Todos os dias, de quando em vez, me lembro de quando renascia tudo de novo outra vez. Tudo mudava, de repente, tudo se tornava igual. Os jogos que jogávamos na rua, ao pião, à macaca, ao lá vai alho, jogos de escondidas e apanhadas. Olhávamos para o céu e fazíamos triticos com as estrelas, sonhávamos com um desejo que nem sequer sabíamos desejar. E que bom era o não saber, o inculto é mais culto quando o desejo é limitado e vão. O ignorante o mais sábio perante a incerteza de uma situação.

O que quero hoje e não quero, onde me leva?

A lugar nenhum e a todo o lado! Perdido no futuro a agarrado ao passado. O que quero, o que desejo, tudo tem a ver com um conhecimento adquirido que… não! Não vais conhecer! Não vais aprender! Simplesmente não vais porque não podes! E depois? Depois, nada. Ficas, ficas e não sais de casa!

Tudo o que parecia claro e evidente, começa a parecer-te um pouco menos óbvio. Afinal o desejo que tinhas, a ambição de conhecer outras culturas, outras paragens, ficam reduzidas a um clic ou a um passar de um dedo numa tela de televisão.

Em casa temos um mundo a explorar! Onde vivemos, onde sempre estivemos, mas não conhecemos! E que de repente nos apercebemos que, não temos uma casa. Mas sim um dormitório.

E agora…

A paixão de ficar em casa. Transformou-se em ódio, não nos reconhecemos no nosso leito de conforto, o amor que sempre tivemos por uma simples pantufa, se transforma em desprezo e ódio pelo ócio.O negócio inimigo do ócio, amigo da saúde. Em que ficamos?

Em 1988, andava eu na escola secundária aprendendo os dramas da peste negra e outros dramas da história, como o grande fogo de Roma, mas o nosso interesse era mais ir comer uma empada de galinha acabada de sair do forno, na taberna do sr. Marchão, onde os petiscos variavam entre as empadas, o bucho grelhado, a mioleira de rim, ou os diversos escabeches.

Achávamos muito estranho, o racionamento imposto pelo dito senhor, primeiro, só servia uma empada por pessoa, de seguida, não servia brancos traçados, dizia “aqui, não se estraga, nem o vinho, nem a gasosa”. Então, cinco imperiais! A melhor da cidade e das melhores que me lembro de ter bebido. Servia do seguinte modo: primeiro distribuía os restos do tabuleiro por debaixo da bica por todos os copos, de seguida, tirava as ditas imperiais, Cristal, a marca da cerveja. Perante as reclamações dizia: “Então? Esta quem é que a paga?”. Ninguém reclamava.

Claro que, depois destas aulas, depreciativas e de tantas calamidades, aquilo até fazia algum sentido. Ou não.

O que será que nos espera, nestes tempos de peste com nome de Covid? E que de negro nos atormenta a mente. De que nos lembramos? Quais as nossa vivências e experiências? O que sabem os yupies e millenials sobre gerir rações de combate ou subsistir? Como dizia o meu avô “ cá calharás”.

Depois vieram os Pink Floyd com o delicate sound of thunder, e o learning to fly, e confortbly numbe, os Xutos sempre a partir os GNR a partir, mas, corações e emoções, a Dina com o amor de agua fresca, porra, que fomos tão felizes, e vivemos a ouvir as estórias dos pais e dos avós, da guerra e do 25 de Abril, “Liberdade” mas o que é essa merda? É ficar em casa? É não poder sair à rua?

É ter uma sardinha para quatro? É passar fome? É ter um par de sapatos em casa para a família?

Estão a gozar? O que eu sonhei ter ido a woodstock e, como o Joe Cooker, gritar “I need a litle help for my friend”.