O tempo é tão só meu neste afastamento, que percebo que não me pertence. Os momentos em que a solidão é mais feroz, são também aqueles em que o sentimento individual perde o sentido. Há um destino colectivo que valida o afastamento do outro, mesmo quando não nos é pedido ou imposto. Agora, urge a distância.
A separação morde, mesmo a um mínimo de um metro de segurança, no espaço vazio de um abraço, na ausência fria de um beijo. É por isso que, em legítima defesa, trinco pão e nozes, devoro o doce de tomate, e ainda ataco as bolachas. Quem disse que resistir era fácil? 
Conto quinze amargos dias sem trabalhar, com a regra confirmada por um bolo. Disseram que as contas não apresentam perigo de contágio, e não permanecem em isolamento. São inúmeras as questões que me coloco, sem as longas caminhadas que me ajudam a clarificar o pensamento. Ainda assim, penso na lógica de uma cadeia e no desenho de um círculo. Talvez esteja equivocada e seja antes um circo. Como acabei de comer pão, canto a ideia das feras. 
Volto ao tema inicial e concentro-me na ambiguidade da distância que ora afasta, ora une: na saudade, na solidariedade, na luta por um bem maior e universal. 
Longe de ser santa, faço um sermão aos gatos sobre a importância dos valores absolutos, e de como o respeito é a base de todas as relações. Convido-os a uma mesa redonda, com a fome necessária para provar a realidade do outro e sem julgamentos de entretenimento televisivo (poupem-me às unhas de fora). Insisto que é hora da partilha, do minuto de silêncio contra o silêncio e do segundo sem hesitação. 
Salve-se quem pudermos. 
Estou certa que vai ser mais fácil resistir a isto, do que ir desafiar outro pacote de bolachas. Quem vai ficar redonda sou eu.