Em mais um dia que “sempre a perder”, não consigo abandonar-me à sina dos dias de hoje. Recuso-me. No início deste ano, e em matemáticas tontas de quem não desiste, pensei: Este é um ano bissexto, o que é só por si mais raro. Tenho agora 44 anos e faço 22 de profissão e mais umas considerações absurdas de quem também o é. Nada, nem ninguém, nos poderia preparar para o que vivemos, certo e amplamente discutido. Os dramas pessoais, sociais, económicos, mundiais são tantos que não é fácil segurar a tábua da disposição. Mas chego também à conclusão de que sempre assim foi, sempre houve alguém que em momentos de felicidade de outros esteve à beira do desaire. A diferença era a alternância. Ora tu, ora eu. E assim íamos vivendo amparados, sozinhos, felizes e completos. Mudou! O que não mudou e o que me dá aquela força de ir e ser? Não mudou os que quero, não mudaram os que me querem e não muda o que queremos. E aqui chego, o que queremos, para além de todas as vontades de cada um. A unidade e clubismos à parte, a união. Vinte e dois anos disto que se cozinha em 44 de vida. Pronto! A partir daqui já é mais do que a metade da minha vida. É mais que eu. E o que me trouxe! Trouxe-me a vida, as pessoas, o ver, o sentir, o aprender e o ser. Trouxe-me a humanidade que não sabia ter. Não quero voltar. Obrigado a tantos que vieram, foram, e aos que ficaram, um obrigado igual. Aos que estão cá, estarei enquanto me for permitido. Mas também aquele abraço só por isso. Sentir-me parte de vós é um privilégio. E hoje, depois de mais um dia, já de si nada fácil e por tudo, com as pequenas vitórias e os dramas de cada qual; perdemos mais um. Não somos nada individualmente, somos muito como um todo, mas ainda assim pode ser melhor. Pelo todo. Apeteceu-me partilhar o meu estado de alma e obrigado por haver desse lado alguém que eu respeito e que me atura. Não estou feliz, mas não desisto de tentar. Mesmo num dia em que se perdeu mais um. Diriam os outros: Mais um “pintor morreu”.