Na sua obra “O Deserto dos Tártaros” o escritor Dino Buzzati retrata a vida de um militar de carreira chamado Giovanni Drogo que desperdiça a sua vida dentro das paredes de uma fortaleza enquanto aguarda pacientemente uma invasão de tribos estrangeiras. E quando finalmente esta invasão acontece, ele encontra-se demasiado fraco e incapaz de contribuir e participar. Giovanni Drogo esperou por uma luta que desejava ardentemente poder lutar, transferindo para si e para os seus homens o risco de proteger toda uma sociedade, mesmo que isso implicasse viver em reclusão e isolamento. 

Esta situação serve como a anti metáfora daquilo que vivemos na atualidade. Enquanto que Giovanni viveu à espera de um acontecimento, os hoteleiros e a sociedade vivem hoje uma realidade a qual não esperavam. Esta diferença, por mais insignificante que possa parecer, corresponde fundamentalmente a duas formas de viver a vida divergentes – os que vivem à espera de um único acontecimento e os que simplesmente vivem. 

Os hoteleiros são então chamados a #resistir para a defender os seus negócios e a sociedade. #Resistir é a última fronteira. É uma ideia a levar a sério. Pequenas contribuições individuais que geram grandes impactos.

A hotelaria é dos sistemas mais resilientes que conheço. Cada encerramento de restaurantes tem ajudado a melhorar a oferta, a qualidade e o dinamismo desta indústria. Mas ao contrário das crises anteriores, desta vez somos chamados a defender a indústria de um possível encerramento total. Não se trata de uma simples quebra na procura. Desta vez é a indústria toda que pode padecer.  

O objetivo não é transferir o risco para alguém. O objetivo é esperar por medidas concretas por parte da sociedade para evitar uma gigantesca hecatombe. 

A noção de risco é algo que sempre foi constante na vida dos seres humanos. A vida em sociedade permitiu transferir o risco até a um ponto em que a sua perceção era tão baixa que nos deixou a sensação de ter desaparecido por completo. Até aparecer este vírus com a sua brutal dose de realidade.

O negócio da restauração vive dentro de um mercado. Esse mercado embora seja de livre oferta e procura é altamente regulamentado por autoridades nacionais e locais permitindo o seu funcionamento. Essas autoridades mitigam o risco ao consumidor através de autoridades para condições de segurança alimentar, segurança contra incêndios e outros eventos naturais, perceção de qualidade (o famoso livro de reclamações), estética exterior, esplanadas e muitos mais aspetos. Regulam também a oferta através dos planos diretores municipais, investimentos em infraestruturas de apoio e de acessibilidades. Mas mais do que tudo, influenciam a procura, através de políticas económicas garantindo ou não mais rendimento disponível. 

Os empreendedores por seu lado absorvem o risco através do financiamento utilizando capitais próprios ou recorrendo à banca. Assumem risco também na escolha dos modelos de negócio, na oferta que pretendem incorporar no mercado e na formação de recursos humanos capazes de partilharem e transmitirem ao cliente a sua visão do negócio e de hospitalidade. O Estado recolhe impostos em toda a cadeia de valor e assume-se como um parceiro de negócio. E neste momento #resistir é chamar esse parceiro à razão para que possa ajudar a defender o valor gerado pela cadeia de valor associada à hotelaria, que neste momento corresponde a mais de 15% do PIB nacional e a 9% do emprego total. 

Estando os negócios intactos e prontos a reabrir, um dos riscos imediatos que o Estado terá que garantir é o emprego. E garantir o emprego é garantir a subsistência dos negócios em toda a cadeia de valor. E da mesma forma que se assume com um parceiro de negócio regulador agora pode aparecer como parceiro colaborador. As formas de o fazer são imensas e algo que poderei falar num próximo artigo. 

#Resistir não é uma transferência de risco, mas sim uma luta para evitar ter que transferir o risco para a sociedade através de perdas financeiras e despedimentos. #Resistir é a ideia de abandono de uma dada proporcionalidade em que vivíamos e assumir medidas extremas na defesa da indústria.