O atual período é conturbado, mas invulgarmente cheio de oportunidades. Vivemos numa época em que temos tempo disponível para pensar a forma de como viver e de como agir. Tempo dedicado a pensar o mundo em que vivemos, a redefinir prioridades, a abandonar ideias e tendências menos positivas e esta imensa sensação de oportunidade de recomeçar tudo de novo. Como te sentes em relação ao Governo e à liderança? Como te sentes em relação à resposta da sociedade?
No entanto todos sabemos que continuamos a ter dificuldades em colocar um sentido no mundo em que vivemos. Como será o panorama económico depois de tudo isto terminar? Como irá o meu negócio adaptar-se? Irá ficar tudo na mesma ou o mundo será regido por um novo paradigma?
Desta forma é muito fácil criar mecanismos de defesa durante a quarentena, especialmente em projetar a responsabilidade deste evento no Covid-19. Os mecanismos de defesa são construções psicológicas criadas de forma inconsciente que visam reduzir e minimizar os efeitos de muitas situações que ocorrem no dia a dia e que são consideradas ameaçadoras pelo indivíduo. No entanto, o comportamento defensivo é também a raiz de muitos dos problemas que enfrentamos connosco e com os outros. Leva-nos frequentemente a acusar outros de forma incorreta, a interpretar um simples criticismo como um ataque cruel e a recorrer ao sarcasmo e ironia como alternativa à sinceridade.
Na gestão, a utilização abusiva de mecanismos de defesa pode levar ao fracasso. Defender a nossa construção de ideias exteriores transforma as pessoas em maçadoras e agressivas. Uma das expressões que escutei muitas vezes, quando determinados chefes se referiam ao sucesso de um outro chefe era com racionalização do género “só teve sucesso porque tem acesso a dinheiro” ou “só porque sabe falar bem” ou então o inevitável “com o dinheiro que tem também eu”. Isto são exemplos de racionalização, formas de dar sentido ao nosso próprio mundo de experiências e criar explicações que consideramos altamente racionais e corretas. Podemos desta forma “amortecer” a dor, mas não a conseguimos eliminar.
Neste momento é mais fácil racionalizar. Quem não sabe que o negócio só está complicado porque veio uma crise? Até há duas semanas todo o panorama da Hotelaria e da restauração era maravilhoso, tudo era extraordinário até que veio o vírus.
Racionalizar o que nos está a acontecer pode ser o maior dos erros de gestão porque nos fará evitar sofrer a dor e a angústia de ter que reabrir com todas as falhas e defeitos que inevitavelmente, todos os negócios possuem. Racionalizemos uma parte, mas deixemos a dor ajudar a encontrar soluções de futuro. Na dor será possível descobrir que áreas deveremos fortalecer no nosso negócio. Quem sabe melhorar a formação. Fazer conferências de Skype onde ensinamos aos nossos colaboradores algo mais sobre vinhos ou sobre serviço. Investir também em formação de vendas para que quando reabrirmos consigamos aumentar o valor médio por cliente. Ou então simplesmente reorganizar os ficheiros que andávamos há muito a adiar.
Ray Dalio, escritor do livro “Princípios” tem uma fórmula que lhe granjeou sucesso e o transformou em bilionário ‘Pain + Reflection = Progress’. Ao confrontar a origem dessa dor e ao resolvê-la ganharemos experiência e sabedoria. Abraçar a dor e confrontar os problemas que ela causa são os passos essenciais para genuinamente poder ultrapassar este atual cenário.
Não racionalizes e trates a crise como domingo à tarde. Podes perder o comboio de oportunidades que surjam a seguir.
