A omnipresente pandemia batizada COVID-19, tema que monopoliza todas as conversas, suportes, redes sociais e Media, tolda-nos o espírito, tolhe-nos os movimentos, tira-nos a necessária presença de espírito.

Mas a indelével marcha do tempo é implacável: os dias vão-se passando, e o final do mês de março abeira-se de nós a passos largos, silenciosos, mas largos e decididos.

Estamos a poucos dias do final do mês de março de 2020 e, como é habitual no final de cada mês, seja no setor da restauração, seja nos demais setores de atividade, vence-se a obrigação de pagar salários, rendas e uma miríade de fornecimento e serviços externos, desta feita com a especificidade de não terem existido proveitos ou receitas em março de 2020, porque a atividade da restauração cessou de forma abrupta, antes mesmo de existir a necessidade de encerrar completamente todos os restaurantes e de os confinar/converter em meros serviços de take-away.

Como já se ouviu dizer, estamos no meio de um tsunami, e num tsunami não há bóias que nos ajudem. Esta linguagem figurativa parece forte, mas a realidade que vivemos é ainda mais forte e exasperante, e o final do mês de março abeira-se de nós a passos largos, silenciosos, mas largos. 

Mais que uma tempestade, podemos estar a embarcar numa mudança de paradigma e numa acelerada viagem sem regresso, cujos reais contornos ninguém conhece de momento, sendo que a pandemia COVID-19 foi apenas o gatilho que despoletou tudo o que se lhe seguirá inevitavelmente.

Mas há que encarar a adversidade que vivemos com esperança e forte determinação. Como em tudo na vida, também há aspetos positivos na situação adversa que vivemos, como sejam a maior tolerância e capacidade de se gerarem equilíbrios, entre governo e oposição, atenta a menor propensão para aproveitamentos políticos, e um maior foco na objetividade e na busca/obtenção de soluções.

Sejamos francos, as medidas de apoio que foram anunciadas pelo Estado não servem, não são adequadas, seja pelos irrealistas prazos – ninguém no setor da restauração tem condições para suportar dois meses nestas condições – e percentagens e forma de aferição das perdas no caso do “lay off simplificado”, seja pela falta de injeção verdadeira de capital pelo Estado, de cash a sério e imediato no setor, porquanto as linhas de crédito anunciadas – e ainda não passíveis de serem executadas – mais não são que isso: mais dívida, colocar o setor da restauração a contrair mais dívida, a colocar dívida em cima de dívida, coagindo a Banca comercial a atuar contrariada, já que em frontal violação de um dos seus mandamentos sagrados: “não colocar dinheiro bom em cima de dinheiro mau”.

Todavia queremos crer que são medidas sujeitas a melhoramentos, são “medidas evolutivas”, em função do desenrolar dos inesperados e calamitosos acontecimentos e do necessário compasso com os demais estados membros da EU.

Mas voltando ao que ora releva, à necessidade de buscar e conseguir soluções e medidas de apoio do Estado que sirvam ao setor da restauração, que resolvam a crise em que fomos mergulhados: há vontade, há disponibilidade, há abertura, há propostas, há interesse em colaborar de forma construtiva com os nossos governantes que vivem dias exasperantes e inesperados, só não há tempo.

O nosso tempo escasseia, já que o final do mês de março abeira-se de nós a passos largos, silenciosos, mas largos e decididos. 

E a deriva e o naufrágio ali tão perto… Não naufraguemos. Naveguemos antes para águas seguras, de forma empenhada e decidida, com o apoio e compromisso sério de todos.