosas. Concordando e rindo, os alunos disparam a perguntam crítica: e qual é o significado da cerveja vertida? Resposta pronta. – Há sempre lugar para beber um copo de cerveja com os amigos.
Esta pandemia que nos atormenta, mais do que nenhuma outra na história da humanidade, mesmo considerando as outras causas da destruição massiva do homem conhecidas – pandemia, cataclismos naturais, guerra – determinou a suspensão em grande escala da vida humana em conjunto, operação mundial denominada “distanciamento social” onde nem lugar há para tomar um copo de cerveja com um amigo e comentar o dia de trabalho num bar acolhedor. A razão reside no facto de se conceder primazia absoluta à defesa da vida humana, o único valor social atendível em função do qual todos os demais ou o servem sem perigo ou são postergados sem apelo nem agravo.
A minha geração, aquela que comigo já perfez sete décadas, não tem experiência de tamanha provação global: a quase total suspensão do relacionamento humano. A política de proximidade que elegeu o atual Presidente da República também foi cerceada.
Ficaram vazios os salões, templos, hotéis, cafés, restaurantes, clubes, recintos desportivos, por fim, as praças e as ruas urbanas o mais recente símbolo da resistência ou desobediência civil. Ficaram separadas as famílias, os amigos nos quais se incluem os da onça. A comunicação à distância está assegurada e densificada, mas nenhuma tecnologia substitui o contato humano, os olhos nos olhos, a distância da mão que é capaz de semear. O teletrabalho funciona e alargar-se? O trabalho vem até nós. Não é, por enquanto, o mesmo que irmos ao trabalho e partilharmos os sucessos e insucessos no mesmo ambiente. A compensação pela suspensão do trabalho paga pela S.S. não tem o significado de um salário merecido e correspondente a tarefa executada.
À distância a verdade não é mesma, não tem o sabor da verdade comunicada e percecionada com todos os sentidos presentes.
Até quando as circunstâncias nos impedirão de tomar um copo de cerveja com os amigos?
Com que intensidade regressará a primazia do ter sobre o ser? Quem ou que ideologia estabelecerá o equilíbrio?
