À procura de instruções precisas sobre como montar uma catapulta, vou dar aos gregos e, inevitavelmente, ao poema de Herberto Helder:

“e então indago de mim se eu

próprio tenho paixão,

se posso morrer gregamente,

que paixão?”

Leio que uma catapulta é uma arma de arremesso construída com uma espécie de colher. Já não me lembro onde foi, aprendi que a colher era o único talher sem carácter bélico. Uma faca usa-se para cortar, um garfo serve para espetar e, afinal, a aparentemente inofensiva colher de bordos polidos, pode usar-se para arremessar. Toda a paz que eu sempre depositara numa colher, subitamente estremeceu. 

Se a colher de uma catapulta pode atirar pedras a grande distância, como não imaginar o lançamento de um abade de priscos? Como desviar esta ideia de panna cotta voadora ou, de uma crema catalana em puro movimento? Com um engenho, a pastelaria pode ir além muros.

Vejo que os primeiros mecanismos se baseavam em tensão, depois em torção e, por fim, usavam a gravidade. Ignoro isso. O que eu procuro é em como erguer uma força para nos (re)inventarmos como homens e não como máquinas.  

Eu quero construir uma catapulta com paixão: 

“os cegos, os temperados, ah não”.