Satisfazer o cliente, fazer uma cozinha regional de autor. Servir bem, criar e gerir emoções e paladares, fazer soar as campainhas do paraíso a cada garfada de uma orelha de porco grelhada, ou de uma dentada numas pétalas de toucinho cremosas, crocantes, cheias de sabor!

No filme  “into the wild” o sonho dele era ser feliz a ser selvagem e a aproveitar tudo o que a natureza nos dá, um pouco o que gosto de fazer ao pegar em três ingredientes puros e, com simplicidade, colocar as papilas gustativas a saltar, o cérebro a sonhar e afinal o paraíso existe, como dizia Emile Hirsh neste grande filme “de que serve a felicidade se não a puderes partilhar”. Tenho a sorte de viver numa família linda e maravilhosa, que gosta de comer e aprecia os bons sabores e prazeres da gastronomia. Lido com palatos de A a Z, cinco pessoas cinco paladares diferentes, é fantástico cozinhar assim, com o sentido de multidisciplinaridade. Tenho que agradar à Francisca que, com sete anos, gosta de frango cozido, massas e cabeças de passarinhos fritos, come tudo mas com o toque da simplicidade sem grandes complicações; depois, com 16 e 18 anos, os meus filhos estão a ficar cada vez mais exigentes e comem, com gosto, tudo o que for à mesa e tenho a minha amada Catarina, que é a minha maior fã e também a minha maior crítica. 

E vai daí, o que eu queria mesmo, era mesmo o meu sonho, era abrir um restaurante! E, em 2002, este sonho concretizou-se. Há 18 anos que mostro e ponho a minha partilha e felicidade na mesa, impedido agora de o fazer por causa deste maldito vírus, estou a sofrer, a sofrer não só por mim, mas por todos os que em agonia sofrem.

Mas, ao mesmo tempo, nunca se pensou tanto no futuro como agora e nunca a base de criação, ou seja, o parar para pensar, foi tão longo e tão extenso, tantas mentes a pensar no seu futuro e no seu desenvolvimento interior, no seu eu e no seu próximo, na sua casa, no seu negócio, na sua vida e no modo como a têm vivido. Sim, porque o futuro nunca foi feito de tanto passado como hoje quando nos deparamos com a paragem.

Imaginem quando estamos todos à conversa, numa jantarada num monte algures no Alentejo, isolados, com as luzes ligadas, o barulho do frigorífico, barulhos parasitas de um monte e de repente vai-se a luz… o silêncio, a paragem de tudo, quase que ouvimos o coração da pessoa que está ao nosso lado e a nossa preocupação é: o que possa ter causado aquela falha de energia? É noite e recorremos a velas, o lume da lareira não se apagou e ouvimos o estalar da lenha a arder que até aí nem tínhamos reparado, o barulho dos chocalhos dos animais lá fora, o cão a ladrar, a música estava alta é que o Wynton Marsalis tem que se Ouvir Alto, “é geral” alguém grita do quadro elétrico, e então fica tudo à conversa sobre os temas mais diferentes e alguns até bastante assustadores como fantasmas e aterradores seres de outro mundo e dimensão, assamos um chouriço nas brasas bebemos mais um tinto e sentimo-nos reconfortados pelo silêncio. Quando volta a electricidade… porra, podíamos estar assim mais um bocadinho sem o sentimento de culpa de irmos desligar o quadro e descongelarmos o congelador ou arrefecer o forno eléctrico. 

Quando a nossa luz voltar, em relação à economia, sei que vão ser momentos difíceis, mas em relação à criatividade, meu Deus, estou ansioso por ver a avalanche de ideias que aí vêm no retomar do ciclo e da ansiedade de tornar as pessoas felizes e satisfeitas como nunca.

Como se diz no Alentejo em relação aos carneiros e à vida “quanto maior é o recuo, maior é a desterrada”.

E quando a luz se voltar a acender vamos todos olhar uns para os outros e pensar que, quando estivemos parados fomos tão felizes apesar da ansiedade que tudo descongele.