O acordar hoje é diferente, é com pouco vigor, é mais um “vamos lá ver o que vai ser hoje”. Há 10 ou 11dias de quarentena, mas, às vezes, parece uma eternidade! Aqueles outros dias em que via o restaurante cheio, a azáfama da correria de quem trabalhava naquele frenesim… que saudades disso! Que saudades dos clientes, da casa cheia, do stress do dia a dia, da minha equipa!

Aqui estou eu, Gonçalo Queiroz, 34 voltas ao sol, cozinheiro e proprietário do Origens, em Évora, no coração do Alentejo. Aqui, alimento seis famílias, temos sonhos e projectos para implementar e o Covid-19 está a mudar as nossas vidas. Estamos todos no mesmo barco, a remar, sem saber onde vamos parar.

O vírus entra sem bater à porta, atirou-nos a todos para esta situação em que não sabemos o que fazer… é um desespero! Às vezes com vontade de chorar, de desistir de tudo e, ao mesmo tempo, uma grande vontade de lutar e de lá está, #resistir.

Decidi então não desistir e não desistir é ser resiliente, lutar. Alguns presidentes mundiais tem dito que isto “é como se fosse uma guerra” e outros declaram guerra ao vírus, algo que não vemos, não sabemos onde está e não sabemos como atacar sem ser ficar em casa, lavar as mãos e manter a distância social.

O meu dia a dia tem sido ir à guerra, e tentar #resistir a isto tudo. Desde o início que percebi onde isto estava a ir, e com a quarentena imposta virei-me para os take away, inicialmente sem sucesso, mas agora o telefone toca todos os dias, algo que já tinha saudades… chegam-nos encomendas de várias pessoas e extratos sociais, mas as que nos tem sensibilizado mais são pessoas mais idosas que não podem sair de casa, estão sozinhas, não conseguem passar 4 horas na fila do supermercado ou cozinhar para elas. 

Sinceramente, não vou ganhar muito dinheiro às custas dos take away, isto não paga as contas nem os salários, mas sinto que estou a fazer qualquer coisa e faço-o por dois motivos, faço-o por mim, para me manter são, pois psicologicamente acho que muita gente se irá abaixo, e estou a fazê-lo pela comunidade, existem muitas pessoas idosas, ou de mobilidade reduzida, ou sozinhas que estão a precisar de comida em casa.

O que estamos viver é algo inédito, daqui a poucos anos vai haver muitos estudos em relação a isto, desde psicologia, economia, sociologia, mas não nos podemos esquecer que o que estamos a viver é história e nós fazemos parte deste momento. Temos de dar constantemente apoio uns aos outros, pois ao fim e ao cabo somos seres humanos, e nós gostamos de comer, e nós cozinheiros gostamos de partilhar o que fazemos.