Dentro de tudo aquilo que já foi dito deste confinamento pandémico a que estamos obrigados, eu queria confessar, em suspiro público, um sentimento que é partilhado por quase toda a gente: Que saudades de ir almoçar e jantar fora…
Anseio pela rentrée. Poucas coisas nos têm feito tanta falta quanto isso, porque é à mesa que muita da nossa socialização se faz. Somos “animais” sociais, vivemos de forma gregária. Precisamos disso como condição da nossa humanidade.
O relógio biológico durante esta crise também está comprometido, ninguém sabe a quantas anda, “é sábado ou domingo?”, “está na hora de almoço ou lanche?”. E isso também terá consequências.
A gestão possível tem sido feita ao dia. Por vezes à hora, quando se aguardam mais medidas e mais restrições ou mais alterações, nas horas das conferências de imprensa de conselho de ministros.
E quando isto “descongelar”? A preocupação é grande num sector como o da Restauração, intimamente ligado ao Turismo, de mãos dadas com a Hotelaria. A qualificação e a exigência estavam num patamar francamente bom. Havia mercado para todos, da cantina ao estrela Michelin. E havia aquilo a que me referi muitas vezes como o “problema bom”: havia escassez de recursos humanos, da cozinha ao bar e à sala. Desemprego é o lado mau da história.
E agora? Em tempo de situações excecionais, medidas excecionais. Estancámos momentaneamente o sector com as medidas de lay-off, mas precisamos de futuro. Planeamento de fundo para dar vida ao sector.
Não tenho fórmulas mágicas mas creio que é preciso pensar em reerguer isto. Precisamos de uma estrutura de serviço para o day after, que dê sustentabilidade aos grandes, pequenos e médios empresários.
Vejo ideias de quem arregaçou as mangas e não ficou a olhar para dentro do casulo, do take-away ao e-commerce.

Ocorre-me a frase que também uso muitas vezes, a da folha em branco…como é que poderia ser? Ignorando os quês e porquês, precisamos dessas ideias na folha em branco, estruturá-las e depois lutar por elas. Atrevo-me a uma, por absurda que pareça.
Explico-a com um sentimento que há dias também suspirava: quando isto reabrir, o que farei entre outras coisas, será almoçar e jantar fora todos os dias!
E porque não, por exemplo, ser obrigatório que o subsídio de refeição dos trabalhadores seja gasto em restaurantes, cantinas, refeições? É uma estruturação possível. Uma mão lava a outra e certamente com uma economia local a mexer, com este pequeno gesto, a roda começava a girar…mesmo que temporariamente, era uma ajuda a um sector que não pode estar à espera de um novo arranque do turismo para sobreviver. Porque senão não chega lá. Os ganhos são evidentes até numa perspetiva de saúde nutricional.
Da minha parte, que saudades que tenho do futuro…