Regressei a França numa sexta-feira 13.
Na segunda-feira seguinte era dia de voltar ao trabalho: menus para preparar, testes para fazer, ideias para avaliar. O plano era reabrirmos o hotel e os restaurantes a 24 de Abril, seria um mês produtivo e em que daria para fazer tudo “comme il faut”. O meu sous-chef deveria chegar dia 1 de Abril e os commis no dia 15. O plano estava traçado.

No sábado, o primeiro-ministro francês anunciava o agravamento das medidas relativas ao covid-19: encerramento total dos estabelecimentos comerciais não essenciais (só ficavam abertos supermercados, farmácias, bancos e lojas de tabaco e jornais). Restaurantes só poderiam vender em take-away, ajuntamentos de mais de 100 pessoas completamente proibidos, o uso de transportes públicos deveria ser restringido ao estritamente necessário. As escolas, essas, já estavam fechadas.

Domingo: Na estação de Saint-Charles, em Marselha, os cafés estão todos fechados (e que falta me fazia um café, mesmo francês!). Mas a loja dos jornais estava aberta – e cheia de gente, que procurava um café ou um snack de última hora. A “real politik” é outra coisa.
Apanho o comboio e chego a Hyères, sem ter a certeza de que as ligações de barco para a ilha de Porquerolles estivessem a funcionar normalmente. Felizmente estavam e consigo chegar ao destino.

Terça-feira: O Presidente francês dirige-se aos seus compatriotas numa intervenção televisiva à hora do jantar. Quinze dias de quarentena obrigatória, as fronteiras encerradas, o anúncio dum pacote efectivo de protecção a quem se visse sem trabalho e que permitiria às empresas colocarem os seus trabalhadores em desemprego temporário (sem perda de rendimentos para eles), aliviando assim o peso que a perda de receitas por si só já acarretaria.

Afinal, não vamos abrir a 24 de Abril, vamos adiar para 15 de Maio. Toca a avisar as equipas que vão começar mais tarde. Mais tempo para testar mais coisas, penso eu. Pois seria, se conseguíssemos que nos viessem fazer entregas! Mais de metade dos fornecedores não o consegue fazer. Têm os seus trabalhadores em casa e os mínimos que conseguem cumprir destinam-se a hospitais, lares de idosos e outros lugares prioritários, que precisam de alimentar os seus.

Cada vez que saímos do hotel para ir ao supermercado local fazer algumas compras, temos de levar uma declaração para apresentar a alguma autoridade com quem nos cruzemos no caminho. Compromisso de honra em como só saímos para fazer compras de primeira necessidade.  No supermercado só podem estar quatro pessoas em simultâneo. Há fila. Para entrar, temos de calçar as luvas de látex que trouxemos do hotel. Ainda há papel higiénico, dois lombos de salmão congelado a 18 euros, um quilo de limões a 4 euros… não vai mal o negócio por aqui!

Apesar da quarentena, não me posso queixar. A paisagem é bonita, o tempo tem estado bom, temos um parque de 50 hectares onde podemos arejar. Só é pena que as praias, mesmo privadas, estejam interditadas neste período.

Então e vamos mesmo abrir a 15 de Maio? Ninguém sabe, mas também ninguém acredita que assim seja. Diariamente chegam e-mails a cancelar reservas. Mas também a fazer novas demandas. É neste equilíbrio incerto entre incredulidade e optimismo que vive o sector. Impossível fazer planos, nos negócios como nas nossas vidas.

Afligem-me os números, as meias-verdades que políticos em toda a parte vão contando aos seus cidadãos. Aflige-me poder estar doente, não ter sintomas, e não ter como o saber. Lembram-se do HIV? De como se apontava o dedo a quem se recusava testar, com medo de um resultado positivo, pondo assim em risco a sua saúde e a de terceiros? Pois, agora, são os testes que nos são recusados. Quando o maior perigo é o do aumento das cadeias de transmissão que leve ao total colapso dos sistemas de saúde e com isso podermos chegar aos 80% de população contaminada, haja quem consiga entender. A OMS também não entende. “Fiquem em casa que vai ficar tudo bem”.

Fiquemos então em casa. Nunca, como agora, houve tanto tempo para ler e fazer fichas técnicas.