Nunca consegui manter um diário. Nunca fui capaz de me sentar todos os dias sem falhar e escrever o que me ia na cabeça. Os pensamentos aparecem, fluem, dispersam-se e, sem me dar conta, todos eles ficaram por registar.

Hoje cumpro nove dias de isolamento. Nove dias em que só saí de casa para colocar o lixo no contentor do outro lado do passeio. Nove dias em que tanto mudou.

Fecharam-se negócios, pediram-se tomates, seguiram-se as alfaces e a coragem. Pessoalmente, acredito que os nossos governantes não tomaram esta ameaça a sério… Desvalorizaram as consequências que estava a deixar na Ásia e pensaram que o pequeno rectângulo no canto da Europa ia ser esquecido pelo vírus.

As medidas vieram tarde e foram exigidas pelas pessoas. Mas vieram e, dentro de todos os buraquinhos da legislação, estão a ser violadas pelas mesmas pessoas que as exigiram. Porque é só passear o cão; é só dar uma corrida para se manterem saudáveis; é só ir comprar ali uma coisinha que se esqueceram…

Estamos a viver uma ameaça real. Rodeados de países muito mais “preparados” que nós e que se estão a desmoronar rapidamente e à vista de todos. Por cá, enquanto alguns passeiam à beira-mar porque o dia está óptimo, outros vão à luta com tudo o que podem. Enfermeiros, médicos, administrativos dos hospitais, camionistas, pessoal de supermercados e mercearias… Que orgulho em todos eles! E que orgulho por ver cozinheiros a chegarem-se à frente e a cozinhar para manter toda esta gente com força e nutrida para que continuem a batalhar!

Em pouco tempo, a batalha será para os próprios cozinheiros conseguirem manter os seus trabalhos e negócios e, aí, espero que haja quem nos dê a mão também, quem nos apoie. Mas uma batalha de cada vez…

Até lá, fiquem em casa! Protejam-se e protejam os outros!