O cozinheiro chegou a casa.
Depois de ter suspendido a atividade do restaurante, o meu marido chega a casa. Sou casada com um cozinheiro vai fazer, para o ano, 25 anos. Já não precisamos de trocar palavras, eu sinto o que lhe vai na alma. 
Dia 1 – O dia imediatamente a seguir:

Por autodeterminação, e por razões óbvias, o meu marido assume a cozinha da casa. Uma casa que terá seis comensais até tudo isto passar. Uma casa que eu estava habituada a organizar, a gerir, a planear o “comer” e onde, por vezes, também cozinhava (apesar de achar que não sei cozinhar, é verdade!). No dia imediatamente a seguir, a cozinha, rapidamente, passou a ser o centro de tudo. Ora então vejamos:
Dia 1: O cozinheiro e a bricolage.

Eu: Olha, já que estás em casa podíamos arrumar umas coisas….

Ele: Sim, mas temos que ter disciplina. 

Eu: Quê?

Ele: Fazemos assim, uns cortam, outros envernizam, outros pregam, outros pintam. Em 30 metros  quero ter tudo pronto, ok?

(Será que ele está à espera que se diga, sim Chef?!)
Dia 2: O cozinheiro e o jardim. 

Eu: Olha, precisamos de por uma corda naquela trepadeira para ela subir pela parede. Ajudas -me? Já fui buscar a corda, toma…

Ele: Isto não é corda! É fio de cozinha, não vês?!

Eu: Ops!
Dia 3: O Chef manda! 

Ele: More (diminutivo nortenho de amor), vira o arroz e desliga-o daqui a dois minutos, deixa bringir os espargos durante 90 segundos e depois tiras para o gelo, ah e daqui a 5 minutos desliga este tacho e tira para o lado. Eu vou lá fora grelhar a carne e já venho!

Ele (dez minutos depois): A sério que ninguém desligou o arroz?! 

Usou a expressão “ninguém” somos seis e a tarefa era minha, mas jamais o cozinheiro que também é marido, deitará as culpas à sua amada… jamais! Ele: Ninguém tirou o tacho para o lado?

Eu: Ops, more… bringi os espargos. Estão bem, não estão?

Ele: Sim, more, estão bem….vai ficar tudo bem.
Dia 4: O Chef e a disciplina militar!

Ele: Como está toda a gente em teletrabalho, para a semana vou requisitar um de vocês, à vez, para a cozinha.

(Penso eu: Requisitar a quem?) 
Dia 6: O Chef e a esposa vão às compras.

Saímos de casa, para ir às compras. Faltavam apenas cebolas e couves para a sopa. Pão não falta porque estamos a fazê-lo em casa.

Merceeiro: Olá Chef, que vai ser? Olhe lá, os da capital devem-se estar a ver à rasca porque lá só há supermercados e quando acabar a comida nos supermercados, quero ver…

Pois é – responde o meu marido que é de poucas palavras. 

Diz o merceeiro: Chef, não precisa de cebolas ? Trouxe-as da minha horta hoje, acabadinhas de colher…

Dia 7: O Chef e a normalidade das coisas.

Depois de mais uma refeição sublime, equilibrada, saborosa e de cortar a respiração, feita pelo cozinheiro Mor, um dos miúdos pergunta: ⁃ Manheeeee (mãe)…  ⁃ Sim? Respondo. ⁃ Lembras-te quando estávamos no Alentejo e tu fazias os crepes? ⁃ Mmmm …. (disfarço) tenho saudades do Zé Júlio Vintém e da Catarina.  ⁃ E quando a mãe fazia os pastéis de soja… comenta o outro filho. ⁃ Já não somos vegetarianos, respondo a disfarçar novamente. ⁃ E aquela tarde da mãe que levava chantilly e morangos!, diz o outro.  ⁃ Ok já percebi…. querem que eu faça aquele prato, não é? ⁃ Sim mãe, a Michelândia …. diz o meu mais velho que já leva 21 anos. A Michelândia tem 19 anos e é o meu prato icónico… basicamente é arroz misturado com qualquer coisa, mas tem um ingrediente especial, um segredo que a torna única. ⁃ Olho para o meu marido e digo-lhe: More, amanhã cozinho eu… ⁃ Sim amor, responde ele …. amanhã a cozinha é tua.

Dia 8: Dia da família.

Eu: O que vamos comer?

Ele: Assado, já temperei ontem.

Eu: E a Michelândia?

Ele: Amanhã, amanhã fazes…
E venham muitos dias assim e quando “isto” acabar vamos continuar a cozinhar, cada um à vez e no seu lugar. Isto vai acabar, eu sei. Posso não saber cozinhar mas sei amar.