Nós que estamos ligados ao ensino em geral e, em particular, ao ensino da hotelaria, não podemos parar. Esta semana começámos a lecionar online, depois da semana passada ter sido de muitas reuniões e de formações para podermos terminar o semestre da melhor forma possível. Nalguns casos, representou refazer numa semana, toda a planificação de aulas do semestre e pensar noutras estratégias e metodologias de ensino, não só para cumprir o programa, mas também para motivarmos os alunos. É claro que ao princípio é estranho, passamos duma perspetiva presencial onde os alunos nos olham nos olhos e nos motivam com a sua presença, para passarmos a ter uma audiência online, com aulas síncronas, onde para além de sermos professores temos que cativar a nossa audiência, tal qual um entertainer, que corre o risco de perder o seu público, se a atuação for monótona. Num dos estabelecimentos onde dou aulas, temos uma academia gourmet, criada para que os futuros gestores hoteleiros que preparamos não tenham apenas a teoria, mas saibam o que é fazer um prato, um cocktail ou servir um vinho. Na Universidade em questão, sou docente da unidade curricular de Enogastronomia, que atualmente é a única ponte entre o operacional que fui e a minha atividade de docência, que hoje exerço a full-time. Para quem me conhece, sabe que a harmonização sempre foi uma das minhas paixões e posso estar horas a fio a falar de ligações prováveis e improváveis de comida com vinhos. Harmonizar é brincarmos com os nossos sentidos, sentirmos na boca o contraste do doce e do salgado, da acidez com a gordura, do picante e do unami e a seguir testarmos um, dois, três vinhos até chegarmos ao casamento perfeito ou a vários casamentos quase perfeitos. Todas as quartas-feiras durante 3 horas provamos vinhos, preparamos comida e trocamos impressões, sobre como e o que servir com quê. Esta quarta-feira tinha, portanto, que dar aula e transportar este jogo dos sentidos para as aulas virtuais. Pensei em abrir uns vinhos, explicar a sua composição em frente à câmara e, a seguir, preparar umas saladas clássicas porque, segundo o programa da unidade curricular, devíamos nessa aula falar de saladas e da dificuldade de harmonizar vinho com as mesmas. Acabei por abandonar esta ideia, parecia-me muito 24 Kitchen ou algo assim parecido. Mas a aula tinha que ser prática, porque as aulas teóricas já tinham acabado. Acabei por apresentar imagens de saladas clássicas e exóticas e fazer uma espécie de quiz, para os alunos responderem a justificarem a sua escolha. Não é fácil estar em casa de quarentena, de pijama e motivarmos os alunos, mas o nosso papel, para além de docentes, é fazê-los acreditar que eles, alunos de gestão hoteleira e de turismo, são o futuro da indústria e que esta crise vai passar. Em suma, as aulas virtuais têm estado cheias, o futuro da hotelaria e da restauração não pára e os alunos continuam a preparar-se para assumir o lugar que lhes é reservado na indústria hoteleira.