Inaugurámos no dia 21 de Janeiro de 2020 o restaurante d’As beatas, na Graça, em Lisboa, como um projeto feminista interseccional, cheias de ideias sobre feminismo, resistência, incluindo um projeto entre a performance e a cozinha de autora – Cooking Landscapes – que até teve um momento de partilha, a 16 de Fevereiro de 2020, que nos parece agora um momento-milagre e transgressor.
A beata Diana fez o seu 35º aniversário no dia 12 de Março de 2020, dia em que a beata Telma já só cumprimentava as pessoas com os cotovelos e tentando manter alguma distância social – é performer, investigadora e tinha passado as semanas anteriores a ver espectáculos, ensaios, ensaiar, treinar, com imensas pessoas que circulavam globalmente no contexto das suas vidas – e percebemos que não fazia sentido manter as portas abertas, também porque a beata Inês cumpria os critérios como pessoa de risco. Fechámos no dia 13 de Março de 2020. O restaurante d’As beatas teve assim uma vida que durou cerca de um mês e 22 dias. A beata Inês foi para Évora, sua cidade natal, para a sua quarentena, Diana e Telma ficaram em Lisboa.
Nos primeiros três dias ficámos literalmente deitadas no sofá a olhar para a tv sem acreditar no que estava a acontecer, só sentíamos dormência. Sabíamos que não iríamos sobreviver, sabíamos que era o fim de um sonho que não chegou a acontecer, mas não conseguíamos reagir, era só uma sensação de suspensão da vida. Ao quarto dia de quarentena, reagimos. Sem qualquer reflexão sobre como caminhar, como encarar o projeto, como pedir ajuda, decidimos começar um canal de Youtube para partilhar receitas de alguns pratos d’As beatas e onde temos partilhado a receita do pão que ali era feito todos os dias, outros pães, broa, e o que se pode fazer com estes. Agora que passaram 10 dias sobre esse primeiro momento reativo, continuamos sem perceber o que nos está a acontecer e sem conseguir perspetivar o futuro, mas alguns aspetos desta nossa reação tornaram-se claros: é importante para nós que aconteçam dois movimentos: a partilha com os clientes, amigos e interessados, e a construção de memória.
Temos chorado muito. Temos rido às vezes. Temo-nos revoltado muito, sem conseguir construir resistência neste momento, por não conseguir ainda percebê-lo e perceber que ferramentas conceptuais e práticas devemos usar. Estamos perdidas. E não conseguimos deixar de partilhar o que era, o que seria, o que poderia ter sido o d’As beatas. Acreditamos que existe futuro, mas um futuro diferente, em que teremos que repensar como pode ser configurada a restauração em Portugal, a quem se dirige, e quem lhe corresponde. O turismo é inexistente neste momento e será quase inexistente nos próximos meses e não fazemos ideia de como será nos próximos anos. O medo caracteriza uma parte dos nossos dias. Continuamos a cozinhar, a partilhar, a treinar, a ensaiar, a ler, a escrever. Porque é urgente que o façamos. Não concebemos não o fazer. Não sabemos como não o fazer. E é muito importante pensar como estarmos juntos nesta caminhada da distância social quando o que até agora propusemos na vida passou pela existência de um espaço físico de encontro e pela partilha na presença e proximidade.
Pensamos nas pessoas menos privilegiadas: quem não tem casa, quem não tem uma casa onde possa estar em segurança, quem perdeu o emprego e não tem uma rede de apoio, quem sofre de perturbação de ansiedade ou de depressão. Pensamos nos nossos clientes com quem gostaríamos de estar, para quem gostaríamos de estar a cozinhar e a criar. E desejamos que o futuro nos traga novas formas de estar, de cozinhar, de sobreviver economicamente, de promovermos a criação, a não discriminação (agora todos somos “O Outro”, aproveitemos o momento para reformularmos novas formas relacionais e não hierarquias nessas mesmas formas), a generosidade, a comunidade. E sim, talvez isto seja, nas circunstâncias atuais, #resistir
