O mundo existente na nossa mente não é uma réplica da realidade. A nossa expectativa do prevalecimento de determinados eventos é distorcida pela intensidade e prevalência das mensagens a que estamos expostos. Uma das consequências desta situação é a perceção de risco associado a determinados eventos que obtêm mais cobertura e tempo de antena. Um exemplo é a perceção de morte por acidentes rodoviários. Embora as tromboses matem mais pessoas do que os acidentes, a prevalência diária de notícias sobre acidentes rodoviários faz com que a perceção de risco associado a acidentes seja superior à de risco por trombose. A esta condicionante Daniel Kahneman chamou de heurística de disponibilidade, em que percebemos o perigo conforme a sua prevalência nas mensagens.
Esta característica – a disponibilidade de informações – é deveras importante no atual momento em que vivemos. A cobertura ao novo vírus é de tal forma alargada, que as nossas emoções estão carregadas de sensações de perigo em todo o lado. Ao transportarmos estas emoções para os negócios, sentimos uma diminuição da confiança e uma sensação de perda.
Os humanos não gostam de sentir que perdem. De facto, segundo Kahneman, aceitamos mais facilmente a sensação de não ganhar do que a sensação de perder. As pessoas fazem uma avaliação emocional dos resultados de uma determinada ação que pretendem, e a noção de aversão ao risco encontra-se sempre presente na tomada de decisão, exceto nos casos em que as pessoas possuem lesões cerebrais.
A reposta a perdas é sempre superior à resposta a ganhos. No entanto, os seres humanos possuem a capacidade de fazer uma limpeza às suas emoções e recomeçar de novo. Para isto necessitamos seguramente de mais notícias positivas e de maior motivação por parte da sociedade. Também deveríamos treinar a aversão ao risco. A versão de Séneca era treinar a pobreza uma vez ao mês. Ele usava as piores roupas, comia a mais pobre das comidas e dormia no chão. Era o mais perto que estava de não possuir nada, de ter perdido tudo. O objetivo era o de o aproximar a um dos maiores medos do subconsciente humano – perder tudo.
#Resistir é lutar contra o medo, não só por parte dos donos de estabelecimentos, mas também dos consumidores. Mais do que nunca necessitamos de realismo e de compreensão dos fenómenos em que vivemos. #Resistir é entender que a perda é parte da vida e que, como no passado, iremos ultrapassar esta crise de forma vitoriosa. Muitos profissionais de hotelaria estão neste momento a fazer isso mesmo, uns através de ações de solidariedade, outros através de ideias inovadoras que permitirão continuar o negócio.
Se nos recordarmos do período da descolonização, em que mais de um milhão de portugueses regressaram ao país, implicando um esforço colossal da sociedade em acolher, alimentar e proporcionar uma vida condigna, podemos ter a confiança necessária de que qualquer que seja a perda, esta será suplantada.
