Faz este ano cem anos da morte da Santa Jacinta Marto, uma das videntes de Fátima, morreu do que se chamava vulgarmente “gripe espanhola”, embora a doença oficialmente se chamasse pneumónica.
Atacava sobretudo as crianças. Assim, os irmãos Francisco e Jacinta não resistiram e, mesmo trazendo Jacinta para um orfanato de clarissas junto ao jardim da Estrela, em Lisboa, (todos os mosteiros e conventos tinham sido confiscados pelo Estado depois da implantação da Republica), esta pobre menina veio às extensas da sua madrinha e do Padre Formigão e aí a teve doze dias até que houvesse quarto no Hospital Dona Estefânia. Viveu numa solidão sem par, sem visitas de família, de amigos, apenas da religiosa que tinha como missão levar-lhe a comida e, por vezes, no pouco tempo, falar com ela.
Quem chegou até esta parte do texto, ainda não entendeu de todo a razão desta história, mas lá chegaremos.
Tinha nove anos esta menina que vinda da mais profunda miséria, vista por todos como um extraterrestre, a Igreja não aceitava as aparições de Fátima, o Governo da altura perseguia-as, os jornais escarneciam e ali estava aquela pobre criança sozinha num hospital público onde veio a morrer só!
Isto foi há cem anos quando uma das maiores e das últimas pandemias percorreu a Europa, matando em Portugal mais gente do que a Primeira Guerra Mundial.
A grande lição disto tudo é que manteve-se por dois anos de 1918-1920, atacava, ao contrário desta, os mais jovens, durava do Inverno a Maio… depois terminou, tudo voltou ao normal. Anos mais tarde tivemos de novo uma segunda guerra mundial, pior do que a primeira, e ninguém aprendeu nada “tudo deve mudar para que tudo fique como está!”.
A mãe do meu avô Constantino (avô por afinidade, era padrasto de minha mãe) morreu também da gripe espanhola, ele morava por detrás do hospital Joaquim Urbano, no Porto, onde hoje é a Universidade Lusíada, contava que o número de mortos eram tantos que os moribundos eram colocados nos caixões ainda vivos, sabendo que dali a poucas horas morreriam, assim, sozinhos já prontos para serem enterrados…
Os caixões começaram a faltar, então, começaram a fazer-se de cartão prensado, forrados a tecido roxo. Acontecia por vezes que, ao transportar-se, o morto era mais pesado, o fundo cedia e o morto caía no chão durante o transporte feito pelos familiares. O meu avô, pequeno, com seis anos, ria-se imenso, mas a graça era pouca.
O mundo, as pessoas, em momentos como os que assistimos hoje, a uma escala mundial, mesmo assim, depois de tudo passar, quando tudo acalmar, rapidamente esquecem. Aquela criança que morreu sozinha faz cem anos, ou agora, os italianos, os espanhóis, nós, que não pudemos velar os nossos parentes, os idosos que não têm visitas, o Bispo de Leiria- Fátima que hoje ao ler a reconsagração de Portugal e Espanha a Nossa Senhora chorou (nunca tinha visto um Bispo chorar em público), os médicos e pessoal hospitalar exausto, as crianças privadas da escola, as pessoas livres mas prisioneiras em suas casas, uns palermas que quebram as regras achando-se únicos num egoísmo atroz (que não devia ser condenado com dinheiro nem cadeia, mas sim com trabalho cívico).
Ficaremos dentro em pouco mergulhados, de novo, numa crise económica, uma vez mais saberemos nos reerguer, uns com muitas dores, outros nem se levantam, outros nem dão por nada, outros enriquecem ainda mais, outros continuaram pobres como sempre foram, outros escravos de um mundo que nem sabe que eles existem. “Tudo deve mudar para que tudo fique como está!”.
Deixo-vos com um belíssimo poema, cheio de esperança, de uma poetisa avó de uma grande escritora Rita Ferro – Fernanda de Castro. Ela foi, ao seu tempo, o despertar da criatividade e da sensibilidade de muitos artistas como David Mourão Ferreira. Uma vez mais, em tempos de penumbra, no meio de uma ditadura, uma mulher ergue a voz e canta!
A Árvore
In: “Asa no Espaço “ , Edições Ática, 1ª edição 1955
“…Mas um dia… Um dia a Primavera
Voltou com as suas folhas palpitantes
Como pequenas assas verdes
O Estio
Com as suas flores,
Os seus jardins suspensos.
O Outono, com os seus pomos
E as borboletas de oiro
Das suas folhas a danças ao vento
O Inverno, com os seus musgos seus descarnados braços nus
Mas a Árvore,
A bela Árvore era sempre a mesma
Na ilimitada confiança
Foi então que aprendi,
Da Arvore , a lição:
A vida é uma longa paciência
E uma longa esperança”
